Capítulo 3

O som da buzina fez o silêncio reinar instantaneamente na sala de estar. O deboche no rosto de Carla sumiu, dando lugar a uma expressão de puro nervosismo. Débora ajeitou as joias no pescoço, e Otávio, que acabara de entrar no cômodo, limpou o suor da testa com um lenço de bolso. Todos ali tinham medo do homem que os esperava.

 

 

  — O carro chegou — Otávio disse, a voz visivelmente trêmula. — Liz, ande logo. Não o faça esperar.

Liz respirou fundo.

 

  Ela apertou o tecido humilde do vestido branco feito por sua avó, buscando a última gota de coragem que restava em seu peito. Ignorando os olhares cheios de desprezo da madrasta e da meia-irmã, ela caminhou em direção à porta principal.

 

  Assim que os grandes portões se abriram, Liz deparou-se com um cenário imponente. Parado no meio do jardim, havia um imenso carro executivo preto, blindado e com os vidros totalmente escuros. Um homem alto, vestindo terno escuro e expressão séria, guardava a lateral do veículo.

 

  Ao ver Liz se aproximar, o motorista franziu a testa, analisando o vestido simples de algodão e as sapatilhas velhas. Ele deu um passo à frente e abriu a porta traseira do carro.

 

  — Entre, senhorita — ele disse, com uma voz controlada.

 

  Liz não olhou para trás. Não se despediu do pai que a vendeu, nem da família que a humilhou. Ela entrou no veículo, e a porta foi fechada com um baque pesado, isolando-a completamente daquela casa.

 

  O interior do carro era luxuoso, com cheiro de couro novo e um ar-condicionado gelado. Para o alívio temporário de Liz, o banco de trás estava vazio. O chefe da máfia não estava ali; ele a aguardava diretamente em sua própria mansão.

 

 O carro começou a se movimentar. Liz olhava fixamente para as próprias mãos, tentando conter o tremor do corpo. Foi quando o motorista a olhou pelo espelho retrovisor interno. Ele pigarreou, quebrando o silêncio sufocante.

 

  — Você não é a senhorita Carla, não é? — o homem perguntou, com a voz mansa, mas carregada de preocupação.

 

  Liz ergueu os olhos, assustada. Ela engoliu em seco e balançou a cabeça negativamente.

 

  — Não. Meu nome é Liz. Sou a outra filha de Otávio.

 

  O motorista soltou um suspiro pesado e desacelerou o veículo, encostando o carro de luxo na beira de uma avenida menos movimentada. Ele girou o corpo no banco da frente para olhar diretamente para Liz. Seus olhos não tinham deboche, apenas pena.

 

  — Escute, garota... Eu trabalho para o senhor Pablo há anos. Eu conheço o homem que ele é. Entrar no lugar da sua irmã não vai ser um bom negócio para você. Se o patrão descobrir que foi enganado por Otávio, a fúria dele vai ser implacável. Você é jovem, parece ser uma boa menina... Desça desse carro agora. Eu posso fingir que você fugiu. Fuja para bem longe daqui enquanto há tempo.

 

   As palavras do motorista ecoaram como um aviso sombrio na mente de Liz. O medo tentou paralisá-la. A oportunidade de escapar estava bem ali, diante de si. Bastava abrir a porta e correr.

 

  Mas então, a imagem de sua avó idosa, doente e indefesa no interior veio à sua mente. Se Liz fugisse, Otávio e Débora não teriam piedade. Eles cortariam qualquer ajuda à velha senhora, ou pior, a máfia cobraria a dívida diretamente de quem ficou para trás. O casamento era a única garantia de que sua avó continuaria viva e recebendo cuidados.

 

   Liz limpou uma lágrima solitária que teimava em cair, engoliu o choro e endireitou as costas. Ela olhou firmemente nos olhos do motorista através do espelho.

 

   — Eu agradeço o seu aviso — Liz respondeu, com a voz surpreendentemente firme. — Mas eu não vou descer. A vida da minha avó depende desse casamento. Se eu tiver que enfrentar um monstro para mantê-la segura, eu vou enfrentar. Siga em frente, por favor.

 

   O motorista a encarou por alguns segundos, surpreso com a determinação daquela jovem vestida de forma tão simples. Ele balançou a cabeça, engatou a marcha e acelerou o carro novamente.

 

   — Que Deus te proteja, Liz — ele sussurrou. — Porque você está entrando na cova do leão.

 

   O restante da viagem correu em silêncio. Meia hora depois, o carro cruzou os enormes portões de ferro de uma propriedade que fazia a mansão de Otávio parecer pequena. A residência de Pablo era uma fortaleza de pedras escuras e segurança máxima.

 

   O carro parou. O motorista abriu a porta para Liz, que desceu sentindo as pernas pesadas. Ela caminhou até o grande hall de entrada, onde as portas duplas foram abertas por homens armados.

Lá dentro, de pé diante de uma gigantesca lareira, estava ele.

 

Pablo.

 

   O chefe da máfia vestia um terno cinza-escuro impecável. Seu rosto tinha linhas duras e marcantes, os cabelos pretos estavam perfeitamente alinhados e seus olhos eram duas pedras de gelo cinzentas. Ele segurava um copo de uísque e, ao ouvir os passos, virou-se devagar.

 

   Seus olhos frios e calculistas fixaram-se diretamente em Liz. Ele a analisou de cima a baixo, detendo-se no vestido humilde de algodão branco. Um silêncio mortal dominou o ambiente enquanto o olhar do mafioso subia lentamente até o rosto dela.

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