O carro preto parou em frente a uma mansão enorme na área mais rica da cidade. Liz olhou pela janela, com o coração batendo rápido de medo. A casa era linda por fora, cheia de luzes e colunas de mármore, mas para ela parecia uma prisão de luxo.
Um segurança abriu a porta do carro e Liz desceu. Ela segurava firme sua bolsa velha de pano, a única coisa que tinha trazido do interior. Assim que colocou os pés na sala de estar, sentiu os olhares.
Dois mordomos e uma empregada estavam parados no canto da sala. Eles olharam para o casaco surrado de Liz e para os seus sapatos sujos de terra. A empregada cobriu a boca, cochichando algo com um sorriso de deboche. O desprezo deles doeu, mas o pior ainda estava por vir.
Sentadas em um sofá de veludo caro estavam a madrasta, Débora, e a meia-irmã, Carla. As duas usavam joias brilhantes e roupas que pareciam custar uma fortuna.
— Então a caipira chegou — Débora disse, levantando-se devagar. Ela olhou para Liz como se estivesse vendo um bicho nojento. — Olhe só para isso, Otávio. Você trouxe essa garota imunda para dentro da minha casa limpa?
— Eu não tive escolha, Débora — Otávio respondeu, entrando logo atrás e jogando as chaves na mesa. — O contrato com o Pablo precisa ser cumprido amanhã, ou ele acaba com os nossos negócios.
Carla, que estava lixando as unhas, deu uma risada maldosa. Ela se levantou e caminhou até Liz, parando bem perto. Carla era idêntica à mãe: bonita por fora, mas com os olhos cheios de maldade.
— Você devia me agradecer, sabia? — Carla falou, apontando o dedo para o peito de Liz. — Graças a mim, você vai sair dessa lama e casar com um homem rico. Claro, ele é um monstro cruel que todo mundo teme, mas para alguém como você, já é lucro.
— Eu não queria estar aqui — Liz disse, tentando manter a voz firme, embora estivesse segurando o choro. — Vocês me tiraram da minha avó.
Débora deu um passo à frente e apontou o dedo na cara de Liz.
— Cale a boca! Você não tem direito de reclamar de nada nesta casa. Você é só uma moeda de troca para salvar a minha filha. E nem pense em circular pela minha sala com essas roupas imundas. Suma da minha frente!
— Onde... onde eu vou dormir? — Liz perguntou, olhando ao redor.
Débora deu um sorriso cruel.
— Levem essa coisa para o quarto que ela merece. No topo da casa.
Uma das empregadas fez um sinal com a cabeça, sem paciência.
— Siga-me, garota. E não toque em nada nas paredes.
Liz subiu lance por lance de escadas. A casa era cheia de quadros caros e tapetes fofos, mas quanto mais subiam, mais o lugar ficava escuro e frio. Finalmente, a empregada abriu uma porta de madeira rangendo no final de um corredor estreito.
— É aqui. Não saia até amanhã de manhã — a mulher disse, empurrando Liz para dentro e batendo a porta com força.
O quarto era, na verdade, o sótão da casa. O teto era baixo e inclinado, cheio de teias de aranha nos cantos. Não havia janelas grandes, apenas uma pequena fresta por onde entrava um vento frio da noite. O chão estava coberto de poeira e caixas velhas quebradas.
No centro do cômodo, direto no chão frio, havia apenas um colchão velho, manchado e rasgado.
Liz caminhou até o colchão e se sentou, encolhendo as pernas para se proteger do frio. As lágrimas que ela segurou o caminho inteiro finalmente caíram. Ela lembrou da sua infância, de quando apanhava e ficava trancada em lugares assim. Parecia que o pesadelo estava começando tudo de novo.
Mas, enquanto chorava no escuro, ela lembrou da promessa que fez a si mesma no galinheiro. Eles achavam que ela era fraca. Achavam que podiam usá-la e jogá-la fora.
Liz limpou o rosto com a manga do casaco. Ela ia aguentar aquela noite. Amanhã, ela se casaria com o chefe da máfia, e usaria o poder dele para fazer cada um naquela casa pagar pelo que estavam fazendo.
A noite no sótão foi a mais longa, fria e triste da vida de Liz. O vento gelado passava pela fresta do teto, fazendo seu corpo tremer sob o casaco velho. Ela tentou dormir no colchão manchado, mas o barulho dos ratos correndo no escuro e a saudade de sua avó não a deixaram fechar os olhos. Cada minuto que passava parecia uma eternidade cheia de solidão. Quando os primeiros raios de sol surgiram, a porta do sótão foi aberta com um chute. Uma das empregadas entrou segurando uma bandeja de plástico de qualquer jeito.
— Acorda, garota. Seu café da manhã — disse a mulher, jogando a bandeja no chão sujo.
Nela, havia apenas uma torrada amanhecida e um copo de suco de maçã morno. Antes que Liz pudesse falar qualquer coisa, a funcionária jogou uma sacola de grife em cima do colchão.
— Coma rápido, tome um banho no banheiro do corredor e vista o que está aí dentro. Dona Débora mandou avisar que o carro do seu noivo chega em duas horas.
Assim que a mulher saiu, Liz olhou o conteúdo da sacola. Dentro havia um vestido rodado rosa-chiclete e uma sapatilha preta. Eram roupas que Carla considerava velhas e que não queria mais, mas que ainda pareciam caras. Liz sentiu o estômago embrulhar. Ela não queria usar nada que pertencesse à irmã que a colocou naquela situação.
Depois de tomar o banho rápido na água quase congelada, Liz voltou para o sótão. Ela olhou para o vestido de Carla e tomou uma decisão. Abriu sua bolsa de pano e puxou de lá uma peça que guardava como um tesouro: um vestido branco, simples, de algodão, que sua avó tinha costurado à mão com todo o amor do mundo.
Liz vestiu a peça branca. O tecido era humilde, mas cheirava ao amaciante caseiro do interior, o que lhe deu um sopro de coragem. Como não tinha trazido nenhum calçado além da bota de borracha suja de lama do galinheiro, ela foi obrigada a calçar as sapatilhas de Carla.
Ao se olhar no pequeno espelho quebrado do sótão, Liz não parecia uma noiva da máfia, mas sim uma jovem pura pronta para enfrentar o seu destino.
Ela desceu as escadas devagar, segurando o corrimão. Na sala, Débora e Carla tomavam um café da manhã farto. Quando as duas olharam para Liz, a reação foi de puro deboche.
— Mas o que é isso? — Débora largou a xícara, rindo alto. — Você vai se casar com o homem mais poderoso da cidade vestida como uma camponesa que vai colher flores? Eu te dei roupas decentes!
— Eu não vou usar as roupas da Carla — Liz respondeu, mantendo a cabeça erguida. — Vou me casar com o vestido que a minha avó fez.
Carla se levantou, olhando para os pés de Liz com desdém.
— Pelo menos teve o bom senso de usar os meus sapatos velhos, já que nem calçado aquela sua velha doente teve dinheiro para te dar. Você está ridícula, Liz. O Pablo vai rir da sua cara assim que te ver.
Antes que Liz pudesse rebater, o som de uma buzina alta e imponente ecoou do lado fora. O carro do chefe da máfia tinha chegado.