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Capítulo 5 — Viola e William

VIOLA

— Eu... — Engoli a bile, tentando reorganizar a voz que ameaçava falhar. — Só fiz uma pergunta. Por que aceitar o casamento?

Ele se encostou na poltrona. Cruzou os braços lentos sobre o peito, os olhos pretos cravados no meu rosto, me desnudando, me julgando, exercendo uma dominação tão esmagadora sem pronunciar uma única palavra que meus ombros encolheram involuntariamente. A autoridade dele sufocava.

O suor frio desceu pela minha nuca. A sensação de estar minúscula diante de um predador me fez dar meio passo involuntário para trás.

— Me desculpe por atrapalhar.

Apertei a barra da camisa e girei para sair antes que minhas pernas cedessem de vez.

— Esperava o quê? — A voz dele cortou o ar, pausada e cortante.

Parei. Olhei por cima do ombro.

William continuava na mesma posição, a cabeça levemente inclinada, o olhar calculista preso em mim.

— Esperava que eu dissesse que aceitei essa palhaçada porque fiquei fascinado por você? — Soltou um riso seco, desprovido de qualquer humor. — Ou que caí de amores no primeiro segundo?

A raiva venceu o pavor na mesma hora. Virei o corpo de frente para ele, o queixo erguido.

— Não seja ridículo. Não tenho o menor interesse romântico em você. E nunca vou ter.

— "Nunca" é uma palavra muito forte para alguém que vai carregar meu sobrenome até o dia em que morrer. — Levantou-se devagar. O porte alto e largo parecia engolir a luz do sol. Parou a poucos centímetros do meu corpo, o cheiro de perfume amadeirado e perigo me envolvendo. — Você é atraente, Viola. Eu seria um idiota se não admitisse isso. Mas tire qualquer ilusão de romance da sua cabeça. O que nós temos é um contrato.

A audácia daquele homem fazia meu sangue ferver.

— E você acha que eu quero romance de um sujeito frio como você? — Recompus a postura, encarando-o de baixo para cima. — Se você só me acha atraente, ótimo. Não crie expectativas de que vai ter qualquer coisa além do meu silêncio.

— Expectativas? — deu mais um passo. A proximidade era uma ameaça física. — Seria um inferno absoluto se eu não sentisse tesão pela minha própria esposa.

O rosto queimou na hora. As bochechas esquentaram tanto que cheguei a dar uma piscada mais rápida, totalmente pega de surpresa pela grosseria. 

Um canto da boca dele subiu num sorriso mínimo, sombrio e vitorioso ao ver meu embaraço.

— Devo aceitar essa baixaria como um elogio? — A voz saiu entre dentes.

— É a única coisa que eu tenho para te oferecer.

A arrogância pura cobrindo cada sílaba. Bati o pé no chão, o punho fechado com tanta força que as unhas cortaram a palma da minha mão.

— Você é desprezível. Continuar conversando com você só me dá dor de cabeça.

Girei sobre os calcanhares e saí pisando fundo pelo mármore, as passadas rápidas ecoando pelo corredor enquanto minhas mãos tremiam de puro ódio. Aquele desgraçado não precisava de armas para me desarmar; bastavam dois minutos da sua boca suja e daquela presença sufocante para me fazer querer colocar o mundo inteiro em chamas.

***

WILLIAM

O sorriso no meu rosto era inevitável. Nenhuma mulher jamais tinha ousado fechar a tampa da minha máquina, muito menos rosnar no meu rosto e sair pisando fundo. O sangue quente de Viola era uma tempestade e vida de casado seria um inferno, com certeza. Mas passa longe de ser entediante.

Puxei o notebook de volta, tentando focar nos números de Nova York, quando uma risada escrachada cortou o ar.

— A garota acabou de te chamar de idiota arrogante na frente do nonno dela — Raiden entrou pela porta de vidro, jogando uma maçã para cima e pegando no ar. — Não consegue controlar a própria noiva antes mesmo de assinar o papel, William. Que vergonha.

Nem ergui os olhos da tela.

— Fala mais alto, Raiden. Queria ter certeza de que todo mundo entendeu o tamanho do seu machismo.

A voz veio da entrada. Viola surgiu no arco de madeira, o queixo erguido, os olhos castanhos queimando na direção do meu irmão.

— "Controlar"? — deu dois passos lentos para dentro, a postura ereta como uma rainha prestes a mandar decepar uma cabeça. — Ninguém me controla. Nem o seu irmão, nem você, nem nenhum Cunningham que ache que ter dinheiro compra o direito de me tratar como propriedade.

Raiden travou a maçã na boca, pego no pulo.

Antes que ele abrisse a boca para rebater, Viola caminhou direto na minha direção. Sem pedir licença, sem hesitar, ela se sentou no braço da minha poltrona. O calor do corpo dela me atingiu como uma descarga elétrica. Ela passou o braço direito por trás dos meus ombros, um meio abraço falso, a pele negra e macia da coxa dela roçando na minha calça de terno.

Travei a respiração por um segundo. A proximidade espontânea me pegou de surpresa, mas não mudei um único músculo do rosto. Curioso, decidi ver até onde aquela encenação ousada iria. Se ela queria brincar de poder, eu seria o trono.

— Aliás, cunhadinho... — Viola se inclinou na minha direção, o perfume doce impregnando meus pulmões enquanto encarava Raiden de cima. — Já que eu vou ser a nova senhora desta família, sugiro que limpe a sua boca antes de falar comigo. Se quiser manter as suas bolas no lugar, é claro.

O canto da minha boca subiu, a satisfação crua atingiu meu peito.

Raiden olhou de mim para ela, piscando duas vezes, totalmente sem reação.

— Puta que pariu — ele soltou a maçã na mesa, dando dois passos para trás com um sorriso amarelo. — Vocês dois vão ser um casal de terror. Boa sorte para não se matarem antes do altar.

Ele girou e sumiu pelo corredor.

No segundo em que os passos dele se distanciaram, o corpo de Viola ao meu lado travou. O peso do abraço falso virou uma pedra. A respiração dela ficou curta, rasa.

Ela estava perfeitamente confortável, peitando meu irmão, mas a minha presença a deixava à beira de um colapso de tensão. E isso começou a me irritar de um jeito estúpido.

Estendi a mão esquerda, espalmando-a na base das costas dela. Os dedos subiram devagar, alisando a coluna por cima do tecido fino do vestido até alcançar a nuca.

Viola estremeceu da cabeça aos pés. Um arrepio nítido tomou os pelos do braço dela, a pele esquentando sob o meu toque. A rigidez do corpo dela era medo, mas a reação física era desejo puro e não disfarçado.

O corpo dela não me rejeitava. Ponto para mim.

— Nós temos oito dias para aprender a conviver — murmurei, a voz baixa, rente à cintura dela. — No dia do casamento, o mundo inteiro vai estar olhando. Vão precisar acreditar que somos o casal mais feliz da ilha.

— Não se preocupe — a voz dela saiu um pouco mais aguda do que o normal, mas ela sustentou o olhar. — Eu sei ser uma excelente atriz. Vou performar a noiva apaixonada com perfeição.

— Performar? — Deslizei os dedos da nuca dela para o queixo, inclinando o rosto dela para baixo. Colei meus olhos na boca desenhada e carnuda dela, aproximando-me milímetro a milímetro, deixando o hálito quente roçar seus lábios. — Quero ver até onde vai essa performance quando a porta do quarto se fechar.

Viola deu um pulo para trás tão violento que o pé enganchou no pé da cadeira. Ela tropeçou, recuperando o equilíbrio no último segundo, os olhos arregalados de choque.

— Nunca — gritou, o peito subindo e descendo descontrolado. — Eu nunca vou pra sua cama, William!

— Já disse que "nunca" é uma palavra muito forte — o olhar frio tinha a calma de quem domina o terreno. — Mas não se preocupe. Não vou te forçar a nada. Eu vou te respeitar, Viola. Porque, quando você vier para a minha cama... vai ser porque pediu.

As bochechas dela queimaram em um tom escuro de raiva cega. A boca abriu e fechou sem emitir som.

Sem conseguir rebater a provocação, ela deu meia-volta, quase tropeçando nos próprios pés antes de disparar pelo salão, a porta batendo novamente com um estrondo.

Fiquei sozinho, o eco dos passos dela ainda ressoando no mármore. Puxei o ar, sentindo o rastro do perfume dela impregnado nas minhas mãos.

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