O silêncio na sala principal da mansão era assustador. Pablo estava de pé, segurando sua bengala preta. Ele era jovem, bonito e muito rico, mas seu olhar era frio como o gelo. Ele tinha acabado de assumir o lugar do pai no comando da cidade.
— Não era você que estava no acordo — Pablo disse, olhando de cima a baixo para a moça assustada. — Você pelo menos é da família Silveira?
Liz engoliu em seco. Ela usava um vestido simples e gasto, que não combinava em nada com aquela casa luxuosa cheia de espelhos e ouro.
— Eu sinto muito... — ela sussurrou, tremendo dos pés à cabeça. — Eu não tive escolha.
Pablo olhou para o lado, irritado. Por dentro, ele sentia uma mistura estranha. Não sabia se ficava bravo por ter sido enganado por aquela família que lhe devia tanto dinheiro, ou se sentia pena daquela garota indefesa.
Mas ele lembrou que agora era o chefe da máfia. Naquele mundo cruel, quem tem pena morre. Ela precisava aprender isso logo.
— Vou te mandar de volta para a sua casa — Pablo falou, com a voz grossa e sem emoção. — E vou exigir que me entreguem a mulher certa. A Carla Silveira.
Ao ouvir isso, Liz não aguentou e começou a chorar. Pablo olhou para as lágrimas dela e sentiu um aperto no peito. Ele pensou em voltar atrás, mas o medo de parecer fraco falou mais alto. Da última vez que ele foi bonzinho, seus inimigos mataram a mulher que ele amava e, logo depois, assassinaram o seu pai. Se ele aceitasse ser enganado agora, todos iam achar que ele era fraco.
— Por favor, não faça isso — Liz implorou, com uma voz tão doce que mexeu com ele. — Se você me devolver... eles vão matar a minha avó. Eu não posso deixar isso acontecer!
Pablo deu um passo na direção dela, ficando bem perto.
— Quem quer matar sua avó?
— O homem... que diz ser meu pai — ela respondeu, chorando.
Pablo franziu a testa, curioso.
— Como assim "diz ser seu pai"?
Liz olhou bem nos olhos dele. De repente, aquele medo todo sumiu e deu lugar a uma força que Pablo não esperava.
— Nenhum pai de verdade abandonaria a filha no interior por doze anos. Nenhum pai voltaria do nada, arrastando a filha à força para casar com um homem perigoso que ela nem conhece.
Pablo deu um sorriso curto e frio.
— Então você sabe quem eu sou? Sabe o que eu faço com quem menti para mim?
— Eu sei — Liz disse, dando um passo para frente, sem recuar. — Por isso estou pedindo. Me ajude a me vingar deles. Eles enganaram você e me tiraram da única pessoa que me ama.
O silêncio na sala principal era pesado como chumbo. Pablo deu dois passos lentos, apoiando-se em sua bengala preta com detalhes em prata. Não havia nenhuma lesão em suas pernas; o acessório era puramente uma marca de estilo e poder, um símbolo de autoridade que o fazia parecer ainda mais imponente.
Por trás daqueles olhos cinzentos e enigmáticos, no entanto, passava um filme de terror. Pablo nunca quis aquela vida. Ele tinha tentado se afastar dos negócios da família, buscando um futuro normal. O preço por sua rebeldia? Seus inimigos assassinaram brutalmente a mulher que ele amava. Meses depois, mataram seu pai. Forçado pela tragédia, ele teve que assumir o trono da máfia. Naquele mundo, a piedade era uma sentença de morte, e ele jurou nunca mais ser fraco.
Mas aquela garota de vestido de algodão estava quebrando suas regras. Em vez de implorar por misericórdia, ela pedia cabeças.
— Vingança? — Pablo saboreou a palavra, com um sorriso de canto, frio e perigoso. — Você tem coragem, garota. Mas sabe onde está pisando? Sabe o que acontece com quem tenta brincar comigo?
— Eu passei a noite trancada em um sótão imundo, tratada como lixo pelo homem que me gerou — Liz deu um passo à frente, sustentando o olhar do mafioso. O pavor havia sumido, dando lugar a uma rigidez obstinada. — Eu não tenho nada a perder. Se você me devolver, Otávio me tranca de novo e deixa a minha avó morrer. Se eu ficar, eu serei a sua esposa. Mas eu quero ver a ruína deles.
Pablo caminhou ao redor dela. O som ritmado da bengala no mármore polido ditava a tensão no ambiente. Ela era pura por fora, mas guardava uma escuridão fascinante nos olhos.
— Otávio Silveira achou que me entregaria um refugo para salvar a filha mimada — Pablo parou bem diante dela, reduzindo a distância entre os dois. — Se eu aceitar você, mudo as regras do jogo. Você deixa de ser a bastarda e passa a ser a rainha. Seu pai e sua madrasta vão ter que se ajoelhar diante de você. Qual o nome da sua avó?
—
Ana Lima — Liz respondeu, com a voz embargada, mas firme. — Ela não é minha avó de sangue. Quando eu tinha seis anos, meu pai me jogou em uma cidadezinha do interior com a desculpa de me "disciplinar". Na verdade, ele só queria se livrar de mim. Dona Ana me achou chorando na rua, me acolheu e me deu o único amor que já conheci. Ela está doente. Precisa de médicos.
Um lampejo de respeito cruzou as feições duras de Pablo. Aquela garota era uma sobrevivente, assim como ele.
— Considere feito — Pablo guardou a bengala e estendeu a mão direita, adornada com anéis pesados. — Mas entenda uma coisa, Liz. Casar comigo é um caminho sem volta. Se você me trair, ou se vacilar quando eu precisar da sua força, eu mesmo destruo o que sobrou da sua família. Estamos entendidos?
Liz olhou para a mão dele e, sem hesitar, depositou sua mão pequena e calejada sobre a dele. O toque foi como um choque elétrico de poder.
— Estamos entendidos — ela sussurrou.
Pablo soltou a mão dela e virou-se para os seguranças na porta, a voz ecoando como um comando militar:
— Chamem os melhores estilistas e joalheiros da cidade. Quero que transformem a minha noiva até o anoitecer. Ela precisa parecer intocável. E mandem uma equipe médica com escolta armada para o interior. Encontrem a dona Ana Lima. Deem a ela o melhor tratamento que o dinheiro puder comprar. Ninguém toca na mãe da minha esposa.
Liz sentiu as lágrimas finalmente caírem, mas agora eram de puro alívio. O jogo havia virado.
— O casamento é amanhã — Pablo avisou, caminhando em direção às grandes escadarias sem olhar para trás. — E eu faço questão de colocar Otávio, Débora e Carla na primeira fileira. Quero ver a cara deles quando perceberem que, tentando me passar para trás, acabaram de te entregar a coroa. faça bom uso dela.