Mundo ficciónIniciar sesiónViola Vaccaro tinha uma vida tranquila até descobrir que seu pai havia prometido sua mão a William Cunningham, o frio e temido herdeiro de uma poderosa família mafiosa de Las Vegas. Nenhum dos dois queria aquele casamento, mas também não esperavam que as constantes provocações e disputas por controle se transformassem em uma atração impossível de ignorar — muito menos que uma gravidez inesperada tornasse aquela união ainda mais complicada. Mas alguém está determinado a destruir os Cunningham. Entre ameaças, mortes e traições, Viola acaba no centro de uma guerra que não compreende, enquanto William fará qualquer coisa para proteger o filho e a mulher que nunca quis como esposa… e que agora não pretende perdê-los.
Leer másO mormaço das Bahamas grudava a seda da minha blusa nas costas, mas o frio que me atingiu ao cruzar o saguão principal do resort não tinha nada a ver com o ar-condicionado. Anos trancafiada em Veneza me ensinaram a ler o silêncio. E o silêncio daquela casa cheirava a pólvora.
Passei pelas malas intocadas no hall, nenhuma recepção do meu avô, nenhum abraço do meu pai.
A porta de carvalho maciço do escritório, no fim do corredor, estava trancada. Duas batidas. O som da fechadura destravando cortou o ar pesado.
Ele abriu. O cheiro de uísque barato e charuto apagado me acertou em cheio. As sombras sob os olhos do meu pai contavam as horas que ele não dormia. A pele cinzenta, a gravata frouxa, os ombros antes imponentes agora curvados sob um peso invisível.
O sorriso de reencontro que eu ensaiei por toda a viagem morreu nos meus lábios.
O rosto dele endureceu no segundo em que me viu. Nenhuma emoção. Nenhum traço do homem que me mandava presentes luxuosos e cartas semanais. O ar ao meu redor congelou.
— Entre.
O tom seco fez meu estômago despencar.
Pisei no tapete persa. A porta bateu atrás de mim, o clique metálico soando como a tranca de uma cela.
— Sente-se, Viola. Precisamos conversar.
Meus dedos apertaram a alça da bolsa de couro até as articulações latejarem. A poltrona escura parecia engolir meu corpo. Ele permaneceu de pé, de costas para a janela imensa que exibia o mar do Caribe azul-turquesa. Um contraste doentio com a escuridão daquele escritório.
— Aconteceu alguma coisa com o vovô?
Ele virou de frente. Serviu dois dedos de puro malte no copo de cristal; o gelo estalou.
— Seu avô está bem. Nosso futuro, não.
A respiração prendeu nos meus pulmões.
— Fechei um acordo ontem à noite. Com o chefe de outra organização.
As palavras flutuaram no ar, venenosas. Meu peito contraiu. Quando homens da posição do meu pai usam as palavras "acordo" e "organização" na mesma frase, o preço nunca é pago em dinheiro. É pago com sangue. Ou algo pior.
Ele engoliu o uísque de uma vez. O copo bateu com força na mesa de mogno.
— Eu também tive um casamento arranjado, Viola. Sua mãe não olhou no meu rosto no dia do nosso noivado. Nosso início foi um inferno na terra.
A bile subiu pela minha garganta, o gosto amargo e ácido do pânico puro. Empurrei a poltrona para trás; a madeira rangeu agressivamente contra o chão de mármore.
— Não. Nem se atreva a terminar essa frase.
Os olhos dele cravaram nos meus. Frios. Inflexíveis.
— Não estou pedindo a porra de uma resposta agora. Sente-se nessa cadeira e ouça a proposta inteira.
A grosseria rasgou o que restava da minha ilusão de férias perfeitas. Minhas pernas cederam. Caí de volta no estofado, o coração socando as costelas, querendo fugir do meu próprio corpo.
Ele apoiou as duas mãos na mesa, inclinando-se na minha direção. A sombra do império dele esmagando meus pulmões.
— Esse acordo fortalece as duas famílias. Blinda nossas operações e garante que você continue respirando amanhã. — Ele ajeitou a postura, o carrasco ajustando a corda no pescoço da vítima. — O acordo exige o seu casamento. E o noivo escolhido é William Cunningham.
O nome reverberou nas minhas têmporas como o impacto de um tiro. A dor aguda das minhas unhas cravadas na palma da mão foi a única coisa que me impediu de desmaiar.
Não era uma proposta. A postura rígida do meu pai, a falta de hesitação no seu olhar... a sentença já tinha sido dada antes mesmo do meu avião pousar em Nassau.
Os Cunningham não eram executivos comuns. Eram predadores. Histórias sussurradas nos corredores de Veneza voltaram como um pesadelo: execuções mascaradas como acidentes, impérios rivalizados destruídos da noite para o dia, um rastro de sangue e medo traçado por onde passavam. E no topo dessa cadeia alimentar estava William. O herdeiro. Um homem sem rosto para mim, mas cuja reputação de crueldade e frieza cirúrgica antecedia qualquer aparição pública. Ele não negociava; ele esmagava. Ele não amava; ele possuía.
Um homem como William Cunningham jamais desejaria um casamento arranjado. Não por escolha. Se ele aceitava me tomar como esposa, era por puro cálculo, poder e controle.
— Ficou louco? — A voz saiu trêmula. — Os Cunningham? Eles são monstros, pai! Você está me entregando em uma bandeja para o pior deles!
— Meça suas palavras, Viola.
— Meça você o perigo! — Levantei num pulo, as pernas balançando, mas a raiva sustentando meus passos até a borda da mesa. — Por que eles? O que você fez para precisar vender a própria filha para a família mais perigosa do país? Me dá uma razão real!
Ele desviou o olhar. Não encarou meus olhos por um segundo sequer. Serviu mais uísque, a mão tremendo sutilmente contra o cristal — um detalhe imperceptível para qualquer um, menos para mim.
— Não importa o motivo. Importa que o contrato está assinado. Você vai vestir a porra do vestido, vai andar até o altar e vai fazer exatamente o que eu mandar.
Avancei mais um passo. A mesa de mogno era a única barreira entre nós. O cheiro de álcool impregnava o ar.
— Olha pra mim.
Ele não se mexeu.
— Olha na minha cara e responde. — A voz falhou, mas a pergunta saiu afiada como uma lâmina: — Se eu disser não... se eu pegar minhas malas agora e voltar para a Itália... a sua cabeça rola ou a minha?
O silêncio que se seguiu foi um golpe no estômago.
O copo na mão dele congelou no meio do caminho até a boca. O maxilar travou. O homem imponente que comandava centenas de homens encolheu dois centímetros diante dos meus olhos. O desespero cru brilhou nas pupilas dele por uma fração de segundo antes que ele recuperasse a máscara.
Ele não precisou falar nada. O ardor das minhas lágrimas presas queimou meus olhos.
Eu não tinha escolha. Se eu fugisse, matavam ele. Se eu ficasse, minha vida como eu conhecia morreria hoje. Eu era a moeda de troca para manter o sangue da minha família dentro das veias.
O ar sumiu dos meus pulmões. O peso da gaiola de ouro se fechou ao meu redor, esmagando minhas costelas.
— Eu caso.
A palavra saiu amarga. Um veneno engolido a seco.
A postura dele desmontou. O alívio explodiu no rosto do meu pai, grotesco e doloroso de assistir. Ele deu um passo ao redor da mesa, os braços abertos, buscando meu ombro em um gesto de gratidão paternal.
— Minha menina... obrigado. Você está salvando todos nós—
Dando um passo para trás, desviei do toque dele como se a mão dele estivesse em chamas.
Não disse mais nada. Girei sobre os calcanhares e saí para o corredor.
As lágrimas finalmente transbordaram, quentes, cegando minha visão enquanto eu corria sem rumo. O som das ondas do mar parecia um deboche. Minha liberdade, meus planos, meu futuro... tudo tinha acabado de ser assinado com a tinta do medo. Eu não pertencia mais a mim mesma.
Eu pertencia a William Cunningham.
— Não invadi aquele bistrô para controlar a sua vida social, Viola. O Stone é um rato calculista. Desde o minuto em que soube que o tribunal assinou a soltura dele, cada movimento perto desta família virou ameaça. Quando meus homens avisaram que a neta dele estava na mesma mesa que você, o alerta vermelho apitou no mesmo segundo.Ela pousou os talheres com delicadeza, ponderando minhas palavras sem a revolta cega de antes.— Entendo a sua cautela, de verdade. Mas a Annabella não estava ali para armar uma emboscada. Ela não é a espiã do avô.Parei a taça a meio caminho da boca, as pupilas semicerradas.— Ela disse isso com todas as letras?— Disse.Fiquei em silêncio por três batidas do coração, calculando cada ângulo sem transformar a mesa num tribunal.— E você acreditou na primeira palavra de uma Stone?— Não foi a primeira palavra. Nós conversamos — ela respondeu com naturalidade, bebendo um gole de água. — Sobre... sobre como é grata a Benjamim, sobre a distância do resto do clã.
Quarenta minutos de atraso deliberado.Viola desceu a escadaria com um vestido de seda terracota que abraçava cada curva do seu corpo, os ombros nus e os cabelos castanhos caindo em ondas impecáveis. Quando passou por mim no hall, nem se deu ao trabalho de se desculpar pelo tempo estourado; apenas ergueu o queixo, lançando um olhar que desafiava qualquer repreensão.Entramos no restaurante privativo do Mirage sob uma luz baixa e o som abafado de taças de cristal.Posicionei nossos lugares no mezanino mais reservado, com meus seguranças estrategicamente espalhados no raio de visão, mas longe o bastante para não ouvirem uma única respiração da mesa.Viola correu os olhos pelas colunas de mármore dourado e pelo salão de jogos visível através do vidro blindado do andar de baixo.— Esse cassino... é daqui que você tira metade do seu dinheiro? Foi aqui que o Raiden me trouxe.— O Mirage é nosso — puxei a cadeira para ela se sentar. — E você não vai pisar naquele salão de apostas de novo.El
A porta do quarto cedeu sem bater.Viola estava encolhida no canto da cama king-size, vestindo um pijama de seda escuro, com os olhos cravados nas páginas abertas de um livro grosso. Ela sequer ergueu a cabeça quando dei o primeiro passo para dentro, mas a rigidez nos ombros dela entregou que cada fibra do seu corpo já estava em alerta.Apoiei a mão no batente, a mandíbula travada pela exaustão.— Se arrume. Vou te levar para jantar fora esta noite.O estalo do livro se fechando cortou o ar como um tiro seco. Os olhos dela subiram com uma faísca afiada, o queixo erguendo naquela insolência que sempre fazia meu sangue ferver.— Agora você também decidiu o cardápio e os horários em que tenho permissão para me alimentar?Soltei o ar com força pelo nariz, a paciência estalando no limite.— Não estou te dando uma ordem, Viola. Estou te fazendo um convite.Ela soltou uma risada anasalada, cruzando os braços sobre o peito.— Se fosse um convite de verdade, você não teria entrado por essa por
— E como você prefere que eu aja? — devolvi no mesmo tom afiado, o ar roçando os lábios dele. — Quer que eu baixe a cabeça e finja que sou a sua bonequinha submissa de vitrine?O maxilar dele trincou até a veia do pescoço saltar.Ele percebeu o cerco dos olhares curiosos, os garçons estáticos perto do balcão e a humilhação pública que eu estava cozinhando a fogo alto.— Pague a conta daquela mesa — William ordenou ao segurança à direita, a voz gélida sem desviar os olhos dos meus.Ele não soltou o meu braço. Girou o corpo com força suficiente para me arrastar pelos corredores do bistrô, marchando em direção à saída de vidro. A desconfiança ainda queimava nas pupilas pretas, mas a urgência de me tirar daquele palco falou mais alto.Em vez de facilitar, finquei os calcanhares no chão, mantendo a encenação viva até o último segundo para garantir que Annabella e a criança pudessem escapar pelo fundo:— Me solta, William! Se você não passasse a vida inteira fugindo da minha cama e evitando
Último capítulo