Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu nunca fui um homem que acredita em milagres, muito menos em perfeição. No meu mundo, a perfeição é geralmente uma máscara bem pintada para esconder uma lâmina afiada ou uma traição iminente.
— Relatório completo, Lorenzo — Marco, meu braço direito e futuro subchefe, jogou uma pasta de couro sobre a minha mesa de mogno. Ele era a única pessoa em quem eu confiava o suficiente para não dormir com um olho aberto.
Abri o arquivo, esperando encontrar os esqueletos que a família Morozov certamente tentava esconder. Meus olhos correram pelas linhas digitadas com precisão cirúrgica: Silenciosa. Obediente. Educada nos padrões mais rígidos da velha guarda russa. Sem escândalos. Sem amantes. Pura.
Fechei a pasta com um estalo seco. O som ecoou pelo escritório como um tiro.
— É lixo, Marco — joguei a pasta de volta para ele.
— Os registros são autênticos — ele rebateu, arqueando uma sobrancelha. — Ela viveu praticamente reclusa desde a morte da mãe. Professores particulares, poucas aparições públicas. A garota é uma folha em branco.
— Ninguém é uma folha em branco na Bratva — rosnei. Levantei-me e caminhei até a janela que dava para o pátio interno da villa. — Viktor Morozov é um carniceiro. Ele não cria ovelhas; ele cria gado para o abate ou cães de caça. Se ele está me entregando uma "boneca perfeita", o defeito está escondido onde não podemos ver.
Eu sentia uma coceira na base da nuca. Era o instinto que me salvou de três emboscadas e dois envenenamentos antes dos meus vinte e cinco anos.
Olhei novamente para a foto dela, ainda sobre a mesa. Aqueles olhos azuis, gélidos como o inverno siberiano, não combinavam com o adjetivo "obediente". Havia uma estática neles. Um sinal de rádio captado entre duas frequências de guerra.
— Quero mais — ordenei, sem desviar os olhos da imagem de Anya. — Não quero saber o que ela faz quando o pai está olhando. Quero saber o que ela faz quando acredita estar sozinha. Quero os registros médicos reais, não os que o Pakan carimbou. Quero saber quem era a mãe dela e como, exatamente, aquela mulher morreu.
— Você está sendo paranoico — Marco murmurou, embora já anotasse as instruções.
— Estou sendo o futuro Dom. Se vou colocar uma russa na minha cama e dar a ela o sobrenome Moretti, preciso saber se ela vai me beijar ou me degolar enquanto durmo.
Marco assentiu e saiu, deixando-me a sós com o silêncio pesado da tarde italiana. Voltei para a poltrona e tomei a foto da minha futura noiva entre os dedos. A pureza era uma moeda valiosa para o Conselho, mas para mim, era apenas uma dúvida.
Se Anya Morozova fosse tão perfeita quanto o papel dizia, seria o meu maior tédio. Mas se ela estivesse mentindo... ah, se estivesse mentindo, o nosso casamento seria muito mais interessante do que meu pai jamais imaginou.
Eu não queria uma noiva silenciosa. Eu queria descobrir o que aconteceria quando eu finalmente a fizesse gritar.







