Perfeita

Pedro Kirklan:

— Temos motivos para acreditar que irá aceitar. Com a motivação certa.

— Dinheiro? — Eu não queria uma esposa gananciosa àquele ponto, mas qual escolha tinha? Apesar de ser muito bizarro, era a melhor alternativa para proteger interesses e a segurança dos nossos, porque uma guerra poderia explodir a qualquer momento.

— Não. Pode confiar em nós? Aceita a proposta?

Olhei para os três homens ao meu redor, tentando encontrar no olhar de qualquer um deles a resposta para aquela pergunta, mas só dependia de mim. Não era nenhum dos Bellarno que iria decidir meu destino.

— Aceito conversar com a moça. Se a trouxerem e se ela concordar.

— É um começo. Vou providenciar. Kael, você que tem mais contato com sua irmã, podemos conversar? — O caçula dos rapazes Bellarno assentiu e seguiu o pai para fora do escritório, deixando-me sozinho com Orion.

Era difícil descrever minha relação com ele, porque crescemos juntos, encontrando-nos em festas e em eventos da La Cupola, mas ele mudou um pouco com o passar dos anos. Imaginava que tinha a ver com sua iniciação. Por pior que meu pai tivesse sido, ele tivera alguns cuidados que outros homens não tinham. Não havia traumas na minha memória, ao menos nenhum que pudesse ter me transformado em outra pessoa. Orion era... peculiarmente sombrio.

— O que você acha de tudo isso? É sua irmã, afinal — perguntei a Orion, percebendo que ele continuava na mesma posição, apenas me observando.

Finalmente se movimentou, e eu tinha a leve impressão de que cada um de seus movimentos era extremamente calculado. Voltou seus olhos muito azuis na minha direção, e eu percebi que estavam frios, focados e, novamente, com um tom obscuro que contava muitas histórias desconhecidas.

— Acho que é a única saída. E você também sabe disso.

— Sei. Infelizmente, sei.

Ficamos em silêncio por alguns instantes, em um estranhamento natural de homens poderosos que estão no limiar entre a amizade e a desconfiança, mas eu tinha muito a descobrir.

— Você a conhece?

— Um pouco. Não tanto quanto Kael, embora nem isso seja muito. Mas sei que você vai ter um pouco de trabalho com ela.

— Como assim?

— Ela... — Orion hesitou, provavelmente procurando a palavra certa, mas logo prosseguiu: — Ela tem uma personalidade forte.

Bem, talvez fosse bom, mas também complicasse as coisas.

— Levando isso em consideração, acha que seu pai vai conseguir convencê-la?

Orion abriu um sorriso um pouco amargo.

— E nós não conseguimos tudo o que queremos, de uma forma ou de outra?

Com isso, ele simplesmente saiu do escritório, me deixando sozinho com os pensamentos muito confusos. Aonde diabos tudo aquilo iria nos levar?

...

Toda a cerimônia foi encerrada, e algumas flores foram jogadas no túmulo de Nerina, principalmente por Kael. Este saiu com o braço de um dos capos seu redor, quase amparado, e chegamos aos carros.

— Venha conosco, Pedro. Como te falei, precisamos conversar. Falei com os bambinos ontem e chegamos a uma conclusão. — Cassiel parou diante de seu carro, voltando-se para mim.

— Não posso imaginar o que querem.

— Venha conosco — insistiu, e eu assenti, entrando no carro com meus homens e seguindo o deles.

A mansão dos Bellarno ficava na Zona Oeste de Miami, em Coconut Grove, e era uma daquelas casas dignas de celebridades de South Beach. Eles moravam próximos a pessoas famosas e gostavam de esbanjar. Kael, principalmente, adorava ir a festas e sair com atrizes, modelos e cantoras, sem nenhuma distinção. Sem nenhuma discrição também, o que sempre preocupou toda a La Cupola. Sorte de Cassiel por ele ser seu segundo filho.

Fui conduzido ao escritório deles, e sua governanta nos serviu de doses de uísque. Não tínhamos sequer almoçado, mas a ocasião era trágica o suficiente para isso.

— Ainda não estou entendendo o que precisamos conversar — falei, já ansioso, mas tentando conter meus sentimentos o suficiente para não demonstrar vulnerabilidade.

— Preste atenção, Pedro... Seu casamento com Nerina era de extrema importância para nós. Um caso de vida ou morte, suponho — Cassiel começou a falar, e eu vi Kael se movimentar, vindo em nossa direção.

— Pai, podemos, pelo menos, deixar o corpo da minha irmã esfriar no túmulo?

— Não, Kael! Você é um desmiolado que não tem a menor noção do quanto está em jogo. Só sabe pensar com o coração e a cabeça de baixo. Preciso de razão no momento. Estou sofrendo pela minha filha, muito mais do que imagina, mas também tenho vocês. Preciso pensar em sua segurança e na segurança da posição de Orion no futuro.

O mencionado Orion continuava parado, encostado na parede, com os braços cruzados. Sempre calado, observando mais do que falando. Em meio à La Cupola, as pessoas começavam, aos poucos, a chamá-lo de Cavaleiro das Sombras, o que combinava. Ele poderia enganar a qualquer um, mas, para mim, guardava algum segredo. E há meses essa aura de mistério tinha se tornado ainda pior. Só não era da minha conta tentar descobrir.

Vi os olhos de Kael brilharem de raiva, mas ele se afastou do pai, jogando-se no sofá de couro no canto do escritório. Em uma posição de poder, Cassiel se acomodou em sua cadeira de espaldar alto e me apontou outra, à sua frente, tornando aquilo quase uma reunião de negócios.

— Podemos prosseguir com os planos de casamento — ele ia continuar falando, mas eu o interrompi, erguendo uma das mãos.

— Com o perdão da palavra, mas não posso me casar com um fantasma.

— Più respetto, Pedro! — Kael vociferou, levantando-se com aquele seu jeito apaixonado e impulsivo de ser. Tudo para ele sempre parecia muito teatral, muito trágico. Eu não tinha paciência, então lancei um olhar para ele que dizia tudo o que eu queria dizer, já que não podia mandá-lo tomar naquele lugar.

— Me deixem falar, garotos! — Cassiel exclamou, um pouco alterado. — Eu tenho outra filha. Uma jovem, um pouco mais velha do que Nerina.

— Do que está falando?

— Ela mora no Brasil. A mãe era de lá e a levou de volta. Nunca mandei buscá-la, porque era uma moça e não um rapaz. Não teria serventia para mim. Mas agora tem. Muitas pessoas ainda se lembram dela, mas foi um casamento conturbado. Ninguém comenta, em respeito a mim.

— Cassiel, você está querendo dizer que...

— Ainda podemos unir nossas famílias. É só você dizer que sim, e eu providencio tudo. A escolha é sua, mas pense no quanto está em jogo.

Porra, aquela era uma loucura. Uma imensa loucura. Mas eu estava disposto a ouvi-lo.

Dei uma boa golada no uísque, esperando que ele descesse rasgando a minha garganta a ponto de a ardência me fazer esquecer do quanto meu cérebro estava dormente com toda aquela loucura.

— Então você quer que eu me case com essa outra moça? Uma que nunca viveu no nosso meio? Que sequer mora no nosso país? Como acha que vai convencê-la a uma união de conveniência, sendo que tem uma realidade completamente diferente?

— Confie em nós. Vamos fazer o que é necessário. Só precisamos da sua autorização e que concorde com o plano.

Precisei me levantar da cadeira, deixando o copo sobre a mesa, porque tinha a necessidade de me movimentar. Tirei o sobretudo escuro que usava, deixando-o pendurado, porque a peça era pesada, ia até os meus tornozelos, e subitamente comecei a sentir meus músculos mais rígidos.

— Por favor, me expliquem como isso pode funcionar, porque não vejo nenhum sentido. O conselho nunca vai aceitar algo assim.

— Como chefe, você tem o direito de se casar com quem quiser. E a moça tem o sobrenome Bellarno. Ela foi registrada por mim, é minha filha legítima.

Respirei fundo, absorvendo as informações com muito cuidado. Era um momento completamente inesperado. Há dois dias eu tinha plena certeza de que dali a um mês estaria casado. Depois, recebi a notícia de que minha noiva morrera. Então, eu já tinha outra possibilidade de casamento em tempo recorde. Era muito para um homem aceitar em poucos segundos.

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