Mundo ficciónIniciar sesiónHugo Furquim
Ela está aqui. Depois de todos esses anos, a encontro duas vezes, no mesmo mês. E não fazia a menor ideia do que fazer com isso.
Algumas horas depois, estava novamente com Jacques. Mal me dei conta de quando ele me jogou em um carro sem nem perguntar como havia sido a festa e sobre sua atual obsessão, senhorita Petit, uma jovem que praticamente foi vendida pelo pai depois de pegar um empréstimo exorbitante.
— Verona. — Ele foi direto, como sempre.
— Quando? — perguntei, ajeitando o terno.
— Agora. O jatinho já está esperando.
Ergui uma sobrancelha.
— Tão urgente assim?
— Leilão de mulheres novas para o cassino do subúrbio. Quero que você veja com os próprios olhos. Sinto que há algo errado lá, Hugo. Nosso informante parecia nervoso demais.
Assenti. Era apenas um movimento para os nossos negócios. O submundo não tira folga.
Mas, no fundo, já sabia que essa viagem não era só sobre trabalho. Algo me puxava para Verona. E quando cheguei naquele galpão disfarçado de clube exclusivo, com cheiro de suor, medo e perfume caro, que tentava disfarçar o resto, entendi o que era.
Ela estava aqui também.
O leilão era tão deprimente quanto imaginava. Mulheres desfilando com números no pescoço, olhos vermelhos de choro, plateia de homens ricos com olhares vazios. Meu estômago revirava toda vez que via uma cena dessas. Meu pai sempre dizia: “Poder não é comprar gente, Hugo. Poder é nunca precisar comprar um sorriso.”
Por isso, em vez de só observar como Jacques mandou, comecei a dar lances. Não para comprar as garotas, mas para libertá-las. Depois, eu me viraria com Jacques. Um número. Dois. Três. Minha placa subia toda vez que entrava uma garota nova.
Até que alguém começou a cobrir todos os meus lances. Mais alto, mais rápido e mais determinado.
Franzi a testa e procurei pela sala na esperança de descobrir quem estava dando os outros lances.
Então, os meus olhos a viram mais uma vez.
A mesma mulher, de cabelos escuros e curtos, dessa vez, estavam presos em um coque baixo. Mantinha a postura de quem carrega uma espada nas costas. Olhos frios, concentrados no palco. A mesma mulher da festa. Só que agora parecia ainda mais dura e mais perigosa.
Meu coração quase parou. Era Faína, a garota que não consegui salvar há uma vida atrás. A garota que me assombrava em pesadelos. Estava ali respondendo uma pergunta que sempre fiz a mim mesmo. Ela não era mais uma vítima da Yakuza. Parecia ter se tornado uma caçadora.
Continuei olhando para ela, atordoado, até que uma voz sussurrou ao meu lado:
— Olha só quem está ali.
Quase dei um pulo. Era Jacques. Ele sorria como quem sabe de alguma informação importante.
— Não sei do que você está falando — respondi, na defensiva.
Ele riu baixinho.
— Claro que sabe. É a mesma mulher da festa.
Não respondi. Minha garganta havia virado um deserto de tão seca.
— Cuidado, Hugo. Mulheres como essa não são para serem salvas. Elas são para serem enfrentadas.
— O que quer dizer com isso?
Ele só deu aquele sorriso enigmático.
— Você vai descobrir. Em breve.
Foi aí que ela se virou em minha direção.
Nossos olhares se cruzaram no meio do salão lotado. Senti como se o tempo congelasse. Seus olhos se arregalaram por um segundo quando ela me reconheceu da noite passada, para logo em seguida endurecerem como aço. Reconhecia que ela estava com raiva, calculada e fria.
Tenho certeza de que ela havia me reconhecido da festa. E não parecia nem um pouco feliz por estar me vendo ali.
Sem dizer nada, virou o rosto, levantou-se e sumiu no meio da multidão.
Levantei da cadeira num impulso.
— Hugo! — Jacques chamou atrás de mim. — O que vai fazer?
— O que deveria ter feito há anos! — respondi sem olhar para trás. — Vou atrás dela.
Dessa vez, não ia deixá-la escapar.
Encontrei Faína nos fundos do galpão, perto das saídas de emergência, deixando para trás o barulho do leilão, que era agora apenas um zumbido distante. Ela estava de costas, com ombros tensos e punhos fechados.
— Você — disse ela, sem se virar. Sua voz estava baixa, mas carregada de eletricidade. — O homem da festa.
— E você é a menina do leilão da Yakuza. — Parei a alguns passos. — A garota que não consegui salvar.
Ela parou de andar subitamente e se virou devagar. Meu olhar foi para seu rosto, o visualizei com cuidado, aproveitando a nossa proximidade, sem luzes coloridas, sem multidão entre nós e era ainda mais impactante. Ela tem uma beleza que doía. Marcada por coisas que maquiagem nenhuma esconde.
— Você não me salvou! — disse ela, direta.
A frase acertou meu peito em cheio.
— Eu sei. — Sincero. — Sei que falhei com você. Olhei nos seus olhos naquela noite e não fiz nada. Isso me come por dentro até hoje.
Ela me observou em silêncio, como se procurasse uma mentira no meu rosto.
— Por que está me contando isso agora?
Dei um passo à frente e ela não recuou.
— Porque quero que você saiba que não sou igual àqueles homens. E que gostaria de ter uma chance com você, não para consertar o passado, sei que isso é impossível. Mas talvez de fazer algo diferente no presente.
Ela continuou me encarando. Depois disse, quase como se testasse o meu nome na boca:
— Meu nome é Faína. Faína Stepanov.
— Hugo. Hugo Furquim.
— Sei quem é você. — Um leve tom de deboche. — Todo mundo no submundo sabe quem você é, Hugo Furquim.
Sorri de lado.
— E mesmo assim, você me recusou ontem na festa. Doeu, sabia?
Um sorrisinho pequeno curvou seus lábios. O primeiro que eu via.
— Especialmente por isso. Achei que você precisava de uma dose de realidade.
Dei uma risada baixa, balancei a cabeça negativamente.
— Você é sempre assim tão direta? Ou só quando quer destruir o ego de um homem em público?
— Só quando o homem em questão acha que pode chegar e oferecer um drink como se fosse um presente do universo. — Ela ergueu uma sobrancelha.
— Touché. Mas me diz uma coisa, Faína… você estava comprando aquelas mulheres lá dentro. Libertando-as. Por quê?
Ela hesitou apenas um segundo.
— Porque ninguém fez isso por mim. E não vou ficar assistindo outras passarem pelo mesmo inferno, se posso impedir.
Assenti devagar.
— Faço a mesma coisa. Quase pelo mesmo motivo.
O silêncio entre nós ficou mais leve e quase confortável.
— Então… estamos do mesmo lado? — perguntei, tentando soar casual.
Ela inclinou a cabeça, me estudando.
— Do mesmo lado? Não sei ainda. Mas pelo menos não estamos em lados opostos. Por enquanto.
Dei mais um passo, diminuindo a distância.
— Isso já é um começo. Adoraria continuar essa conversa em um lugar que não cheira a desespero e dinheiro sujo.
Ela soltou uma risada curta, quase surpresa com a própria reação.
— Você é persistente, hein?
— Quando vale a pena. E você, Faína Stepanov, definitivamente vale.
Ela me olhou por um longo momento, como se estivesse decidindo se valia a pena arriscar alguma coisa comigo.
— Cuidado, Hugo. Eu não sou fácil de lidar. E escondo mais coisas do que posso sustentar.
— Nunca gostei de coisas fáceis — respondi, sorrindo.
E ali, nos fundos daquele galpão onde vidas estavam sendo leiloadas como mercadorias, senti algo que não sentia há muito tempo.
Esperança misturada com um medo delicioso.
Porque Faína não era só a garota que não consegui salvar quando era pequena. Ela era uma mulher muito mais perigosa do que imaginava.
Começo a acreditar que isso é o início de algo que não consigo prever.
E, sem me importar, estou prestes a mergulhar de cabeça.







