Mundo ficciónIniciar sesiónNo chão frio da catedral, o pânico havia se tornado absoluto. Otávio e Clarice estavam encolhidos atrás de um dos pesados bancos de madeira, cobrindo as cabeças enquanto os estilhaços de vidro dos vitrais choviam sobre eles.
Foi no meio de um grito de pavor dos convidados que Clarice ergueu os olhos por um segundo e, através das frestas das portas perfuradas por balas, avistou a silhueta da limusine preta metralhada na calçada.O sangue de Clarice congelou. — Otávio... Otávio, a limusine! — ela berrou, a voz esganiçada pelo puro terror, sacudindo o marido pelos ombros com força brutal. — É a Carla! A nossa menina estava naquele carro! Ela disse que ia chegar agora! Otávio arregalou os olhos, a ganância e a arrogância que ostentava minutos atrás evaporando instantaneamente. Ele olhou na mesma direção e o horror o dominou por completo. — Não... Não, a Carla não! — Otávio gritou, o desespero rasgando sua garganta. Clarice começou a chorar de forma histérica, tentando se levantar em meio ao tiroteio para correr em direção à saída, sendo puxada de volta por Otávio enquanto os tiros ainda ecoavam com força do lado de fora. Eles estavam vivendo o próprio inferno, percebendo que a armadilha que criaram para se livrar de Liz havia se voltado contra a filha favorita deles. Do lado de fora, a resposta da máfia de Pablo foi cirúrgica e devastadora. Os atiradores de elite posicionados nos telhados por Matteo executaram o plano com precisão implacável. Em poucos minutos, as rajadas de fuzil dos traidores cessaram, substituídas pelo som de corpos caindo no asfalto quente. Quando o silêncio finalmente se instalou, pesado e impregnado pelo cheiro de pólvora, Pablo se levantou de trás do altar de mármore. Ele estendeu a mão para Liz, ajudando-a a se erguer com firmeza. O vestido branco dela estava intacto, mas o olhar de Liz agora brilhava com uma adrenalina pura. — Matteo! — Pablo rugiu, caminhando em direção à saída com o apoio de sua bengala, mantendo Liz firmemente ao seu lado. — Tudo limpo, chefe! — Matteo respondeu, surgindo pelas portas da igreja com a arma em punho. — Eliminamos quase todos. Sobrou apenas um vivo na calçada. Pablo marchou para fora da igreja, arrastando Liz consigo. No chão da calçada da catedral, cercado pelos homens fortemente armados da Aurora, um dos atiradores inimigos tossia sangue, pressionando um ferimento grave no abdômen. Pablo parou diante dele, a ponta de sua bengala preta pressionando com força o ombro ferido do homem, fazendo-o gemer de dor. Os olhos cinzentos do chefe da máfia eram duas pedras de gelo. — Quem mandou você? — Pablo exigiu, a voz baixa, terrivelmente ameaçadora. — Quem deu a ordem para atacar o meu casamento? Fale e eu garanto que sua morte será rápida. O homem agonizante olhou para cima, um sorriso sangrento e fraco surgindo em seus lábios pálidos. Ele tossiu mais uma vez, o olhar já começando a perder o foco. — Foi... a Ordem... — o homem sussurrou, a voz falhando no último suspiro. Imediatamente após pronunciar aquelas palavras, a cabeça do atirador pendeu para o lado. Ele estava morto. Pablo estreitou os olhos, os nós de seus dedos ficando brancos ao redor do cabo da bengala. A Ordem. O nome daquela organização misteriosa ecoou como uma promessa de que a guerra estava longe de terminar.Nesse exato momento, os portões da igreja foram escancarados por dentro e uma enxurrada de convidados em estado deplorável de pânico começou a correr pelas escadarias. Mulheres de vestidos de grife rasgados choravam alto, homens de terno corriam sem olhar para trás, pisando nos cartuchos de bala espalhados pelo chão. O glamour da alta sociedade havia sido completamente destruído pela realidade brutal do submundo de Pablo. Ao longe, o som estridente e cortante das sirenes começou a rasgar o ar da cidade. Instantes depois, viaturas de polícia e ambulâncias com as luzes vermelhas e azuis girando cruzaram a avenida em alta velocidade, cercando o perímetro da catedral. No meio do caos dos convidados fugindo, Otávio passou empurrando as pessoas como um louco. Ele desceu os degraus da igreja tropeçando nos próprios pés e correu desesperado em direção à limusine preta destruída pelas balas. — Carla! Carla, minha filha! — ele gritava, com as mãos trêmulas enquanto tentava arrancar a porta emperrada do carro para ver como a filha estava. Atrás dele, na imponência da escadaria, Liz e Pablo assistiam à cena em silêncio. Diante de toda a polícia e do rastro de sangue, a aliança deles de fachada havia sido batizada pelo fogo.






