Mundo de ficçãoIniciar sessãoNão há anúncio. Ninguém precisa dizer o nome dele. Não existe cena. O mundo simplesmente se ajusta à presença dele de um jeito que meu corpo aprendeu a reconhecer antes da minha cabeça.
Ergo os olhos. Thomas Albuquerque acaba de entrar no restaurante. Ele está de camisa branca, mangas dobradas até os antebraços, gravata afrouxada o suficiente para sugerir um dia longo e ruim, mas não o bastante para apagar o controle absurdo que parece vestir melhor do que qualquer terno. O olhar dele atravessa o salão com precisão cruel e pousa em nós. Em mim. Depois nas mãos de Vinícius sobre a mesa. A mandíbula dele se contrai. Só um pouco. Só o suficiente para eu perceber. Vinícius acompanha a direção do meu olhar e se vira discretamente. Quando vê Thomas se aproximando, endireita a postura, sem saber ainda se está diante de um cliente importante, de um chefe exigente ou de outra coisa. De alguma coisa pior. Thomas para ao lado da nossa mesa. — Maya. A voz dele vem polida. Grave. Quase serena. Só eu escuto o que existe embaixo disso. Meu coração tropeça. — Thomas. Vinícius me olha, depois olha para ele. Há uma pergunta silenciosa no rosto dele. Eu me obrigo a respirar. — Vinícius, este é Thomas Henrique Albuquerque. Meu... ex-chefe. Thomas nem pisca. Ele ignora a apresentação formal, o protocolo, o decoro. Ele não estende a mão para Vinícius. Ele fixa os olhos em mim com uma intensidade que faz o restaurante parecer vazio. — Recebi seu envelope, Maya — ele diz, ignorando a presença de Vinícius como se ele fosse apenas parte da mobília. — Obviamente, eu não aceitei. O silêncio que se segue é absoluto. Vinícius franze a testa, o corpo tenso. — O quê? — Vinícius pergunta, a voz falhando um pouco. Thomas, finalmente, permite que seu olhar se desloque para Vinícius. Não há agressividade aberta, apenas uma autoridade tão absoluta que faz qualquer pergunta parecer irrelevante. — A carta de demissão. Eu a mantive na minha gaveta. Sem assinatura. Sem processamento. Ela não existe para a empresa. Sinto o sangue fugir do meu rosto. — Thomas, você não pode... — começo, mas ele me corta. — Eu posso tudo o que for necessário para manter o nível da minha equipe, Maya. E você sabe que não é uma questão de "pode". É uma questão de lógica. Ele toca o encosto da cadeira vazia ao meu lado. — Posso? Desta vez, não é um pedido. É um movimento natural de quem já se deu por convidado. Ele se senta, e a mesa, que já era pequena, se torna claustrofóbica. O ar muda. O mundo, para mim, passou a ter apenas o raio de alcance da voz dele. Vinícius endireita a postura. Ele tenta recuperar o controle. — Olha, senhor Albuquerque... se ela pediu demissão, é porque tem os motivos dela. O que você está fazendo é... Thomas se vira para ele. O movimento é lento, letal. Ele não precisa elevar a voz. A calma dele é um tipo de violência. — O que eu estou fazendo, Vinícius — ele diz, pronunciando o nome do meu namorado com uma precisão que soa quase como um insulto — é impedir que alguém talentoso cometa um erro baseado em impulso. Maya é rara. Ela não se perde em ruídos. E o que aconteceu hoje foi apenas ruído. — Ruído? — Vinícius rebate, com a voz subindo uma oitava. — Ela saiu de uma empresa porque, pelo que entendi, estava infeliz. Thomas solta uma risada curta, seca. Ele nem olha para Vinícius enquanto responde. Ele olha fixo para mim, desafiando-me a discordar. — Ela não está infeliz. Ela está com medo. São coisas fundamentalmente diferentes. O medo é uma reação a algo que não se consegue controlar, e eu entendo perfeitamente por que ela tentaria fugir de algo que a faz sentir o que ela sente. — Do que você está falando? — Vinícius pergunta, virando-se para mim, procurando uma resposta que eu não tenho. Thomas ignora o pedido de esclarecimento de Vinícius. Ele se inclina para a frente, diminuindo a distância entre nós, ignorando completamente a existência de qualquer outra pessoa no restaurante. — Você não precisa de espaço, Maya. Você precisa de coragem para admitir que o que temos lá dentro é maior do que qualquer medo que você trouxe de fora. Volte amanhã. Na sua mesa. No seu horário. A ousadia da fala dele me deixa paralisada. Ele está jogando sujo. Ele está expondo camadas da nossa relação na frente do meu namorado, usando a intimidade como uma arma, sabendo que eu não posso gritar e contar a verdade sem me destruir. Vinícius olha para mim, o rosto vermelho de frustração e confusão. — Ele está falando de quê, Maya? Que medo é esse? Eu encaro Thomas. O olhar dele é um desafio puro. Ele está me empurrando contra a parede. Ele quer que eu escolha ali, na frente de Vinícius: ou volto para o jogo dele, ou exponho tudo. — É... é uma conversa profissional, Vinícius — minha voz sai trêmula, pequena. Thomas abre um sorriso de lado. Um sorriso que não chega aos olhos. Um sorriso de quem venceu o primeiro round. — Exatamente. Profissional.






