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O Encontro que Mudou Tudo no Estacionamento

Pedro Kirklan:

Espalmei a parede, apoiando-me nela e colocando a outra mão na cintura, afastando um pouco o paletó.

— O que eu preciso saber sobre ela? Você sabe alguma coisa sobre a sua filha, aliás? — Porra, seria possível que eu já estivesse considerando a hipótese? Só que, levando em consideração que era uma escolha quase necessária para a segurança das nossas cabeças e do nosso poder, não era muito difícil tomar uma decisão.

— É claro que eu sei sobre a minha filha! — Cassiel falou, desnaturado. — O que está pensando?

— Só resuma, Cassiel. Vamos lá... quem é essa moça?

— Ela se chama Izobel. Estuda Psicologia. Tem vinte e três anos. Sei que é mais velha do que Nerina, mas...

— Isso não me interessa. Não faz a menor diferença para mim.

— É uma jovem bonita.

Cassiel se levantou e veio até mim, trazendo seu celular. Havia uma conta de I*******m aberta, e ele buscou uma foto, mostrando-me uma garota loira, de olhos verdes, uma pele bronzeada bem brasileira, em uma foto com o cenário praiano, uma canga enrolada na cintura e o top escondendo seios pequenos. Ela não tinha a aparência de princesa que Nerina sempre sustentou. Sua irmã era morena, com os mesmos olhos verdes, um rosto de porcelana, toda delicada. A tal Izobel possuía o tipo de beleza que só as mulheres muito confiantes têm; que não é completamente perfeita, mas que marca. O exemplo de mulher que eu olharia duas, três vezes, porque havia algum fascínio que me hipnotizaria.

— Suspeito que não seja mais virgem, mas...

— Papá! — Kael repreendeu.

— Só estou avisando... — Cassiel deu de ombros.

— Como se ela fosse um produto avariado? — indaguei, com um tom cínico.

— Não é nada disso. Ah, vocês estão focando no que não importa. Eu só fiz um comentário. Ainda assim, precisamos decidir imediatamente.

O homem afastou o celular, como se o fato de eu ver uma única foto da garota pudesse ser suficiente para que decidisse se queria passar minha vida inteira ao lado dela.

— Não depende só de mim. Acredito que tenham que falar com ela, não?

Eu não era alheio à forma como os casamentos no nosso meio eram formados. As nossas mulheres não tinham quase nenhuma opinião, salvo em poucas famílias que não possuíam poder. Imaginava que com Nerina tivesse sido dessa forma, sem que pudesse negar a ideia de se casar comigo. Com Izobel seria diferente. Talvez ela tivesse um namorado, talvez gostasse de alguém. Não poderia ser um casamento apenas de conveniência, sem que eu a tocasse, porque precisaríamos ter filhos. No mundo em que ela vivia, isso era impossível. Era antiquado, ela provavelmente ia rir.

(...)

Izobel Bellarno:

Eu sabia que ela estava impaciente, então decidi demorar mais ainda só para provocá-la. Cheguei a abrir um sorriso ao ouvi-la bufar. Ergui os olhos e vi minha amiga, Althea, folheando um livro de romance de época que ela encontrara em um dos corredores da biblioteca da faculdade e considerou a coisa mais interessante que poderia haver por ali. Eu não era uma mulher muito romântica, minha preferência, na literatura, eram obras um pouco mais densas e algo mais fantasioso, mas até que curtia um erótico, por exemplo, para me deixar mais animada.

Estava em busca de um livro específico, mas havia outros dos quais eu poderia me beneficiar no meu TCC. Não tinha pressa, mas aparentemente Althea não era muito adepta a lugares como aquele.

— Você pode ir embora, sabe disso, né? — indaguei, sem tirar os olhos da prateleira.

— E perder o almoço que você prometeu pagar?

— Num self-service de qualidade duvidosa? Althea! Você deveria se valorizar um pouco mais! — brinquei e levei um tapa no ombro que quase me desequilibrou, mas nós duas começamos a rir e ouvimos alguém fazer um "shhh", indicando que precisávamos calar a boca.

Com esse toque sutil, encerrei minha tarefa, segurando três livros contra o peito e carregando-os ao balcão para assinar e levá-los para casa. A nível de informação: Althea levou o romance também.

Fomos caminhando até o estacionamento, em direção ao meu velho Fiat Uno. Não era desses modelos mais recentes, não. Era do quadradinho, branco, que tinha visto muitos dias melhores, mas era meu meio de transporte para a faculdade e o estágio. Apesar de ter o sonho de clinicar, eu vinha pleiteando uma vaga em alguma boa empresa, na área de RH. Tinha feito algumas entrevistas, porque não seria uma opção ruim. Gostava de lidar com pessoas, de todo o tipo, então não estaria muito longe do meu objetivo.

Sentia-me um pouco distraída ao caminhar, mexendo na minha bolsa, quando Althea começou a me cutucar.

— Puta que pariu, Bel. Tem um homem lindo encostado no seu carro. O homem mais lindo que eu já vi!

Mesmo sabendo que Althea era meio emocionada quando se tratava de homens, ergui os olhos, levando a mão a eles para protegê-los do sol, formando uma aba como de um boné na altura das minhas sobrancelhas. Bem... Althea não estava mesmo exagerando. O homem apoiado no meu carro certamente era um dos mais bonitos do mundo. E um que me provocava um sorriso enorme.

— Ah, Dio Santo! É Kael! — Eu falava italiano o tempo todo com minha mãe em casa, mas também falava inglês, além do português. Algumas vezes xingava em três línguas diferentes ou deixava escapar alguma coisa, por força do costume.

— Kael? Seu irmão?

Assenti para ela e saí correndo, indo parar nos braços dele, que me tirou do chão em um abraço efusivo.

— Ahhhh! Mi sei mancato tanto! — disse a ele que senti sua falta, enquanto recebia o melhor abraço do mundo.

— Anch'io, sorellina — "eu também, irmãzinha", respondeu. Afastamo-nos, e eu coloquei as mãos no rosto dele.

Fazia uns bons cinco anos que não nos víamos, desde a última vez em que viera ao Brasil, me visitar. E aquele tempo fez bem a ele. Os cabelos estavam mais compridos um pouco, cacheados como os de um anjo, mas caindo quase até o pescoço. Os olhos eram do azul mais cristalino, como o céu, e ele tinha um sorriso de desmontar qualquer um.

Saí de Miami, onde meu pai morava, aos quatro anos, quando minha mãe praticamente nos arrancou de lá, depois de uma separação que se tornou um escândalo, pelo que ela me contara. Sabia muito pouco do tipo de vida que minha família levava, mas tinha minhas desconfianças. Sempre respeitei a decisão da minha mãe de não me envolver em nada, e também não quis pesquisar. Eu pouco falava com meu pai. Orion, meu irmão mais velho, era um enigma para mim. Nerina trocava mensagens muito educadas, enviava-me presentes no meu aniversário e curtia minhas fotos e postagens, mas era com Kael que eu conversava constantemente. Tanto por chamadas de vídeo quanto por telefone. Tínhamos idades próximas – eu com vinte e três, e ele, com vinte e sete –, e eu me lembrava dele sendo um menininho carinhoso, que cuidara de mim quando nasci. Era meu protetor, meu irmãozão mais velho. Orion deveria ter assumido esse papel, mas a diferença de idade entre nós era muito grande, e ele estava sendo treinado para assumir os negócios do nosso pai, mesmo desde muito jovem, o que nunca entendi.

— O que está fazendo aqui? — perguntei em italiano, percebendo que minha amiga se aproximava.

O rosto dele ficou sério demais, o que me preocupou.

— Precisamos conversar. Mas não na sua faculdade.

— Quer ir a algum lugar, para comer?

— Gostaria que estivéssemos em um local mais seguro. Podemos ir ao hotel onde estou hospedado?

Meu estômago se revirou, com a certeza de que não poderia ser nada bom. Kael tinha saído de Miami só para falar comigo? Ou aproveitara alguma outra ocasião para me visitar? Ainda assim, tinha alguma notícia, sem dúvidas.

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