Mundo de ficçãoIniciar sessãoTrês dias.
Passei as últimas setenta e duas horas na escuridão do quarto, ouvindo apenas o som da minha própria respiração curta e o latejar agonizante na lateral do meu corpo. A costela quebrada era um lembrete constante da minha impotência. Eu sobrevivi a pão seco e água, mas o que mais me matava era a incerteza sobre Kira.
Três dias atrás, ouvi dois soldados conversando sobre o local para onde o Pakan levou minha irmãzinha. Tentei fugir, é óbvio. Não consegui. E foi o meu próprio pai quem me castigou por isso. Estou com o corpo todo marcado, exceto o rosto, é claro. Eu não poderia estar "danificada" no dia do noivado.
Na manhã da festa, a porta se abriu. Era Elena, uma das criadas mais antigas, que entrou com o rosto baixo e um pacote escondido sob o avental.
— Rápido, menina — ela sussurrou, ajudando-me a levantar. Cada centímetro do meu corpo protestou.
Elena preparou o banho e, com as mãos trêmulas, aplicou uma pomada de cheiro forte sobre os hematomas que manchavam minha pele de roxo e amarelo.
— Isso vai ajudar com o inchaço e com a dor — disse ela, enquanto me apertava em um espartilho reforçado para imobilizar a costela. — O Senhor Moretti já está no salão. Dizem que ele é um homem sem alma, Anya. Dizem que ele faz coisas terríveis com quem o desagrada. Estou preocupada com você, menina.
Engoli em seco, sentindo o terror gelar meu sangue. Eu conhecia a crueldade do meu pai, mas Lorenzo Moretti era uma lenda de sadismo que cruzava fronteiras. Eu estava saindo de uma jaula para entrar em um abatedouro. Se ele descobrisse que eu estava ferida, se ele visse as marcas... ele me rejeitaria, e meu pai terminaria o serviço.
— Eu preciso ser perfeita, Elena — murmurei, olhando para o reflexo da mulher pálida e de olhos azuis assustados no espelho. — Minha vida depende da minha perfeição hoje.
Quando saí do quarto, esperava encontrar Nikolai a qualquer momento. Queria ver a silhueta do meu irmão surgindo nas sombras para me dizer que tinha um plano, que nosso pai estava apenas blefando. Mas Nikolai não estava em lugar nenhum. Eu estava sozinha no tabuleiro.
Parei diante do escritório do meu pai uma última vez antes de descer.
— Deixe a Kira fora disso — supliquei. Minha voz perdia a compostura que eu tanto treinei para manter. — Ela é apenas uma criança. Mande-me para a Itália, eu farei o que você quer. Mas traga minha irmã de volta para esta casa.
Meu pai nem sequer levantou os olhos dos papéis que assinava. Apenas virou uma página. O som do papel raspando soou como uma chicotada no vazio.
— Kira está onde precisa estar para garantir que você não cometa erros — ele disse. A voz era monótona, desprovida de qualquer traço de paternidade. — O casamento é em duas semanas. Será aqui, como manda a tradição, e na mesma noite você irá embora com ele.
— Você vai me entregar a um monstro e espera que eu sorria?
Desta vez, ele me olhou. O olhar dele era o mesmo que vi na noite em que minha mãe morreu. Era o olhar de quem vê pessoas como obstáculos a serem removidos ou ferramentas a serem usadas. A lembrança dela me atingiu com a força de um soco. Eu ainda sentia o cheiro do perfume de violetas que ela usava, um contraste doce com o odor metálico de sangue que inundou o quarto naquela noite. Ela tentou ser livre. O resultado foi um túmulo sem nome.
O medo, aquele frio visceral que me acompanhava desde os dez anos, subiu pela minha espinha. Se eu lutasse contra a corrente agora, Kira teria o mesmo destino. Engoli o gosto amargo da derrota e endireitei os ombros. A fragilidade não me salvaria; a obediência cega também não. Nikolai me ensinou a lutar, a ser forte, mas ele não me ensinou a lidar com o terror de perder quem eu amo.
Se o poder estava nas mãos de um italiano que eu nunca vi, eu teria que tomá-lo para mim.
— Entendido — respondi. Minha voz agora era tão gélida quanto a dele.
Saí do escritório e encostei a testa na madeira fria do corredor por um segundo. Visualize o rosto de Lorenzo Moretti na fotografia. Ele achava que estava comprando uma noiva obediente. Meu pai achava que estava vendendo uma ferramenta. Ambos estavam errados.
Se eu não pudesse fugir… eu aprenderia a vencer o monstro no jogo dele.







