Capítulo 4 — Lorenzo

Perfeição sempre esconde alguma coisa. No meu mundo, quando algo parece limpo demais, significa apenas que eu ainda não encontrei onde o sangue foi limpo.

— Relatório completo, Lorenzo — Marco disse, jogando a pasta de couro sobre a minha mesa com um baque surdo.

Abri o arquivo sem pressa. As palavras saltavam das páginas como um roteiro mal escrito de uma santa: Silenciosa. Obediente. Educada. Sem escândalos. Sem amantes. Pura. Fechei a pasta com um estalo seco que ecoou pelo escritório.

— Lixo — sentenciei.

Marco arqueou uma sobrancelha, encostando-se na parede. — Os registros são autênticos, Lorenzo. A ficha dela é impecável.

— Então está incompleta. — Levantei-me e caminhei até a janela, observando o movimento lá embaixo. — Ninguém na Bratva é uma folha em branco, Marco. Viktor Morozov não cria filhas; ele cria armas ou moedas de troca. E ele não me entregaria uma moeda sem um defeito oculto.

Senti aquela pontada familiar na base da nuca. O instinto que me salvou de emboscadas, de venenos e de homens que juravam lealdade enquanto escondiam uma faca nas costas. Se ele está me entregando algo perfeito, é porque o erro está muito bem enterrado.

Voltei para a mesa e peguei a foto de Anya Morozova. Aqueles olhos... eles continuavam me desafiando de uma forma que o relatório não mencionava. Não eram submissos. Eram conscientes. E a consciência é o primeiro passo para uma rebelião.

— Quero mais — ordenei, sem tirar os olhos da imagem. Marco já estava com a caneta em punho. — Quero saber quem ela é quando as luzes se apagam e ninguém está olhando. Quero os registros médicos reais, não essa versão higienizada. E quero saber exatamente como a mãe dela morreu.

Marco me encarou por um longo segundo. — Você está sendo paranoico.

— Estou sendo inteligente. Se eu vou colocar essa mulher na minha cama e dar a ela o meu sobrenome, preciso saber se ela vai me beijar ao acordar ou tentar me degolar enquanto durmo.

Marco assentiu, entendendo o peso daquela dúvida. — Vou descobrir.

Quando ele saiu, o silêncio que retornou não trouxe paz, apenas cálculo. Olhei novamente para a fotografia. Eu odeio a perfeição. A perfeição não reage, não luta e, acima de tudo, não quebra. E eu não perco meu tempo tentando controlar o que não tem resistência.

Um leve sorriso, frio e predatório, puxou o canto da minha boca.

— A perfeição me entedia... — sussurrei para o escritório vazio. — São os defeitos que me dão o controle.

Apoiei a foto sobre a mesa, o rosto de Anya parecendo me analisar de volta. Se ela for exatamente essa boneca silenciosa que o pai vende, não vai durar uma semana em Roma. Mas se ela estiver mentindo... se houver um incêndio sob esse gelo...

Então ela vai se tornar a minha coisa favorita no mundo. Porque eu não quero uma noiva que baixa a cabeça. Eu quero descobrir exatamente até onde ela aguenta antes de começar a implorar.

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