Capítulo 5 — Lorenzo

O salão de recepção da propriedade russa era um monumento à ostentação fria. Lustres de cristal, que pareciam lanças de gelo, pendiam do teto. O ar-condicionado estava em uma temperatura que me lembrava que, apesar do luxo, estávamos em território inimigo.

Eu estava de pé ao lado do meu pai, vestindo meu melhor terno sob medida. Atrás de mim, Marco mantinha a vigilância silenciosa de sempre, enquanto Dante, meu irmão mais novo e executor da família, observava o ambiente com o tédio perigoso de quem espera apenas o sinal para começar um massacre.

Eu esperava que a porta se abrisse e uma garota trêmula entrasse. Imaginei uma noiva com os olhos vermelhos de tanto chorar por ter sido vendida a um estranho. Eu esperava a obediência opaca que o relatório prometera.

Mas quando Anya Morozova cruzou o limiar, o que vi não foi uma vítima. Foi um incêndio em meio à neve.

O impacto da sua beleza foi um golpe físico. O cabelo dela não era apenas ruivo; era um cobre intenso, profundo, que parecia reter a pouca luz do ambiente. 

Aquela cascata de fogo estava presa em um penteado austero, como se ela tentasse domesticar uma força da natureza. O vestido verde-esmeralda era de uma elegância severa, cobrindo cada centímetro de sua pele, das golas altas aos punhos longos, escondendo tudo, exceto o rosto de porcelana.

E os olhos... O relatório não mencionara que eles tinham o azul cortante das geleiras siberianas. Eram duas pedras preciosas me encarando com uma clareza que beirava a insolência.

— Dom Moretti. Senhor Lorenzo — a voz dela era baixa e firme. O sotaque arranhava meus sentidos de uma forma que eu não esperava.

— Senhorita Anya — respondi, inclinando a cabeça apenas o suficiente para ser educado.

No entanto, no momento em que peguei sua mão para o cumprimento formal, o choque da beleza deu lugar ao meu instinto. Ela estava gelada. 

Suas pupilas estavam levemente dilatadas e havia uma rigidez em sua postura que não era apenas etiqueta russa. Ela não respirava; ela dava curtos haustos de ar, como se cada expansão do peito fosse uma batalha.

Meus olhos mapearam a forma como ela evitava girar o tronco e como os nós de seus dedos estavam brancos ao apertar a própria saia. Havia algo terrivelmente errado sob aquela seda esmeralda. Ela não estava apenas nervosa; ela estava em agonia.

Nossos pais trocaram formalidades de praxe, selando o destino de impérios com apertos de mão. Mas eu não conseguia parar de olhar para ela. Anya permanecia estática, uma estátua de marfim e fogo em meio a lobos famintos, lutando para se manter de pé.

Notei quando Viktor Morozov deu um passo em direção a ela, e Anya encolheu-se de forma quase imperceptível, um lampejo de puro terror cruzando o azul de seus olhos. Meu sangue ferveu.

— Pakan, gostaria de falar com a minha noiva. A sós — anunciei, cortando a fala de Viktor no meio.

O Pakan estreitou os olhos, a autoridade sendo desafiada em sua própria casa.

— Isso não é apropriado, Senhor Moretti. Há protocolos...

— Eu não vim aqui para seguir protocolos, Morozov — rebati, minha voz saindo como um rosnado baixo que fez Dante se empertigar ao meu lado. — Os contratos estão assinados, quero conhecer minha noiva um pouco melhor, só isso. 

Vi quando Viktor deu um olhar mortal a ela, uma promessa silenciosa de violência que Anya recebeu com uma rigidez de mármore. 

Eles estavam se comunicando sem palavras, uma linguagem de medo que eu conhecia bem demais.

— Dez minutos — Viktor cedeu, a voz rouca de fúria contida. 

Caminhei até ela, parando a uma distância perigosamente curta. Invadi seu espaço pessoal, deixando que o aroma do meu perfume se misturasse ao dela, apenas para ver se ela recuava ou baixava a guarda.

Ela não se moveu um milímetro. De perto, o azul de seus olhos era ainda mais profundo, quase elétrico, brilhando com uma resistência que me fascinava.

Coloquei a mão firmemente em suas costas, no centro daquela seda esmeralda, pretendendo guiá-la. O efeito foi instantâneo. Vi quando ela se contorceu nitidamente, um arquejo silencioso escapando de seus lábios enquanto ela cambaleava para longe do meu toque.

A fúria em meu peito, que até então era apenas uma fagulha, tornou-se um incêndio.

Eu estava prestes a retrucar, a exigir que ela me mostrasse o que havia sob aquele vestido, quando Anya deu um passo à frente, diminuindo a distância que eu mesmo criara. Ela se inclinou, o hálito quente batendo no meu pescoço.

— Senhor Moretti — ela sussurrou, e o uso do meu sobrenome soou como uma barreira que ela lutava para manter erguida. — Já que o senhor fez tanta questão de ficarmos a sós... me leve até o jardim. Ele não vai se opor; há soldados por todos os lados lá fora. Mas estaremos longe dos olhos do meu pai e dessas câmeras.

Arqueei uma sobrancelha. O interesse substituía a irritação. Ela estava jogando, mesmo ferida.

— A senhorita mal consegue respirar, Anya — murmurei, usando o nome dela para testar sua reação. — E quer passear pelo jardim no frio da Rússia?

— Eu quero falar a verdade ao senhor antes que seja tarde demais — ela rebateu, os olhos azuis cravados nos meus. — O senhor disse que queria saber o que estava para sua casa. Pois bem. Venha ver.

Aquela ruiva era uma incógnita. Ela tinha o porte de uma rainha e os hematomas de uma escrava. Sem dizer mais nada, ofereci meu braço, sentindo a leveza com que ela tocou meu tecido, como se tivesse medo de que qualquer pressão extra fizesse seus ossos cederem.

Caminhamos para fora sob o olhar vigilante de Viktor e dos fuzis apontados. Meu instinto de predador gritava que eu estava entrando em uma armadilha, mas não era de uma emboscada que eu tinha medo. 

Eu tinha medo de que, ao descobrir o que o Pakan fizera com ela, eu fosse capaz de iniciar uma guerra mundial antes mesmo do amanhecer.

Anya Morozova tinha um segredo. E ela estava prestes a jogá-lo na minha cara antes mesmo de dizer "sim".

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