Completo Pânico

Izobel Bellarno:

— Podemos, claro. — Então me voltei para Althea, rapidamente, em português: — Acho que vamos ter que adiar o almoço. Meu irmão quer conversar comigo. Prometo que te apresento a ele em outra oportunidade.

— Claro, amiga. — Ela colocou a mão no meu ombro, já percebendo que a situação era séria. — Depois me avisa se está tudo bem...

Assenti, nós trocamos um beijo no rosto, e eu segui Kael até o carro que tinha alugado. Sem dúvidas era até uma humilhação ele andar no meu. Sem contar que ficaria completamente apertado lá dentro, sendo um homem de quase um metro e noventa.

Fui o caminho todo muito nervosa, especialmente porque Kael era muito falante, mas nem tentou puxar papo. Quanto mais avançávamos, chegando à orla do Rio – onde ele estava hospedado –, mais minha ansiedade se tornava latente. Conforme subíamos no elevador, o silêncio se tornou quase insuportável, tanto que quando abriu a porta do quarto e entramos, eu joguei minha bolsa sobre a mesa e parei diante dele, com as mãos na cintura.

— Chega de me enrolar, Kael. O que houve?

— Não é melhor você se sentar?

— O caralho que é. Estou nervosa.

— E continua boca suja... — Ele abriu um sorriso melancólico, e eu o olhei com uma sobrancelha arqueada, sem muita paciência. — Ok, ok. Eu sinto muito ser o mensageiro de uma má notícia, mas Nerina sofreu um acidente...

— O quê? — Arregalei os olhos, levando uma das mãos à boca. — Ah, meu Deus! Ela... ela está bem? Ela...

— Não, sorellina. Nossa irmã se foi... — Kael verteu algumas lágrimas, e eu fiquei por algum tempo paralisada, absorvendo a notícia.

Assim que a ficha caiu, levei uma das mãos exatamente à mesa onde deixei minha bolsa, tentando me firmar, completamente atordoada. Minha irmãzinha caçula... Aquela coisinha doce, que mais parecia uma boneca de porcelana... Como era possível? Ela só tinha vinte anos.

Quando as lágrimas surgiram, meu irmão me tomou em seus braços, bem apertado, e eu me refugiei neles, encostando-me em seu peito. Ele tivera muito mais contato com Nerina do que eu, provavelmente seu sofrimento era maior, mas naquele momento nós nos demos forças, porque não importava que eu não a conhecesse a fundo, a garota era minha irmã. Sangue do meu sangue.

— Como estão papai e Orion? — perguntei assim que nos afastamos.

— Nosso pai é... bem... é nosso pai. — Foi uma informação que eu compreendi muito bem. Cassiel Bellarno era focado nos negócios, em sua vida profissional, nunca tivera muito tempo para nós, com exceção do meu irmão mais velho, seu herdeiro. — Orion é o nosso Cavaleiro das Sombras — explicou, com um sorriso desanimado.

— Cavaleiro das Sombras?

— Foi assim que passaram a chamá-lo. Vai entender quando revê-lo. Mas os dois são fortes.

É, eu sabia. Mas "fortes" era uma palavra gentil. Talvez insensíveis fosse a que eu usaria.

— Foi muita gentileza sua vir ao Brasil me avisar. Não precisava... — Afastei-me um pouco mais do meu irmão, percebendo que ele não tinha sequer desfeito as malas. Parecia, na verdade, que tinha chegado há poucas horas e ido direto me ver. Era o tipo de consideração que eu sabia que, na minha família, apenas Kael poderia ter.

— Para ser sincero, sorellina, não foi só por isso. — Lancei um olhar para ele, com atenção. — Eles me enviaram para te buscar.

Franzi o cenho, confusa.

— Me buscar? Mas como assim?

Kael respirou fundo, passando a mão pelos cabelos cacheados e se colocando de costas para mim, como se não quisesse me olhar nos olhos.

— Nosso pai quer conversar com você. Já que Nerina morreu... e...

— Sem rodeios, Kael — afirmei com um tom firme, grave.

Ele virou e se voltou para mim outra vez. Em seu rosto, uma visível expressão de cachorro sem dono, que era sua especialidade. Continuei a me preocupar.

— Nerina estava de casamento marcado para daqui a um mês.

— Ela só tinha vinte anos!

— Sim, mas era um casamento de conveniência. Foi prometida a um homem. Um homem importante, poderoso.

Soltei uma risada amarga.

— Essas coisas existem fora dos livros?

— No meio em que vivemos, sim.

Eu tinha algumas desconfianças a respeito das coisas que meu pai e meus irmãos faziam. Não era idiota, até porque eles eram italianos. Por mais que vivessem nos Estados Unidos, todos eles tinham nascido na Milão, inclusive eu, já que meu pai conheceu minha mãe em uma de suas temporadas por lá. Ela era imigrante brasileira e trabalhava como garçonete em um bar. Aparentemente fora uma paixão louca, quase à primeira vista.

— Seja como for — Kael continuou —, o casamento de Nerina era muito importante, não apenas para uma questão de negócios, mas porque há um grupo extremista que tem planos de tirar nosso pai do poder.

— De que poder, Kael? — finalmente perguntei. Se ele estava falando tudo aquilo para mim era porque queria que eu soubesse alguma coisa, então talvez estivesse na hora, de fato, de descobrir.

— Izobel, como disse, sou só o mensageiro. Não posso te dizer mais do que o que vim dizer, e já é muito. Insisti para ser eu, porque queria estar presente e te proteger; te fazer sentir mais segura.

— Como assim? Do que você está falando?

— Você precisa ir comigo para Miami, sorellina. E infelizmente eu não posso te dar opção. Não é o que eu queria, mas, assim como a você, também não me deram opção.

Dei um passo para trás, começando a achar tudo aquilo muito estranho.

— Kael, do que...? — Não consegui terminar a frase, porque dois homens todos de preto saíram da suíte do quarto. Um deles segurava algo na mão que parecia muito uma seringa. — Kael? — chamei novamente o meu irmão, com os olhos arregalados, em completo pânico.

Mesmo confusa, tentei correr em direção à porta, mas ele me segurou.

— Scusami, sorellina. Estou aqui. Vou cuidar de você.

Tentei me soltar de suas mãos, mas o homem com a seringa veio na minha direção, espetando-me com uma agulha bem no pescoço, o que me fez gemer com a picada e com medo. Eu estava prestes a ser sequestrada! E não fazia ideia do motivo...

Não demorou nem um minuto inteiro para eu sentir meu corpo completamente mole, logo após a injeção. Meu irmão me segurou e me ergueu em seu colo, agarrando-me com firmeza.

— Repito, Izobel: estou aqui para cuidar de você. Era inevitável, mas eu precisava estar com você.

Queria perguntar por que era inevitável, mas eu já não tinha mais forças para isso. Só deixei minha cabeça pender no ombro de Kael e me entreguei à escuridão, enquanto ele sussurrava que tudo ia ficar bem. Mas eu tinha a impressão de que não ia. De jeito nenhum.

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