José apareceu como um ruído antigo que ninguém mais espera ouvir, mas que ainda sabe exatamente onde machucar.
Ágata soube antes mesmo de vê-lo. Foi o jeito como o ar pareceu mudar quando ela saiu do prédio naquela tarde. Um pressentimento seco, pesado, que fez seu corpo inteiro entrar em alerta. Anos podem passar, cidades podem mudar, mas o instinto não esquece quem já foi ameaça.
— Ágata.
A voz veio atrás dela. Grave. Conhecida demais.
Ela virou devagar. José estava ali, parado na calçada como se tivesse todo o direito de ocupar aquele espaço. O mesmo olhar controlador. O mesmo sorriso torto de quem sempre acreditou ter posse sobre algo que nunca foi dele.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou, firme, sem dar um passo atrás.
— Vim ver meu filho — respondeu ele, cínico. — Ou agora eu preciso de permissão pra isso também?
— Você nunca veio ver o Filipe — rebateu. — Não começa.
José deu um passo à frente, invadindo o espaço dela de propósito.
— Fiquei sabendo que você anda se ach