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Abismo das Verdades Proibidas
Abismo das Verdades Proibidas
Por: Lara Moretti
Capítulo 1- O Nome Que Ninguém Ousa Dizer

O vento cortava a pele de Aurora Delmont como uma lâmina invisível quando ela parou diante dos portões de ferro do casarão. O rangido metálico ecoou pelo terreno vazio ao ser empurrado, um som que parecia anunciar seu retorno como um aviso — ou uma sentença. A mansão se erguia imponente à sua frente, envolta por árvores antigas e sombras que se alongavam pelo jardim negligenciado. Aquela casa já fora viva. Agora, parecia um mausoléu construído para guardar fantasmas.

Aurora respirou fundo, sentindo o cheiro de terra úmida misturado à memória. Era ali que aprendera a andar de bicicleta, que correra pelos corredores rindo alto demais, que ouvira os pais discutirem negócios e depois se reconciliarem na cozinha, tarde da noite. Tudo aquilo havia sido arrancado dela de forma brutal quando tinha apenas catorze anos.

O acidente — como todos insistiam em chamar — nunca fizera sentido. Um carro fora da pista, numa estrada que seu pai conhecia como a palma da mão. Um erro mecânico conveniente demais. Um relatório apressado. Um enterro silencioso. E uma menina entregue aos cuidados de parentes que jamais a quiseram de verdade.

Élio e Marise Delmont a receberam com sorrisos rígidos e abraços calculados. Eles já tinham uma família formada, dois filhos que cresceram acreditando que Aurora era uma intrusa — um lembrete incômodo de que aquela herança nunca lhes pertenceria completamente.

Dante tinha dezesseis anos quando tudo aconteceu. Alto demais para a idade, bonito demais para não saber disso, e dono de um olhar azul que sempre carregou uma arrogância quase natural. Com o passar dos anos, aquela arrogância se transformou em algo mais perigoso: uma sensação de posse silenciosa, mal disfarçada por ironias e provocações.

Lena, por sua vez, parecia o oposto. Doce, educada, sempre pronta a oferecer ajuda. Mas Aurora aprendera cedo que havia farpas escondidas em cada gesto. Pequenas crueldades sutis, palavras ditas com delicadeza suficiente para não serem notadas por mais ninguém.

Foi ali que Aurora entendeu, ainda adolescente, que laços de sangue não garantem afeto. E que famílias respeitáveis podiam esconder sombras muito mais densas do que qualquer segredo empresarial.

Agora, aos vinte e cinco anos, ela estava de volta. Não por saudade. Não por escolha. Mas porque o testamento finalmente seria aberto — e aquilo que fora adiado por mais de uma década não poderia mais ser ignorado.

Ela atravessou o hall principal sentindo o peso do passado em cada passo. Os móveis estavam no mesmo lugar, mas sem vida. Quadros cobertos por lençóis brancos, como corpos esquecidos. O silêncio era quase agressivo.

Do outro lado da cidade, em um arranha-céu de vidro e aço, o mundo parecia se mover em outro ritmo.

Ethan Vesper observava os números dançando na tela com atenção absoluta. Para ele, gráficos eram mais honestos do que pessoas. Não mentiam. Não imploravam. Não traíam — ao menos não sem deixar rastros claros.

Seu nome não era dito em voz alta com frequência. Era sussurrado nos corredores empresariais, pronunciado com reverência, temor ou inveja. Nunca com intimidade.

CEO da Vesper Corp., Ethan construíra sua reputação na frieza das decisões impopulares, na precisão cirúrgica com que desmontava concorrentes e absorvia empresas inteiras. Ele não pedia permissão. Não dava segundas chances. Não perdia.

Era o único herdeiro de um império erguido sobre estratégias implacáveis e acordos silenciosos. Um homem acostumado a controlar todos os cenários — exceto aquele que se aproximava.

Aquele que envolvia Aurora Delmont.

Ele fechou o arquivo e apoiou os dedos na mesa de vidro. O passado, que passara anos enterrado, estava prestes a emergir. E com ele, uma promessa que nunca fora esquecida.

O salão principal da mansão estava cheio quando Aurora entrou. Parentes distantes, advogados, rostos que ela mal reconhecia. O murmúrio cessou por um segundo, como se sua presença tivesse alterado o ar do lugar.

Élio e Marise se aproximaram, exibindo expressões ensaiadas de acolhimento. Havia tensão em seus olhos. Medo. Não dela, mas do que ela representava.

Dante estava encostado no piano antigo, os braços cruzados. O tempo fora generoso com ele. Alto, elegante, perigoso. Seu olhar percorreu Aurora sem pudor, demorando mais do que deveria. Havia algo ali que a fez se mover instintivamente para longe.

Lena surgiu logo depois, sorrindo.

— Aurora… você voltou — disse, com a voz suave demais.

Aurora assentiu, mantendo a postura firme. Não estava ali para trocas sociais.

Antes que o advogado pudesse iniciar a leitura, a porta principal se abriu.

Homens de terno escuro entraram primeiro, abrindo caminho com naturalidade. O silêncio se aprofundou.

Então ele apareceu.

Ethan Vesper.

Sua presença não era barulhenta. Era esmagadora. Como uma tempestade que não precisa de trovões para anunciar destruição. O ar ficou mais denso. Pessoas endireitaram a postura sem perceber.

Aurora sentiu um arrepio subir pela coluna. Ela nunca o tinha visto antes, mas algo dentro dela reconheceu o perigo — e a inevitabilidade.

Quando os olhos dele encontraram os dela, tudo ao redor pareceu desaparecer.

Dante franziu o cenho, o ciúme evidente. Lena arregalou os olhos, fascinada. Marise levou a mão ao peito.

Ethan caminhou até o advogado, que segurava uma pasta preta com mãos levemente trêmulas.

— Sr. Vesper — disse o homem — conforme solicitado no testamento do Sr. Delmont, o senhor terá participação direta nesta leitura.

Aurora sentiu o estômago revirar.

— Como assim? — questionou, sem conseguir esconder a surpresa.

Ethan virou-se para ela. Sua voz, quando falou, era grave, firme, carregada de autoridade contida.

— Seu pai confiava em mim — disse, encarando-a como se pudesse enxergar além da superfície. — E deixou algo sob minha responsabilidade. Algo que envolve você.

O silêncio que se seguiu foi pesado, quase sufocante.

— O que exatamente? — perguntou Aurora, o coração disparado.

Um meio sorriso surgiu nos lábios de Ethan. Um sorriso que não oferecia conforto algum.

— Você.

O mundo dela pareceu parar.

Dante avançou um passo, furioso. Lena levou a mão à boca. Marise soltou um som baixo, entre choque e alívio.

— Como assim… eu? — Aurora sussurrou.

Ethan se aproximou, diminuindo a distância entre eles. Inclinou-se levemente, o suficiente para que apenas ela ouvisse.

— Seu pai me confiou a responsabilidade de protegê-la — murmurou. — E para isso, Aurora, você terá que viver sob o meu teto. Sob o meu controle. Sob o meu nome, se for necessário.

Ela sentiu o chão desaparecer sob seus pés.

— E se eu recusar? — perguntou, reunindo o pouco de coragem que restava.

Ethan a encarou com uma intensidade que lhe roubou o fôlego.

— Então você perderá tudo o que herdou — respondeu, sem hesitar. — Inclusive a verdade sobre o que realmente aconteceu com seus pais.

O coração de Aurora se partiu em um ritmo acelerado.

Porque, no fundo, ela sempre soubera.

A morte deles não fora um acidente.

E Ethan Vesper… era a única chave para destrancar aquela verdade.

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