Capítulo 2

Maria Carolina Corrêa

O mundo fora do convento

Anos depois, quando recebi a carta de aceitação de Harvard, precisei reler três vezes para ter certeza de que não estava interpretando errado. Administração. Bolsa integral. Cambridge. As palavras pareciam grandes demais para caberem na vida que eu levava até então.

Mostrei a carta à madre superiora com as mãos levemente trêmulas. Ela leu com atenção, em silêncio, e depois sorriu daquele jeito sereno que sempre me desarmava.

— É um sinal — disse. — Um chamado.

As outras irmãs concordaram. Disseram que eu deveria ir. Que conhecimento também era forma de serviço. Que Deus não chama apenas para o recolhimento, mas também para o mundo. Eu ouvi tudo com respeito e aceitei sem questionar. Nunca fui boa em questionar quando acreditava que algo fazia parte de um plano maior.

Em nenhum momento pensei em recusar.

Hoje moro em um pequeno apartamento em Cambridge, dividido com duas colegas de quarto tão silenciosas quanto eu. O espaço é simples, organizado, quase monástico. Um crucifixo discreto na parede. Livros empilhados na mesa. Cadernos alinhados com cuidado excessivo. Minha vida cabe em poucas caixas. Sempre coube. Aprendi cedo a não criar raízes profundas demais.

Sou noviça. Estou prestes a fazer meus votos definitivos.

Em teoria, tudo em mim deveria estar decidido.

Em teoria.

O estágio obrigatório surgiu como parte de um programa de integração entre a universidade, a ordem religiosa e empresas privadas. “Vivência prática”, disseram. “Contato com o mundo real.” Eu ouvi aquelas palavras como quem escuta algo distante, quase abstrato. O mundo real sempre existiu para mim, apenas de outra forma.

A empresa para a qual fui designada era grande. Grande demais. Ficava em Boston, a cerca de quinze quilômetros da universidade. No primeiro dia, fui dirigindo até lá. O caminho parecia uma travessia simbólica: cada quilômetro me afastava um pouco mais do silêncio conhecido.

O prédio se impunha de longe. Vidros espelhados, linhas retas, entradas amplas demais para qualquer sensação de acolhimento. Pessoas apressadas entravam e saíam com passos seguros, como se soubessem exatamente para onde iam e por quê.

Eu não tinha essa certeza.

No meu crachá, meu nome completo parecia deslocado naquele ambiente:

Maria Carolina Corrêa — Estagiária.

Respirei fundo antes de atravessar a porta giratória. Por um instante, pensei em Maria Helena. Deus fala baixo, ela dizia. Escute. Era o que eu fazia naquele momento. Escutava o próprio coração, que batia um pouco mais rápido do que o normal.

Fui encaminhada para o setor de tecnologia. Não sabia exatamente o que esperar, apenas que o CEO da empresa era alguém conhecido, respeitado… e temido.

Márcio Diniz Mormente.

O nome circulava pelos corredores como um aviso silencioso. As pessoas falavam dele com admiração contida, quase reverente. Não era apenas respeito profissional. Havia cautela. Como se ele fosse alguém que não tolerava falhas — nem humanas, nem emocionais.

Ainda não o tinha visto, mas senti a presença dele antes mesmo de saber por quê. Um tipo estranho de expectativa no ar. Um desconforto que não combinava com a minha rotina previsível, com meus horários organizados, com a segurança que eu sempre encontrei em regras claras.

Enquanto organizava meus papéis, percebi algo que não sentia havia anos: a sensação incômoda de estar fora do lugar.

Não era rejeição explícita. Ninguém me tratou mal. Mas os olhares demoravam um pouco mais sobre o meu hábito, sobre minha postura contida, sobre meu silêncio. Eu destoava. E não era possível fingir que não.

Senti, então, a dúvida se formar lentamente.

Não uma dúvida rebelde. Nem impulsiva. Era mais sutil. Mais perigosa. Uma pergunta que não vinha com tom de desafio, mas de curiosidade involuntária: e se o mundo não for apenas aquilo do qual eu aprendi a me proteger?

Olhei para minhas mãos. Firmes. Tranquilas. As mesmas mãos que seguraram rosários, livros, panelas no refeitório do orfanato. As mesmas mãos que sempre souberam o que fazer quando tudo era previsível.

Pela primeira vez, não tive tanta certeza.

Talvez aquele estágio fosse apenas mais uma etapa antes dos votos definitivos. Talvez fosse apenas aprendizado. Talvez Deus estivesse apenas me mostrando um pedaço do mundo que eu acreditava já conhecer.

Ou talvez — e esse pensamento me assustou mais do que deveria — algumas portas só se abram para nos confrontar com quem realmente somos quando acreditamos já ter todas as respostas.

Fechei os olhos por um segundo e fiz uma oração silenciosa.

Que eu saiba ouvir.

Que eu saiba resistir.

Que eu saiba permanecer.

Eu ainda não sabia, mas naquele prédio de vidro, pressa e decisões frias, algo estava prestes a sair do controle.

E, em silêncio, a minha fé começava a ser observada — não por Deus,

mas pelo mundo.

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