Mundo ficciónIniciar sesiónO silêncio na catedral era tão denso que o eco dos passos de Liz contra o tapete vermelho parecia ditar o ritmo dos corações presentes. No altar, Pablo a aguardava. Seus olhos cinzentos fixaram-se nela com uma intensidade que fez o estômago de Liz revirar.
Quando ela finalmente subiu os degraus e parou ao seu lado, o contraste entre o terno preto dele e o cetim branco-ofuscante dela era magnético.O padre deu início à liturgia, mas ninguém ali ouvia as palavras sagradas. A tensão no ambiente era quase física. Liz conseguia sentir, pelo canto do olho, o olhar fulminante de Clarice e o rosto pálido de seu pai, Otávio, ainda em choque com a sua transformação. Enquanto isso, a poucas quadras dali, uma limusine preta cortava o trânsito em alta velocidade. No banco de trás, Carla retocava o batom vermelho no espelho, com um sorriso mimado nos lábios. Ela havia planejado tudo meticulosamente com a mãe: não assistiria à entrada da irmã rejeitada. Em vez disso, programara sua chegada para o exato momento do "sim". Carla queria abrir as portas da igreja no clímax da cerimônia, roubando todos os olhares, os flashes e a atenção para si, provando que, mesmo Liz se casando com o chefe da máfia, a verdadeira estrela da família ainda era ela. Dentro da catedral, o padre pigarreou, olhando para o casal. — Pablo, você aceita Liz como sua legítima esposa, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, por todos os dias da sua vida? Pablo sustentou o olhar de Liz. Havia promessas silenciosas e perigosas brilhando naquelas íris cinzentas. — Aceito — a voz dele ecoou grave, firme e sem hesitação pelos altos vitrais do templo. O padre então se voltou para a noiva. — Liz, você aceita Pablo como seu legítimo esposo...? Liz engoliu em seco. Ela pensou na sua avó, agora protegida pelos homens de Pablo. Pensou no pai e na madrasta que a jogaram no lixo. A determinação blindou seu peito. — Aceito — ela respondeu, a voz clara e altiva.No exato milésimo de segundo em que as palavras saíram dos lábios de Liz, a limusine de Carla freou bruscamente diante das escadarias da igreja. Mas antes que o motorista pudesse abrir a porta para a jovem descer, o inferno rompeu do lado de fora. RATATATATATATATATA! O som ensurdecedor de rajadas de fuzil cortou o ar. Os traidores da máfia, acreditando piamente que a noiva oficial dentro do carro era a mulher que Pablo amava, abriram fogo impiedosamente contra o veículo. Os vidros da limusine estouraram em uma chuva de estilhaços. Gritos de pavor ecoaram na calçada.Dentro da igreja, o estrondo das balas perfurando as pesadas portas de madeira causou o caos instantâneo. — Emboscada! — gritou Matteo ao fundo, sacando sua arma. Em um piscar de olhos, a catedral virou um cenário de horror e desespero. Convidados da alta sociedade jogaram-se ao chão, derrubando os bancos de madeira. Clarice soltou um guincho agudo de terror, agarrando-se a Otávio, que rastejava pelo piso de mármore tentando salvar a própria pele, completamente esquecido da filha que estava no altar. O padre jogou-se atrás do confessionário, cobrindo a cabeça.Liz congelou por um breve segundo, o som dos tiros fazendo seus ouvidos zunirem. Mas antes que o pânico a dominasse, uma mão pesada e firme envolveu sua cintura com força brutal. — Chão! Agora! — ordenou Pablo. Mesmo com a bengala em uma das mãos, Pablo usou a força de seu corpo para puxar Liz para trás do pesado altar de mármore maciço, usando a estrutura como um escudo intransponível. Ele a prensou contra a parede de pedra, cobrindo o corpo dela com o seu. O cheiro de colônia cara e couro dele foi abafado pelo cheiro forte de pólvora que começava a invadir o templo. — Fique embaixo de mim e não levante a cabeça por nada! — Pablo rugiu perto do ouvido dela, sacando uma pistola preta que trazia escondida sob o paletó do terno. Liz cravou as unhas no tecido do terno dele, o coração batendo na garganta. Olhando por baixo do braço de Pablo, ela conseguiu ver o reflexo do caos pelo salão: os homens de confiança de Pablo já revidavam os tiros, transformando a igreja em um verdadeiro campo de batalha. Pedaços de gesso e vitrais coloridos explodiam no ar, caindo como chuva sobre os convidados que gritavam e choravam de pavor.Pablo disparou duas vezes contra a direção das portas, a expressão gélida, os olhos fixos no perigo. Ele não parecia surpreso; parecia um predador que finalmente havia encurralado suas presas. Ele olhou para baixo por um instante, garantindo que Liz estava completamente protegida sob seu corpo. — Eu disse que eles morderiam a isca — Pablo sussurrou entre os dentes, um sorriso feroz e sombrio surgindo em seus lábios enquanto o tiroteio comia solto do lado de fora. — O nosso casamento acabou de começar, minha esposa. E o preço pelo nosso 'sim' vai ser pago com o sangue deles.






