Capítulo 3

CAPÍTULO 3—

Maria Carolina Corrêa

O impacto do inesperado

Eu ainda estava tentando decorar o caminho entre os corredores quando decidi buscar café.

Talvez tenha sido ansiedade. Talvez o silêncio excessivo daquele lugar. Ou talvez meu corpo estivesse tentando se agarrar a algo familiar em meio a tantas vozes apressadas e telas brilhantes. Café sempre foi um pequeno conforto. Um hábito simples, quase doméstico.

O copo estava cheio demais. O líquido, quente demais. E eu, distraída demais.

Tudo aconteceu rápido e lento ao mesmo tempo.

Meu pé prendeu levemente no tapete próximo à área de circulação principal. O mundo inclinou. O café escapou das minhas mãos como se tivesse vontade própria.

E caiu.

Diretamente sobre um terno preto impecável.

O silêncio foi imediato.

Levantei os olhos em pânico, sentindo o coração bater descompassado, e dei de cara com um homem alto, de postura firme, que parecia ter surgido do nada. O tecido escuro estava manchado, o vapor subindo lentamente, denunciando o estrago irreversível.

— Meu Deus… — minha voz saiu baixa, quase um sussurro desesperado. — Eu sinto muito. Foi um acidente, eu não vi—

Ele olhou primeiro para o terno. Depois para mim.

O olhar era frio. Avaliador. Cortante.

— Você tem ideia de quanto custa isso? — perguntou, com uma calma que assustava mais do que gritos.

Engoli em seco.

— Eu posso… posso providenciar a limpeza. Ou arcar com o prejuízo, se for necessário.

Ele soltou uma risada curta, sem humor algum.

— Arcar? — repetiu, observando meu hábito com evidente desprezo. — Com o quê exatamente? Orações?

Algumas pessoas ao redor fingiram não ouvir. Outras ouviram demais.

Senti o rosto queimar. Não apenas de vergonha, mas de algo antigo, profundo, que eu reconhecia bem demais.

— Eu estava distraída — respondi, tentando manter a voz firme. — Não foi intencional.

— Distração não é exatamente uma qualidade valorizada aqui — ele rebateu. — Principalmente em alguém vestida como se tivesse saído de outro século.

Respirei fundo.

— Eu vim de um convento — disse, erguendo o olhar. — Sou noviça. E estagiária.

Aquilo pareceu pegá-lo de surpresa. Não o suficiente para gerar empatia, mas o bastante para alterar levemente sua expressão.

— Isso explica muita coisa — murmurou.

— O quê? — perguntei, antes de pensar melhor.

Ele me encarou por um segundo a mais do que o necessário.

— A falta de noção de espaço. E de contexto.

Aquilo doeu mais do que eu esperava.

— Posso buscar algo para ajudar — falei, sentindo as mãos tremerem. — Uma toalha, pelo menos.

— Não — respondeu de imediato. — Já causou dano suficiente.

Virou-se para uma mulher ao lado dele, claramente uma assistente.

— Cancele meus próximos compromissos — ordenou. — Preciso resolver isso.

“Isso.”

Eu.

Ele voltou o olhar para mim.

— Seu nome.

— Maria Carolina Corrêa.

Ele franziu levemente o cenho, como se aquele nome acionasse algo que ele não esperava.

— Claro — murmurou. — Sempre é.

— Trabalho no setor de administração — acrescentei, tentando recuperar algum controle. — Estou aqui por meio de um programa da universidade.

— Harvard — ele interrompeu. — Eu sei. Recebi o relatório.

Meu estômago afundou.

— Recebeu?

— Recebi. E fui contra.

Aquelas palavras foram como um golpe silencioso.

— Contra… minha presença aqui?

— Contra misturar fé com negócios — disse. — Idealismo não gera resultados.

Fez uma pausa curta, avaliando-me novamente.

— E definitivamente não gera ternos limpos.

Fechei os olhos por um instante.

— Se o senhor preferir, posso solicitar minha transferência — falei. — Não quero causar transtornos.

Ele pareceu considerar. Por um momento, achei que aquele seria meu primeiro e último dia ali.

Mas então ele sorriu.

Não um sorriso gentil. Um sorriso calculado.

— Não — disse. — Agora eu quero ver exatamente que tipo de milagre a universidade e a sua ordem acreditam que você pode fazer aqui.

Meu coração disparou.

— Pode ir — completou. — Antes que derrube algo mais valioso.

Afastei-me com passos contidos, sentindo cada olhar cravado em minhas costas. Só quando virei o corredor me permiti respirar de verdade.

Encostei na parede fria, fechando os olhos.

Nunca alguém havia me feito sentir tão pequena desde os tempos do orfanato.

E, ainda assim — o que mais me assustou — nunca alguém havia provocado em mim uma reação tão intensa.

Não era apenas constrangimento.

Era um desconforto estranho. Uma inquietação que não combinava com minha vida ordenada, silenciosa, decidida.

Enquanto ajeitava o véu com mãos trêmulas, uma certeza se formou dentro de mim:

Meu estágio naquela empresa não seria apenas um requisito acadêmico.

Seria uma provação.

E aquele homem de terno manchado — cujo nome eu ainda não fazia questão de guardar — não era apenas um executivo arrogante.

Ele era o primeiro abalo real na fortaleza que eu passei a vida inteira construindo.

E eu ainda não fazia ideia do quanto aquele encontro mudaria tudo.

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