Mundo ficciónIniciar sesiónO som da bengala de Pablo ecoou de forma ritmada pelo corredor à medida que ele se afastava do quarto de Liz. A expressão suave que exibira segundos atrás diante dela desapareceu por completo. Suas feições endureceram, transformando-se na máscara implacável do chefe da máfia.
Ele cruzou o corredor e empurrou as portas duplas de mogno de seu escritório particular. Lá dentro, três de seus homens mais leais e fortemente armados o aguardavam em silêncio. Matteo, seu braço direito, adiantou-se assim que Pablo sentou-se atrás da imensa mesa de centro. — Os perímetros da igreja e do salão de festas já estão cercados, chefe — informou Matteo, a voz baixa. — Mas os homens da facção rival já começaram a se movimentar. Eles acham que você está vulnerável por causa do casamento. Pablo apoiou as mãos sobre o cabo de prata da bengala, os olhos cinzentos faiscando com uma frieza assassina. — Eles acham que vão me pegar de surpresa, assim como fizeram com o meu pai e com... ela — a voz de Pablo falhou por um milésimo de segundo ao lembrar de sua antiga noiva assassinada, mas o luto logo deu lugar a uma sede de sangue. — Eles não sabem que Liz é a noiva. O acordo inicial com o pai dela previa o meu casamento com Carla, a filha favorita. Como mantivemos a identidade de Liz em segredo absoluto, os traidores têm certeza de que a mulher ao meu lado amanhã será Carla. Matteo assentiu, captando o plano imediatamente. — Então o alvo principal do ataque deles será a noiva errada. Eles vão focar no carro e na ala onde acreditam que Carla estará. — Exatamente — Pablo sorriu de forma sombria. — Eles vão morder a isca. Protejam Liz com as suas vidas no trajeto. Quero os atiradores de elite posicionados nos telhados ao redor da igreja. Quando os assassinos atacarem a comitiva achando que estão destruindo a minha futura esposa, nós os cercamos e eliminamos cada um deles. Amanhã, o sangue dos que destruíram a minha vida vai lavar os degraus daquela igreja. Enquanto o plano de sangue era traçado no escritório de Pablo, os bastidores da mansão da família de Liz exalavam uma atmosfera completamente diferente. No camarim luxuoso da noiva, o pai de Liz, Alberto, e sua madrasta, Clarice, brindavam com taças de champanhe caro. — Eu ainda não consigo acreditar que aquela infeliz serviu para alguma coisa — Clarice riu, ajeitando o colar de diamantes no pescoço diante do espelho. — Quando Pablo exigiu uma aliança de casamento com uma das nossas filhas, meu coração quase parou. Entregar a nossa linda Carla para aquele monstro aleijado e cruel seria um desperdício. Otávio deu um gole em sua bebida, ostentando um sorriso orgulhoso e ganancioso. — Foi um golpe de mestre, querida. Pablo nunca tinha visto Carla pessoalmente, os negócios eram todos tratados com o falecido pai dele. Ir com os capangas buscar Liz naquele buraco no interior e jogá-la nos braços da máfia foi a nossa salvação. Salvamos a nossa filha linda e ainda garantimos a proteção da nossa família. — Aquela ratinha de sótão deve estar tremendo de medo agora — debochou Clarice, dando um tapinha no ombro do marido. — Amanhã, quando entrarmos naquela igreja, todos os olhares estarão voltados para o nosso sucesso. Liz vai cumprir o papel dela de sacrifício, e nós ficaremos com os lucros. O dia seguinte amanheceu com um céu limpo, mas a atmosfera na catedral da cidade era pesada, quase sufocante. Os convidados da alta sociedade e os membros mais perigosos do submundo preenchiam os bancos de madeira maciça. Otávio e Clarice estavam na primeira fileira, com sorrisos arrogantes, aguardando o início do espetáculo que acreditavam ter arquitetado.Pablo já estava no altar. Vestindo um terno preto absoluto, ele permanecia imóvel, com a mão firme sobre a bengala, o olhar gélido fixo nas grandes portas fechadas ao fundo da igreja. Ele sabia que o caos estava armado do lado de fora, mas o seu foco, por um breve instante, mudou quando a marcha nupcial começou a ecoar pelo imenso templo.As portas duplas se abriram de par em par. Um murmúrio coletivo cortou o silêncio da catedral. O ar pareceu sumir do ambiente.Não havia ali uma garota assustada, maltrapilha ou humilhada. Liz surgiu sob a luz dos vitrais como uma visão avassaladora. O vestido de cetim branco-ofuscante, estruturado e moderno, abraçava suas curvas com uma imponência imperial. A fenda profunda na saia revelava suas pernas a cada passo firme e altivo que ela dava sobre o tapete vermelho. Seu longo cabelo castanho caía em ondas perfeitas e brilhantes até a cintura, emoldurando um rosto de beleza pura e hipnotizante, realçado por uma maquiagem sutil que destacava seus olhos determinados. Na primeira fileira, o queixo de Clarice caiu. A taça invisível de seu orgulho despedaçou-se no chão. Alberto empalideceu, os olhos arregalados ao não reconhecer a filha que havia abandonado no lixo. Carla, assistindo a transmissão ao vivo, sentiu o estômago revirar de pura inveja, mas o plano dela era chegar minutos mais tarde para chamar toda a atenção para ela, já que ela usava um lindo vestido branco. Todos os homens do recinto prenderam a respiração; as mulheres entreolharam-se, chocadas.Liz caminhava de cabeça erguida. Ela não olhou para o pai, nem para a madrasta. Seus olhos focaram direto no altar, encontrando o olhar cinzento de Pablo. Pela primeira vez, o chefe da máfia permitiu que um brilho de genuína admiração e algo muito mais perigoso cruzasse suas feições. Ela não era uma moeda de troca. Diante de toda a cidade, Liz acabava de entrar não como uma vítima, mas como a verdadeira dona daquele império.






