Mundo de ficçãoIniciar sessãoTrês dias. Setenta e duas horas tentando respirar sem sentir como se algo estivesse estilhaçando dentro do meu peito. A cada inspiração, a dor vem — lenta, profunda, punitiva. Minha costela não me deixa esquecer o erro que cometi, nem por um segundo.
Sobrevivi a esse isolamento com pão seco e água, mas não foi a fome que me corroeu; foi a incerteza sobre o destino da Kira.
Sempre que fecho os olhos, a memória me golpeia: o som seco da porta batendo, o impacto contra o chão frio, a voz do meu pai ordenando que eu parasse de me mexer. E depois... a escuridão da dor. Abro os olhos rápido, forçando o ar para dentro dos pulmões. Eu não posso quebrar. Não hoje.
Tentar fugir, nesta casa, não é um ato de coragem; é um convite à punição. Meu corpo é um mapa de manchas roxas e amarelas que comprovam isso. Exceto o meu rosto, é claro. Eu preciso parecer perfeita para o mercado, mesmo que por dentro eu seja apenas destroços.
Na manhã do noivado, a porta se arrasta. Elena entra com o olhar baixo, como se até o ato de me encarar fosse um crime.
— Rápido, menina — ela sussurra, me ajudando a levantar.
Minhas pernas falham, um tremor perigoso percorrendo meus músculos, mas eu me recuso a cair. Nunca caio na frente deles. O banho arde, a pomada queima e o espartilho aperta minha costela até o mundo girar por um instante.
— Vai ajudar com a dor — Elena mente, apertando os laços. Nada ajuda.
— O senhor Moretti já chegou? — pergunto, a voz saindo como um fio de seda.
— Sim. Dizem que ele não tem alma, Anya. Dizem que ele destrói qualquer um que o desagrade.
Um monstro por outro. Eu conheço o mal que habita o olhar do meu pai, mas Lorenzo Moretti é o desconhecido. E o desconhecido é sempre pior. Encaro meu reflexo no espelho: pálida, frágil, mas de pé. Minha vida depende da minha perfeição hoje. E a vida da Kira também.
Saio do quarto e caminho pelo corredor como se estivesse indo para o meu próprio funeral. Entro no escritório sem bater.
— Deixe a Kira fora disso — digo, antes mesmo que meu pai possa abrir a boca. Minha voz falha, mas sustento o tom. — Mande-me para a Itália. Eu farei o que você quiser, serei quem você mandar. Mas traga minha irmã de volta.
Ele sequer levanta os olhos dos papéis. Assina um documento, vira a página. Eu sou apenas um ruído de fundo na sua sinfonia de poder.
— Kira está onde precisa estar para garantir que você não cometa novos erros — ele diz, finalmente me encarando.
Conheço aquele olhar. É o mesmo da noite em que minha mãe morreu. Frio. Decidido. Sem um pingo de arrependimento. O cheiro de violetas e sangue invade minha memória — ela tentou fugir e acabou em um túmulo sem nome. Aqui, quem tenta escapar simplesmente desaparece.
O medo sobe pela minha espinha, mas desta vez ele não me paralisa. Ele me ensina. Se eu lutar agora, Kira morre. Se eu fraquejar agora, eu morro depois.
— Entendido — respondo, minha voz saindo tão gélida quanto a dele.
Dou as costas e saio. Hesitar é o primeiro passo para a morte, e eu já aprendi a caminhar sobre brasas sem gritar. Encosto a testa na madeira da porta do meu quarto e fecho os olhos, visualizando o rosto de Lorenzo Moretti.
Ele acha que está comprando uma noiva obediente. Meu pai acredita que está vendendo uma ferramenta dócil. Ambos estão redondamente enganados. Se eu não posso fugir deste destino, eu vou aprender a dominá-lo.
Porque sobreviver nunca foi uma escolha para mim. Foi um treinamento.







