— Como está sua esposa? Santiago pergunta assim que chego à entrada, com aquele tom que tenta soar casual, mas não engana ninguém.
Eu seguro o ar por um segundo antes de responder.
— Ela está viva… digo, e engulo a seco, porque a palavra “viva” parece grande demais, pesada demais, quase irônica demais. Olho por cima do ombro dele, para dentro do vestíbulo enorme, iluminado demais, organizado demais, completamente oposto ao caos que vive dentro de mim.
As notas de “Sonata ao Luar” ecoam em algum canto da casa. Beethoven. A melodia me bate como um murro no estômago.
Traz memórias que eu enterrei tão fundo que nem queria tocar de novo.
— Ela vai voltar pra casa em breve? Ele pergunta enquanto faz um gesto de convite, me guiando para a sala de estar.
Casa.
Essa pequena palavra, soa desconfortável como algo ruim descendo pela garganta.
Casa.
Rosália jogou isso na minha cara sem nem levantar a voz: “Sua casa nunca será minha casa.”
E doeu.
Porque é verdade.
O que deveria ser um lar virou