Lorena
Tem noite que o silêncio grita.
Grita tão alto que até os ossos escutam.
Aquela foi uma dessas noites.
Kaíque dormia ao meu lado, o corpo jogado na cama como quem acabou de travar uma batalha. E ele travou. Mas na favela, as guerras não têm hora de acabar. Nem data pra começar. Elas só vão mudando de forma — de tiro pra ameaça, de soco pra silêncio, de fuga pra sobrevivência.
Eu não consegui pregar o olho. Fiquei deitada, olhando pro teto mofado, como se pudesse ver através dele. Cada so