Você está insuportável hoje.

Penso em Vinícius.

No sorriso fácil.

Na leveza.

Na normalidade limpa que ele representa.

Na vida simples que, com esforço suficiente, talvez eu ainda pudesse aprender a querer.

Ergo o queixo.

— Tenho.

Os olhos dele permanecem nos meus por tempo demais.

Como se estivesse me estudando.

Como se procurasse a rachadura.

Como se soubesse.

Talvez soubesse.

Talvez uma parte de mim estivesse implorando silenciosamente para ser desmascarada.

Mas Thomas não me chama de mentirosa.

Não me pressiona.

Não insiste.

E isso dói de um jeito completamente inesperado.

Porque alguma parte miserável de mim queria que ele insistisse.

Queria que ele me sacudisse.

Queria que ele me desse um motivo para odiá-lo e fugir com dignidade.

Mas Thomas apenas baixa os olhos por um instante, como se precisasse recolher alguma coisa que caiu dentro dele.

Depois dá um passo para trás.

E então outro.

A distância que ele cria é pequena.

Mas parece gigantesca.

— Entendi.

Só isso.

Só uma palavra.

E, ainda assim, sinto como se ele tivesse me deixado sangrando no meio da copa.

Ele sustenta a expressão neutra, mas os olhos o traem.

Perda.

Decepção.

Uma tristeza seca, adulta, contida — e por isso mesmo muito pior.

Então ele diz:

— Espero que ele saiba o que tem.

Meu coração simplesmente para.

Porque não há ironia.

Não há desprezo.

Não há jogo.

Só verdade.

Só um homem que queria alguma coisa e, por um segundo, acreditou que podia tocá-la.

Thomas se vira e vai embora.

Eu fico parada no meio da sala, incapaz de respirar direito, observando as costas dele desaparecerem pelo corredor.

O alívio chega primeiro.

Cruel. Instantâneo.

Depois vem a culpa.

E atrás dela vem algo muito pior: a sensação brutal de que acabei de arrancar pela raiz alguma coisa rara antes mesmo de permitir que ela existisse.

Fecho os olhos com força.

Não.

Eu não destruí nada.

Eu me protegi.

Foi isso que fiz.

Precisava repetir isso para mim mesma porque a outra versão da verdade era insuportável: se eu continuasse perto de Thomas Albuquerque, mais cedo ou mais tarde eu me entregaria por inteiro.

E eu já sabia, da pior forma possível, o preço de entregar o coração ao homem errado.

Naquela noite, sentei-me diante do computador e comecei a escrever minha carta de demissão.

Cada palavra digitada parecia um corte.

Mas ficar era ainda mais perigoso.

Porque distância talvez me destruísse aos poucos.

Só que Thomas...

Thomas me destruiria de uma vez.

Thomas

O escritório, que costumava ser o meu campo de batalha, hoje parece uma gaiola de vidro superdimensionada. Encaro o relatório financeiro na tela do computador como se, por pura força de vontade, pudesse fazer os números se reorganizarem para que o vazio que sinto no peito fizesse algum sentido matemático.

Não faz.

O ar na copa ainda pesa nos meus pulmões. O cheiro dela — algo como café, chuva e a desculpa mais esfarrapada da história — ainda parece impregnado na sala. “Eu tenho alguém.”

O sarcasmo sobe pela minha garganta como ácido. Quem? Algum sujeito medíocre, provavelmente. Alguém que pede permissão para tudo, que traz flores em datas comemorativas e que provavelmente acha que "intensidade" é um termo usado apenas em manuais de instrução de eletrodomésticos. Maya não combina com mediocridade, mas é exatamente isso que ela está escolhendo. Segurança. O oposto de mim.

O celular sobre a mesa vibra, um zumbido estridente que corta o silêncio da sala como uma faca. O visor mostra o nome de Beatriz. Ótimo. A última coisa que eu preciso é da perspicácia cirúrgica da minha irmã.

Atendo, jogando o aparelho contra a orelha sem me dar ao trabalho de tirar os olhos do monitor.

— Se for para pedir para eu aparecer naquele jantar de caridade, a resposta é não — disparo, a voz saindo mais cortante do que pretendo.

— Bom dia para você também, Thomas. — O tom de Beatriz é carregado de uma ironia divertida que me dá vontade de arremessar o telefone pela janela. — Senti que você acordou com o humor de um urso que teve o hibernáculo invadido por adolescentes.

— Estou ocupado, Beatriz. Tenho uma empresa para manter funcionando e um estoque inesgotável de paciência que está chegando perigosamente perto de zero. Diga logo o que quer.

— Nossa. — Ela faz uma pausa, o som de um suspiro exagerado ecoando na linha. — Que azedume. Alguém esqueceu de tomar o calmante ou você está apenas sendo o arrogante de sempre?

— Estou trabalhando. O que é um conceito alienígena para você, eu sei, mas tente acompanhar.

— Eu conheço esse tom, Thomas Albuquerque. — A voz dela muda. Perde a brincadeira e ganha aquela qualidade analítica que eu detesto. — Esse é o tom de quando você está tentando convencer a si mesmo de alguma coisa que claramente não é verdade. Está estressado com algum negócio? Ou é apenas a sua necessidade de controle saindo pela culatra novamente?

Forço uma risada seca, o som ecoando vazio pelas paredes envidraçadas.

— Minha necessidade de controle é o que mantém as ações da Albuquerque & Co. onde estão. O que é, coincidentemente, muito acima do que qualquer outra empresa que você conhece consegue manter.

— Você está insuportável hoje. — Ela suspira. — Sério. A tensão que emana de você através do telefone é palpável. O que houve? Algum contrato milionário deu errado? Ou você simplesmente acordou decidido a odiar a humanidade?

— O mundo está cheio de gente incompetente, Beatriz. Eu apenas estou com menos paciência do que o normal para lidar com eles hoje.

— O mundo é o mesmo de ontem, Thomas. Você não. — Ela faz uma pausa, calculada. — Você parece um homem que está tentando segurar um tsunami com as mãos. É exaustivo ouvir você. Por que não tira o final de semana? Vá para o seu refúgio, suma por dois dias.

— Eu não "sumo". Eu planejo. E o meu planejamento de agora não inclui férias.

— Pois deveria. O seu rosto vai começar a criar rugas de preocupação, e isso seria um crime contra a genética da nossa família. Você está obsessivo. É aquela coisa de novo, não é? O seu "tudo ou nada"?

Fecho os olhos. Ela não sabe quem, mas sabe como. A análise dela é certeira demais para o meu gosto. Se ela soubesse que a causa de tudo isso é uma mulher que mal olhou na minha cara sem tremer, ela riria até perder o fôlego.

— Fale sobre o jantar, Beatriz — ordeno, voltando para o tom de comando, a única arma que me resta. — E faça isso rápido.

— Você está fugindo de novo — ela diz, mas não insiste. Pelo menos não por enquanto. — Mas saiba de uma coisa: se você está tentando "consertar" o que quer que seja sendo o idiota arrogante de sempre, vai acabar perdendo o controle de tudo.

Desligo antes que ela possa dizer mais uma palavra.

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