Meus olhos deslizam até o caderno de desenho aberto sobre a mesa: as páginas expõem, sem recato, o esboço que fiz da minha mãe no dia do enterro. Não pude comparecer; estava no hospital. Felícia, previdente e fria, garantiu que a cerimônia fosse filmada para mim, e eu vi aquelas imagens vezes incontáveis. O retrato da minha mãe, despedaçada pela dor e pelo luto, ficou impresso na minha memória de um modo que nunca destinara a ser partilhado — e, ainda assim, ali estava, grafitado em papel. Uma ferida transformada em traço. Uma lembrança íntima exposta num espaço que, por direito, não deveria pertencer a ninguém além de mim. Muito menos a um Lucchese.
Uma onda de calor sobe pela minha garganta enquanto me aproximo dela. A mulher a meus pés treme; seu corpo encolhe num gesto automático de quem tenta possíveis rotas de fuga. Não há rotas. Não há para onde ir. Ainda não compreendeu? Não entenderá. Não enquanto eu respirar.
Os meus dedos, frios e precisos, fecham-se ao redor de sua mandíbu