Mundo ficciónIniciar sesiónFaína Stepanov
Ele fez o convite no qual deveria ter dito não.
Esse era o tipo de situação que aprendi a evitar. Porque sei que homens como Hugo vinham carregados de intenções boas demais para um mundo podre como o nosso e de intenções boas o inferno está cheio. Afinal, eu mesma já havia enviado muitas almas caridosas para o colo do demônio.
Mas ainda assim, vendo em seus olhos, havia algo que me fazia querer ficar ali, quem sabe seja apenas a curiosidade para saber o que ele havia preparado. Estávamos em um pequeno teatro antigo, que sei muito bem que no subsolo tem uma pequena arena que foi usada na época do império como local de entretenimento para matar os condenados com leões e tigres.
Sustentava o seu olhar e tentava entender o porquê de ele estar tentando me decifrar. Ainda não conseguia conceber que ele chegou a me ver quando era uma criança praticamente nua na frente de homens que babavam excitados ao me ver. Para mim, isso é uma tremenda coincidência e não melhora em nada a ideia de estar com ele nesse lugar, sabendo que ele me viu no momento em que estive mais frágil.
Meus instintos estão dizendo que qualquer coisa que venha dele é uma combinação perigosa, mesmo sem saber em que sentido estou sentindo esse perigo.
— Um lugar melhor, é? — repeti, cruzando os braços e inclinando levemente o corpo na direção dele. — E o que exatamente você pretende fazer quando chegar lá, Hugo?
Claro que já sabia a resposta.
Ele soltou um meio sorriso, desses que tenho certeza que fazem qualquer outra mulher se derreter ao receber um pouco de atenção dele. Hugo não é um homem feio, ele com seus cabelos e barba ruiva e o sotaque escocês faz com que qualquer uma se renda aos seus atributos.
Hugo estava há um passo para poder me alcançar e preciso olhar para cima para poder manter meus olhos fixos nos dele. Mesmo tendo quase um metro e oitenta, estar na frente dele fez com que me sentisse uma mulher pequena. Ele com certeza deve ter um pouco mais de dois metros e, com o corpo musculoso que possui, poderia muito bem o medir como um apartamento.
Um espécime com um pouco mais de dois metros quadrados.
O único problema que existe entre ele e a possibilidade de me levar para a cama é que sinto uma leve aversão ao sexo oposto.
— Isso vai depender de você.
Dei um passo à frente, nos deixando ainda mais próximos, mas sem invadir totalmente o espaço dele. Pude sentir o cheiro que ele estava exalando e algo dentro de mim se remexeu. Olhei no fundo dos seus olhos e sabia com uma certeza que me deixou ainda mais intrigada de que ele não me faria mal.
Pelo menos nos próximos minutos…
Criei coragem e deixei que uma das minhas defesas fosse desligada para poder me permitir sentir o que ele estava querendo me proporcionar. Ainda com a minha cabeça e meu cheiro inalando o meu prazer com a Elena, ergui a mão devagar e sem pressa, com a intenção de tocar o colarinho de sua camisa. Seria um gesto simples que estava tentando não o deixar carregado de segunda intenção. Mas, com o peso do desejo dele, estava falhando miseravelmente.
— Você não tem ideia de onde está se metendo — murmurei baixo quando toquei com a ponta do dedo em seu queixo.
E aquilo não era um aviso que dou aos homens que tentam se aproximar de mim é mais como um recado avisando que sou um risco para suas vidas.
Queria poder dizer que é um convite disfarçado, queria não ser uma mulher quebrada emocionalmente como sou, que busca refúgio e um pouco de acalento quando consigo libertar outras mulheres para não lembrar tudo o que passei na minha infância.
Contudo, por algum motivo, eu tinha consciência de que, independentemente do que ocorra entre nós nesta madrugada, será devido a sentir que não estou em perigo ao seu lado, pelo menos não essa noite.
Já tinha decidido e não tem como voltar para onde estava durante a noite. Quero entender o que é esse sentimento que estou sentindo ao me aproximar desse escocês e, porque o modo como ele está me olhando está me deixando excitada.
— O que… — ele pegou em meu pulso e levou a minha mão até o seu rosto.
Minha respiração acelera e sinto que uma crise de ansiedade estava começando. Ele mantém os olhos fixos nos meus, sua mão prende a minha em seu rosto e a outra mão toca o meu peito lentamente.
— Respira comigo… um… dois… três…
Faço o que ele me pede e, mesmo sentindo a minha pulsação acelerar, é difícil seguir as suas ordens. Nesse momento, preciso regular a minha crise. Dou um passo para trás para me afastar, mas a sua mão sai da que ele mantinha em seu rosto e ele me segura pela minha cintura.
— Não vou deixar você se afastar, Faína, precisa aprender que estou ao seu lado e, não importa o que aconteça, passaremos por isso juntos.
Tento me desvencilhar dos seus braços, mas não consigo.
— Me solta!
— Não!
— Me solta, porra…
Ele aperta ainda mais e sinto quando seus dedos tocam em meu queixo, erguendo o meu rosto. Sinto as lágrimas se formando. Odeio isso, não suporto saber que alguém, principalmente alguém que não conheço, me vê tão vulnerável assim.
— Vamos aprender a confiar um no outro!
Nego com a cabeça e sem força para lutar com esse homem, deito minha cabeça em seu peito.
— Isso, pequena loba, chore, mas saiba que nunca a tocarei de forma para machucá-la.
— Não sou uma mulher que você imagina, Hugo, tenho problemas que escondo das pessoas que amo e tenho certeza de que você não está pronto para aceitar as minhas dores e meus segredos.
— Muito pelo contrário, Faína. Estou aqui pronto para estender a mão e a puxar para dentro dos meus braços sempre que sentir o medo e o desespero como está sentindo, querer tomar conta de você.
Emito um soluço, não por gostar do que ele falou, mas essa é a primeira vez que ouço alguém dizer sem ser a minha família. Ergo os olhos em sua direção e, mesmo ainda com a respiração acelerada, sinto que tudo está ficando mais calmo e silencioso dentro de mim.
Nossos olhares se encontram, mesmo sentindo um pouco de indecisão, ergo o meu rosto um pouco, talvez seja impulso, mas sei que não é carência. Quem sabe seja só o cansaço de sempre ser forte, ou aquela que está disposta a fazer tudo o que for pedido por sua família.
Não quero aceitar que tudo o que estou sentindo agora é porque estou na sua frente. Depois de semanas idealizando como seria o nosso reencontro, porque eu sabia que em alguma hora teria que acontecer.
— Quero que me leve para onde você disse… — digo antes que a coragem acabe.
Sei que estou deixando um monte de incertezas dentro de mim em silêncio nesse momento, mas algo me diz que tudo isso é necessário e, mesmo que algo dê errado, tenho certeza de que Zakhar não se negará a dar um tiro na cabeça dele.
— Faína se você entrar comigo naquele quarto, vou querer você para mim, vou lutar para conquistar o seu respeito e o seu amor…
A mão dele vem para o meu rosto, ele tira uma mecha que estava na frente dos meus olhos e lentamente se aproxima com a intenção clara de me beijar.







