Mundo de ficçãoIniciar sessãoVIOLA
Trancada no quarto com o ar-condicionado no máximo, o som ritmado do mar do lado de fora parecia uma contagem regressiva para a minha execução. A ilha já começava a transbordar de convidados das duas famílias.
Três batidas secas na madeira.
— Viola. Abre essa porta.
Continuei encarando o teto, o peito subindo e descendo devagar. Desde o show na mesa do jantar e o embate no salão com William, o silêncio era a única arma que me restava contra meu pai.
— Todos já estão descendo para o deck. Seus primos chegaram. Você não pode passar o dia inteiro trancada como uma prisioneira.
A maçaneta girou com violência, travando na tranca. O suspiro pesado dele atravessou a fresta.
— Chega dessa imbecilidade, Viola! Você está agindo como uma criança mimada!
Levantei num pulo. Destravei a fechadura com um estalo alto e escancarei a porta. Meu pai deu um passo para trás, surpreso com o impacto. Passando por ele como se fosse um fantasma no corredor, nem sequer olhei para o seu rosto.
— Viola—
— Não! — cortei, sem diminuir o passo.
Desci os degraus de pedra rumo à praia privativa. O vento da noite trouxe o cheiro de sal e o murmúrio de dezenas de vozes reunidas à beira-mar. Eu precisava de ar. Precisava da tia Dianora e dos meus primos. Cesario, Bertoldo, os gêmeos Filippo e Angela... eram as únicas pessoas naquele arquipélago que não pareciam prontas para me vender pelo melhor lance.
Pisei na areia fina, o vestido leve de linho esvoaçando ao redor das minhas pernas.
O falatório no deck diminuiu no segundo em que me aproximei. Dezenas de pares de olhos se cravaram em mim. O peso da avaliação era sufocante. Cameron estava parado perto do bar, uma taça de champanhe entre os dedos, medindo meus passos com aquele sorriso calculado de quem examina o próprio patrimônio.
— Viola. — Cameron ergueu a taça em minha direção, o olhar frio brilhando de satisfação. — Estávamos ansiosos para ver a noiva.
Engoli a seco, forçando uma postura ereta e um esboço de sorriso educado. Mas antes que eu pudesse articular uma resposta, o ar atrás de mim se adensou.
Uma mão grande e firme se fechou ao redor da minha cintura.
O impacto do corpo rígido de William colando nas minhas costas me fez travar a respiração. A palma dele queimou através do tecido do meu vestido, me puxando sem hesitação contra o seu peito largo. O susto me fez reclinar a cabeça para trás. Por um milésimo de segundo, o pânico me pegou: achei que ele fosse me beijar ali, na frente de todo mundo, para selar a dominação.
Mas a boca dele desceu até a curva da minha orelha. O hálito quente de uísque e hortelã roçou minha pele.
— Sorria, noivinha — a voz veio num tom grave, provocativo, perfeitamente audível apenas para mim. — Me garantiu que era uma ótima atriz.
O sangue subiu queimando pelas minhas bochechas. O ódio borbulhou, mas apertei as mandíbulas. Virei o rosto para ele, os olhos castanhos faiscando a milímetros. Passei o braço ao redor dos ombros de William, cravando as unhas na nuca dele por baixo do cabelo escuro com força suficiente para machucar.
— Eu nunca esqueço minhas falas, querido.
William soltou um riso baixo, a mão na minha cintura se apertando ainda mais, me prensando contra o quadril dele. A proximidade brutal fez meu coração espancar as costelas. Minha pele arrepiou inteira, uma reação traidora e visceral ao toque que me deixou mil vezes mais irritada.
Ele percebeu, pois o canto dos lábios dele subiu num sorriso sombrio.
— Ela não está deslumbrante hoje, pai? — William falou para a roda de convidados, a voz baixa e dominante ecoando com posse. — A praia parece combinar com ela.
Empurrei o peito dele de supetão, desfazendo o abraço falso com um impulso tão brusco que quase perdi o equilíbrio na areia. Várias cabeças se viraram na nossa direção. Cameron ergueu a sobrancelha.
Ajustei as alças do vestido rápido, a respiração descontrolada, enquanto William permanecia imóvel, ostentando um sorriso vitorioso e arrogante.
Mudei o foco antes que eu avançasse no pescoço dele. Do outro lado da praia, avistei Bertoldo conversando com Cesario, enquanto Filippo jogava uma bola para Angela.
— Vou falar com a minha família — avisei entre dentes, dando o primeiro passo para me afastar.
William não deixou. A mão dele disparou, os dedos longos se entrelaçando aos meus com uma firmeza inquebrável.
— Nós vamos.
Ele puxou minha mão, me conduzindo pela areia com uma possessividade velada que não me dava margem para relutar sem causar um escândalo. Sem alternativa, engoli o orgulho, estampei o maior e mais falso sorriso no rosto e guiei meu noivo até o único refúgio que me restava.
Apertei o passo no último metro e soltei a mão de William com um arranco, jogando-me nos braços de Cesario.
O abraço firme do meu primo foi o único sopro de ar puro naquele pesadelo. Senti os braços dele se fecharem ao meu redor, a barreira protetora que ele sempre foi.
— Você tá bem? — o sussurro dele veio baixo, direto no meu ouvido, o tom tenso de quem lê nas minhas entrelinhas desde que éramos crianças. — O que aquele desgraçado fez?
Com William parado a dois passos de nós, os olhos pretos pesando nas minhas costas, me forcei a afastar com um sorriso amarelo.
— Sobrevivendo, Cesario. Só isso.
Cesario se ergueu em toda a sua altura, encarando meu noivo. A postura do meu primo era pura hostilidade.
— Cunningham.
William nem piscou. Queixo erguido, a expressão fria e inabalável diante da afronta explícita. Ele não precisava erguer a voz para marcar território.
— Vaccaro — William deu um passo à frente, cobrindo o espaço entre nós. A mão dele subiu até a minha nuca, os dedos deslizando devagar até o meu queixo para virar meu rosto na direção dele. A aproximação foi lenta, intencional. A boca dele roçou a minha orelha num sussurro ríspido: — Comporte-se, noivinha.
E se afastou antes que eu pudesse cuspir no rosto dele. Ofereceu um aceno milimetricamente calculado para os meus primos e caminhou de volta para o deck, a presença dominante abrindo caminho na multidão.
— Sujeito arrogante do caralho — Bertoldo resmungou, dando um gole demorado na cerveja. — O cara te olha como se fosse seu dono.
— Ele não é meu dono — rosnei, cruzando os braços para esconder o tremor nos dedos.
— Aquele homem é um perigo, Viola — Filippo se aproximou, o tom baixando, cheio de um receio que eu raramente via nele. — A reputação dos Cunningham não é boato. A gente bateu de frente com o nonno. O Cesario quase saiu na mão com o seu pai pra tentar cancelar essa porra, mas nem o velho Ruggero cedeu.
O nó na minha garganta apertou, a lealdade deles doía. Depois do casamento, o sangue Vaccaro ainda correria nas minhas veias, mas minha assinatura seria outra. Minhas decisões teriam que responder ao homem que acabou de sair daqui.
— Passei a vida inteira sobrevivendo a vocês — balancei a cabeça, forçando uma risada seca para espantar a gravidade da roda. — Vou sobreviver aos Cunningham. Não sou de porcelana.
Angela deu um passo à frente e me envolveu pelo pescoço, encostando a testa na minha.
— É isso aí. Somos mulheres Vaccaro. Ninguém dobra a gente. Ninguém doma a gente.
Cesario acompanhou a cena em silêncio. O olhar dele migrou de Angela para mim, uma sombra profunda de preocupação pesando nas suas feições. Ele sabia o que estava em jogo. Ele protegia a irmã mais nova com a vida, mas sabia que, no meu caso, as garras do império já tinham se fechado.
Uma pontada amarga de inveja fisgou meu peito. Angela tinha a proteção dos irmãos, um escudo humano que a blindava do mundo. Eu estava sozinha.
Engoli o pavor, calando a voz acovardada no fundo do meu peito. William podia ter o poder, as armas e o sobrenome. Mas, se tentasse me dobrar, eu queimaria o império dele até a última pedra.







