Eu vou almoçar com ele agora.

A brutalidade da verdade me desorganiza. Ele tem razão. Eu não posso fingir que não aconteceu. Então, a covardia dá lugar a um desespero cego. Se ele quer a verdade, eu vou dar a verdade mais destrutiva que posso encontrar.

Levanto o queixo, enrijecendo a coluna.

— Eu vou almoçar com ele agora.

Thomas para. O silêncio que segue é o de uma tempestade prestes a desabar.

— Com ele? — ele pergunta, a voz baixa, perigosa.

— Sim. — Enfrento o olhar dele. — Você estava tão curioso sobre a minha vida, não estava? Então, por que não se junta a nós?

O silêncio corta o ar como vidro quebrado.

— O quê?

— Venha ver com seus próprios olhos — desafio, a adrenalina pulsando nas têmporas. — Assim você descobre se estou mentindo ou se o problema é apenas o fato de eu não estar disponível para o seu joguinho.

Thomas solta uma risada curta, seca, sem um pingo de humor. Os olhos dele escurecem, transformando-se em abismos de frustração e desejo reprimido.

— Você está me provocando, Maya?

— Talvez.

A palavra escapa antes que eu possa segurá-la.

Ele passa a mão pelo maxilar, uma tensão evidente em cada músculo.

— Cuidado — ele avisa, o tom carregado de uma ameaça que ele mal consegue conter. — Você pode não gostar do que acontece quando me convida para esse tipo de jogo.

Não desvio. Não baixo os olhos. Eu já passei do ponto de retorno.

— O restaurante é o da esquina — digo, firme. — Apareça, se tiver coragem de ver que eu segui em frente.

A mentira está na minha boca, com gosto de fel, mas eu não vou recuar.

Thomas me encara por um tempo interminável, como se estivesse avaliando se me beija ou se me quebra. Por fim, ele baixa os olhos para a caixa, depois volta para mim.

— Vá almoçar, Maya.

A permissão soa como uma sentença.

Eu passo por ele, sentindo o calor do corpo dele me envolver enquanto saio daquele elevador. Sinto o olhar dele em mim, pesado, possessivo, acompanhando cada passo meu em direção à rua.

As portas se fecham.

Eu saio da Albuquerque Prime com a sensação nítida de que acabei de atear fogo em tudo. Vinícius não faz ideia do homem que está prestes a encontrar.

E Thomas? Thomas não ignora um desafio.

Eu queria distância. Mas, de algum jeito cruel, tudo o que consegui foi convidar o meu maior perigo para sentar-se à mesa comigo.

O PESO DO OLHAR

Maya

Caminho até o restaurante da esquina com a sensação de que minhas pernas pertencem a outra pessoa.

O sol da hora do almoço b**e forte nas fachadas espelhadas da avenida, os carros passam, gente fala ao celular, o mundo segue como se nada tivesse acontecido. Como se eu não tivesse acabado de sair da Albuquerque Prime com a rescisão atravessada na garganta e o nome de Thomas ainda queimando na minha pele.

Vejo Vinícius pela vitrine antes mesmo de entrar.

Ele está perto da janela, com uma camisa azul-claro de mangas dobradas e aquele ar desarmado de quem nunca precisou medir cada palavra antes de dizê-la. Quando me vê, sorri. Um sorriso limpo, fácil, sem tensão escondida.

Por um segundo, só por um segundo, eu quase acredito que fiz a escolha certa.

Entro.

Vinícius se levanta no mesmo instante.

— Oi — ele diz, se inclinando para me beijar de leve.

Aceito o beijo como quem aceita abrigo da chuva: não porque ama o teto, mas porque precisa urgentemente parar de se molhar.

— Oi.

Ele segura a cadeira para mim, espera que eu sente e só então volta ao próprio lugar. Pequenos gestos. Pequenas delicadezas. Tudo nele parece vir sem peso.

— Você está linda — ele murmura, antes de me olhar com mais atenção. — E completamente exausta.

Solto uma risada breve, sem humor.

— Foi um dia ruim.

— Quer me contar?

A garçonete se aproxima, e eu agradeço pela interrupção. Peço qualquer coisa que me pareça simples o suficiente para não exigir pensamento. Vinícius faz o mesmo. Quando ela se afasta, o silêncio volta à mesa, e com ele a impossibilidade de continuar adiando.

Passo a mão pela borda do copo.

— Eu pedi demissão.

As palavras saem baixas, mas nítidas.

Vinícius franze a testa imediatamente.

— O quê?

Assinto.

— Hoje.

Por um instante, ele só me encara, como se estivesse reorganizando todas as peças.

— Maya... por quê?

Eu abro a boca.

Mas não respondo.

Porque, naquele exato segundo, o ar muda.

É sempre assim com Thomas.

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