Capítulo 4 - Forasteiro

Parei e desci de Max, que bufou impaciente com o calor. O sol ainda queimava forte, mesmo com o fim da tarde se aproximando. O céu começava a tingir-se de tons alaranjados, e o ar estava pesado, abafado — quase dava pra sentir o calor saindo da terra. Amarrei Max em uma árvore próxima ao rio, onde a sombra era mais densa, e acariciei seu pescoço antes de soltá-lo.

Tirei as botas, a camisa e a calça jeans, ficando apenas com as roupas íntimas. Aquilo não era novidade pra mim — sempre gostei de mergulhar no rio quando ninguém estava por perto. Desde menina fazia isso. A diferença era que agora já fazia um bom tempo que não tinha essa liberdade, esse momento só meu. Fechei os olhos, respirei fundo e pulei na água.

O impacto da água gelada contra a pele me fez arrepiar da cabeça aos pés, mas logo o frio virou prazer. A correnteza era suave, e o rio parecia me abraçar. Senti cada gota refrescando o corpo, levando embora o calor e também uma parte do cansaço que vinha me acompanhando há dias.

Fiquei ali por um tempo, flutuando de costas, olhando o céu — um céu que parecia maior do que qualquer outro que eu já tinha visto na capital. O vento brincava com as folhas e o som dos pássaros distantes completava aquele silêncio bom.

Pensei que poderia ficar ali por horas, mas o sol já se escondia por trás das montanhas. Eu ainda tinha que voltar, me arrumar e me preparar para o jantar com Henrique.

Foi nesse instante que um arrepio percorreu meu corpo. Não de frio, mas de algo diferente.

— Que sensação estranha... — murmurei para mim mesma.

Senti como se alguém me observasse. Era aquela sensação incômoda, instintiva, que faz o coração bater mais rápido. Olhei ao redor, disfarçando, tentando não parecer nervosa, mas a superfície da água parecia refletir sombras demais.

Dei mais uma olhada em direção às árvores e juro que vi algo se mover — talvez um galho, talvez não.

Meu corpo reagiu antes mesmo de eu pensar. Saí da água rapidamente, escorrendo, sentindo o frio do vento bater contra a pele molhada. Peguei minhas roupas, vesti o jeans e a camisa ainda úmida, os dedos tremendo. Foi quando ouvi o estalo seco de um galho sendo pisado.

— Quem está aí? — gritei, tentando soar firme, mas a voz saiu trêmula. — Anda, responde!

Nenhuma resposta. Apenas o som do rio e das folhas se mexendo com o vento.

Meu coração disparou. — Vai ficar escondido, é? Covarde! — gritei novamente, agora mais irritada do que assustada, mas no fundo sabia que algo ali estava errado.

Subi em Max às pressas, puxei as rédeas e deixei que ele seguisse o caminho de volta quase em disparada. O vento secava meus cabelos e a poeira subia atrás de nós. A cada metro que deixava o rio para trás, a sensação de ser observada diminuía — mas não desaparecia.

Voltei pra casa com o coração ainda acelerado. O céu já estava tingido de roxo e dourado, e o cheiro do entardecer — aquele misto de terra quente e vento fresco — me fez lembrar que eu precisava correr.

Subi direto para o quarto, tomei outro banho, rápido, tentando afastar da cabeça aquela sensação. Escolhi uma calça jeans nova, uma camiseta nude e minha bota preferida. Olhei-me no espelho e balancei a cabeça, rindo sozinha. “Parece até que vou pra uma entrevista e não pra um jantar”, pensei.

Antes que pudesse ajeitar o cabelo, ouvi a voz do meu pai ecoando lá de baixo:

— Aurora, desce! O Henrique já chegou!

Suspirei fundo e desci as escadas. Lá estava ele, parado na sala, sorrindo como sempre, ajeitado com aquela camisa clara e o relógio que eu lembrava bem — o mesmo que usava quando íamos montar juntos no rancho.

Nos cumprimentamos brevemente. Ele abriu a porta para mim, num gesto que me arrancou um olhar desconfiado.

— Oxi, o que tá fazendo? — perguntei, arqueando a sobrancelha.

— Só estou sendo educado. Ou será que educação te assusta? — retrucou ele, divertido, enquanto eu revirava os olhos e entrava no carro.

A estrada até a cidade estava tranquila. Conversamos o caminho todo, sobre a vida, o rancho, minha temporada na capital. Ele quis saber sobre a faculdade, sobre os estágios, sobre os colegas — e eu quis saber das histórias dele com os animais, dos casos curiosos que sempre apareciam na clínica. Demos boas risadas. Era impressionante como o tempo não mudava o quanto a conversa entre nós fluía fácil.

Quando chegamos ao restaurante, reconheci de longe o letreiro com luzes antigas. O restaurante da Dona Dê. O mesmo lugar onde eu passava tardes inteiras com meus pais depois das feiras.

Assim que entramos, ela veio em minha direção com o mesmo sorriso de sempre.

— Não acredito! Aurorinha! Você voltou de vez? Me diga que agora é pra ficar! — disse, me abraçando apertado.

— Sim, Dona Dê. Dessa vez é pra ficar mesmo — respondi sorrindo, sentindo o cheiro de canela e café que sempre parecia acompanhá-la.

— Então nem precisa pedir, já sei o que vai querer. Seu prato favorito sai já já da cozinha — disse ela, cheia de carinho.

Sentamos perto da janela. Henrique pediu uma cerveja, e eu, como de costume, um suco de laranja. Nunca gostei de bebida alcoólica, e ele já sabia disso.

Enquanto esperávamos, chegaram três homens barulhentos. Entraram rindo alto, falando palavrões, fazendo piadas sem graça. Um deles chamou minha atenção: alto, uns 1,85, barba por fazer, camisa branca aberta até o peito, exibindo um colar prateado. Ria de um jeito irritante, como se o mundo fosse uma piada particular.

Revirei os olhos. A velha mania de observar e julgar as pessoas não me deixava.

Henrique se inclinou para mim.

— Preciso fazer uma ligação rápida pra um cliente. Já volto, tá? — disse, levantando.

— Claro — respondi, distraída.

Enquanto ele saía, Carminha — a filha da Dona Dê — servia as mesas. Continuava a mesma: doce, mas desastrada. Eu mal tinha pensado nisso quando ela tropeçou, e a bandeja foi ao chão. O barulho foi alto, as garrafas rolaram, e ela caiu de joelhos.

Corri o olhar para os homens, que, em vez de ajudar, caíram na gargalhada. Um deles quase chorava de tanto rir.

Senti o sangue ferver.

Levantei devagar e me aproximei.

— Vocês não são daqui, certo? — perguntei. O restaurante inteiro silenciou.

Um deles virou a cabeça lentamente, com desdém.

— E por que quer saber? Vai sentir saudade quando a gente for embora? — zombou.

— Não — respondi seca. — É que aqui as pessoas têm respeito e educação. Coisas que vocês parecem não conhecer.

Carminha tentou me puxar de volta. — Aurora, não... — mas eu nem ouvi.

— Aqui a gente ajuda quem precisa — continuei — e não ri de situações alheias feito hienas loucas.

O mais alto levantou-se, empurrando a cadeira para trás com força.

— E pela sua botina, você também não é daqui. Por que não volta pra cuidar das vacas? — disse, me encarando.

— Você deve ser o mais engraçado da manada — retruquei, ficando de pé.

Ele deu um passo à frente, o rosto próximo ao meu, o cheiro de álcool e estranhamente um perfume caro.

— Quem você pensa que é pra falar assim comigo?

— Eu não penso — disse firme. — Eu sei exatamente o tipo de homem que é.

Antes que a situação explodisse, Henrique apareceu.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou, colocando-se entre nós. — Fique longe dela.

O homem sorriu de canto.

— É melhor domar sua namoradinha — provocou, lançando-me um olhar odioso antes de se virar.

Dei um passo à frente, mas Henrique me segurou pelo braço.

— Deixa, Aurora. — A voz dele era baixa, mas firme.

— Idiota — murmurei, com o coração batendo descompassado.

— Acalmem-se! — gritou Dona Dê. — No meu restaurante ninguém briga, entendido?

O silêncio voltou. Sentei de novo, tentando respirar fundo. Um garçom trouxe um copo de água, mas minha garganta estava seca demais pra engolir.

Olhei de canto e lá estava ele, o sujeito, ajeitando a cadeira de modo a ficar de frente pra mim. Pegou a cerveja, deu um gole e me lançou um olhar cínico, com um sorrisinho torto no canto da boca.

Eu não desviei o olhar.

Por dentro, fervia.

Mas por fora, permaneci em silêncio.

Sabendo que aquela história, de algum jeito, ainda não tinha terminado.

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