Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV JOSÉ EDUARDO
— Abram espaço, ela desmaiou! — gritei, com Catarina nos braços, encharcada e sem forças.
As pessoas se aglomeravam ao redor, cada uma com uma reação mais histérica que a outra.
— Meu Deus, o que houve com ela? — perguntou meu pai, com o rosto em pânico.
— Caiu na piscina! Depois a gente conversa, agora preciso deitá-la em algum lugar. — Minha voz saiu firme, mas por dentro eu sentia o coração disparado.
— Vamos levá-la para dentro! — disse Corine, a governanta, sempre prática.
— Minha sobrinha… pobrezinha! — exclamava meu pai.
E então, como se nada fosse sério, a voz venenosa de Nathalia cortou o ar:
— Também acho. Daqui a pouco ela acorda. — completou Leila, rindo nervosa.
Mordi a língua pra não explodir. Preferi ignorar. Apertei Catarina contra o peito e atravessei a sala com ela. Senti as duas serpentes tentando me seguir, mas Corine foi rápida:
— Nada disso, vocês ficam aí fora.
— Mas queremos ajudar! — reclamou Nathalia.
— Se precisar, eu mesma chamo vocês. Por enquanto, vão aproveitar a festa. — A voz da governanta saiu firme como aço.
“Boa, Corine”, pensei. Aquilo era a última coisa que eu queria: fofoca e falsidade ao redor da menina desacordada.
Deitei Catarina no sofá. A cada segundo, o medo do pior me corroía.
— Ai, meu Deus! Se algo acontecer com essa menina, eu não sei o que faço! — disse meu pai, quase chorando. — Ela está respirando, José Eduardo?
Coloquei a mão sobre o peito dela.
Corine se abaixou ao meu lado.
Foi então que reparei. A pele pálida, os lábios desenhados, molhados ainda pela água, os fios pretos grudados na têmpora. Ali, inconsciente, parecia uma boneca delicada.
E eu, idiota, me peguei pensando em como ela era bonita. Tão bonita que doía.
— Será que não seria uma boa ideia fazer respiração boca a boca? — perguntou meu pai.
— Não precisa, ela tá respirando! — retruquei rápido demais.
— Melhor prevenir do que remediar — insistiu Corine.
Meu pai me olhou com aquela cara de ordem disfarçada de conselho.
Engoli seco.
Admita, José Eduardo. Você quer isso. Quer sentir a boca dela consciente.
Mas agora… era “só um socorro”. Certo?
Debrucei-me devagar. Tapei o nariz dela, e meus lábios encostaram nos dela. Frios. Suaves. Um gosto levemente doce, que me arrepiou por inteiro.
— Sopra, meu filho! — apressou meu pai.
Empurrei o ar para dentro dela. Foi quando Catarina reagiu.
Tossiu, arfou, e os olhos se abriram num susto. Por um segundo, ficaram grudados nos meus, confusos, intensos. E então…
PÁ!
A bofetada ecoou pela sala. Minha bochecha ardeu como fogo.
— Quem te autorizou a me beijar, seu asqueroso?! — ela disparou, ainda fraca, mas feroz.
Eu perdi o chão.
— Afaste-se de mim! — gritou ela, empurrando minha mão.
— Com todo prazer, Catarina! — explodi. — Eu devia era ter deixado você afundar naquela piscina!
O silêncio que se seguiu foi pesado, cheio de choque. Corine tentou intervir, mas eu não quis ouvir. Subi as escadas de dois em dois degraus, ainda com a marca da mão dela queimando meu rosto.
Mas, dentro de mim, algo queimava mais forte que a raiva: a lembrança daqueles lábios, frios, suaves… e o jeito como ela me olhou antes de me odiar.
E eu sabia, no fundo do peito, que essa história estava longe de acabar.
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NOTA DA AUTORA: "Se até o ódio deles já pegou fogo, imagina quando o desejo começar a falar mais alto… Vocês acham que Catarina vai resistir por muito tempo?"







