Mundo ficciónIniciar sesiónCONTRATO PARTICULAR DE CASAMENTO POR CONVENIÊNCIA E REPRESENTAÇÃO SOCIAL
Pelo presente instrumento particular, de um lado: PARTE A: Matteo De Luca, empresário, CEO da DeLuca Corps, doravante denominado PARTE A; e, de outro lado, PARTE B: Elena Molleti, secretária executiva, doravante denominada PARTE B; têm entre si justo e acordado o que segue: CLÁUSULA 1ª – DO OBJETO O presente contrato tem por objeto a celebração de casamento civil entre as partes, exclusivamente para fins de representação social, institucional e estratégica. CLÁUSULA 2ª – DA NATUREZA DO CASAMENTO O casamento será celebrado de forma legal e válida, porém sem obrigação de vínculo afetivo, amoroso ou emocional entre as partes. CLÁUSULA 3ª – DA VONTADE DAS PARTES Ambas as partes declaram estar firmando o presente contrato de livre e espontânea vontade, sem coação, ameaça ou vício de consentimento. CLÁUSULA 4ª – DAS OBRIGAÇÕES DA PARTE B A PARTE B compromete-se a exercer o papel social de esposa da PARTE A em eventos públicos, institucionais, corporativos e sociais quando solicitado. CLÁUSULA 5ª – DA IMAGEM E CONDUTA A PARTE B deverá manter postura compatível com a posição de esposa da PARTE A, preservando a imagem, reputação e discrição exigidas. CLÁUSULA 6ª – DA VIDA ÍNTIMA A PARTE B não é obrigada a satisfazer sexualmente a PARTE A, salvo se assim o desejar, por vontade própria, livre e expressa. CLÁUSULA 7ª – DA AUSÊNCIA DE EXIGÊNCIA SEXUAL Fica expressamente vedada qualquer exigência, imposição ou coerção de natureza sexual por parte da PARTE A. CLÁUSULA 8ª – DO SIGILO A PARTE B compromete-se a não questionar, interferir ou se intrometer em assuntos que a PARTE A declarar como sigilosos. CLÁUSULA 9ª – DA NÃO INTERFERÊNCIA A PARTE B não deverá buscar informações, participar ou opinar sobre negócios, reuniões ou decisões estratégicas da PARTE A. CLÁUSULA 10ª – DA PROTEÇÃO A PARTE A compromete-se a garantir proteção integral à PARTE B, física, financeira e institucional. CLÁUSULA 11ª – DO PADRÃO DE VIDA A PARTE B terá assegurado padrão de vida elevado, compatível com a posição social da PARTE A. CLÁUSULA 12ª – DO RESPEITO A PARTE B será tratada com respeito absoluto, dignidade e consideração em todas as circunstâncias. CLÁUSULA 13ª – DA EXCLUSIVIDADE PÚBLICA Ambas as partes comprometem-se a manter exclusividade conjugal em aparência pública, preservando a imagem do casamento. CLÁUSULA 14ª – DA VIDA PRIVADA A vida privada de ambas as partes não deverá interferir na execução das obrigações previstas neste contrato. CLÁUSULA 15ª – DA RESIDÊNCIA A PARTE B residirá em local determinado pela PARTE A, com total conforto e segurança. CLÁUSULA 16ª – DA SEGURANÇA PESSOAL A PARTE B deverá acatar protocolos de segurança estabelecidos pela PARTE A, sem questionamentos. CLÁUSULA 17ª – DO PRAZO O presente contrato vigorará por prazo indeterminado, podendo ser rescindido conforme cláusula específica. CLÁUSULA 18ª – DA RESCISÃO A rescisão poderá ocorrer por decisão da PARTE A, ou por comum acordo entre as partes, mediante aviso prévio. CLÁUSULA 19ª – DA CONFIDENCIALIDADE APÓS RESCISÃO Mesmo após eventual rescisão, a PARTE B deverá manter absoluto sigilo sobre tudo o que tiver conhecimento durante a vigência do contrato. CLÁUSULA 20ª – DAS PENALIDADES O descumprimento de qualquer cláusula implicará sanções previamente estabelecidas pela PARTE A. CLÁUSULA 21ª – DO FORO Fica eleito o foro competente indicado pela PARTE A para dirimir quaisquer controvérsias oriundas deste contrato. E, por estarem assim ajustadas, firmam o presente contrato em duas vias de igual teor. ... Passo a mão pelos cabelos assim que termino de ler o contrato. Meus dedos se perdem entre os fios presos, como se procurassem algum tipo de resposta ali. Fecho os olhos por um instante, sentindo o peso das palavras ainda ecoando na minha mente. Em seguida, deixo o papel escorregar da minha mão e o jogo ao meu lado na cama, sem o menor cuidado. Então deixo meu corpo cair contra o travesseiro. O colchão macio não consegue aliviar a tensão que percorre cada músculo meu. Encaro o teto, sentindo o coração bater acelerado demais, como se estivesse tentando fugir daquela realidade absurda antes que eu mesma consiga fazer isso. Que tipo de pessoa faz isso? Casamento por contrato. Casamento estratégico. Casamento sem amor. Isso não deveria existir. Não agora. Não nesse século. Essas coisas só aconteciam antigamente, quando reis e imperadores decidiam o futuro das filhas como quem move peças em um tabuleiro. Quando mulheres eram promessas, alianças, moedas de troca. E agora… eu. Uma secretária comum, sentada na própria cama, encarando um contrato que redefine completamente a minha vida. Viro o rosto para o lado e olho novamente para o envelope e para as folhas dobradas, como se elas pudessem se mover sozinhas, se explicar, dizer que tudo não passou de um mal-entendido. Mas o papel continua ali. Inerte. Real. Levo a mão ao peito, sentindo a respiração curta. Por que eu? Essa pergunta martela minha cabeça sem parar. Matteo poderia escolher qualquer mulher. Alguém do círculo social dele. Alguém acostumada com luxo, aparências, jogos de poder. Não alguém como eu, que passa os dias organizando agendas, lembrando compromissos e evitando fazer perguntas demais. Talvez seja exatamente por isso. A ideia me arrepia. Sou discreta demais. Silenciosa demais. Acostumada a obedecer, a cumprir regras, a aceitar limites impostos por outros. Será que foi isso que ele viu? Uma escolha segura. Controlável. Viro de lado, puxando o travesseiro para junto do peito, como se pudesse me proteger de mim mesma. Minha mente revisita cada cláusula lida minutos antes. Proteção. Conforto. Status. Segurança absoluta. Tudo soa tentador demais. E perigoso demais. Porque ninguém oferece tanto sem esperar algo em troca. Mesmo que o contrato diga que não exige amor, não exige o corpo, não exige sentimentos… existe um preço. Sempre existe. Fecho os olhos com força. Matteo De Luca não é um homem comum. Nunca foi. Há algo nele que sempre me deixou alerta. As reuniões noturnas. Os olhares. Os homens que entram e saem daquela sala como sombras bem vestidas. O respeito quase reverente que todos demonstram. E agora ele quer que eu seja sua esposa. Um nó se forma no meu estômago. Se eu aceitar, não será apenas um anel no dedo. Será entrar de vez em um mundo que sempre me manteve do lado de fora. Um mundo onde perguntas não são bem-vindas — e respostas podem ser perigosas. Abro os olhos lentamente, encarando o teto mais uma vez. Talvez eu devesse dizer não. Talvez eu devesse rasgar aquele contrato e fingir que nada disso aconteceu. Mas, no fundo, algo dentro de mim já sabe: depois que aquela proposta foi feita, minha vida nunca mais voltará a ser simples. E o que mais me assusta… é não ter certeza se quero fugir — ou entender até onde isso pode me levar. O toque do celular corta o silêncio do quarto. Levo um pequeno susto e viro o rosto rapidamente, procurando o aparelho sobre a cama. A tela acende, iluminando o ambiente com uma luz suave. O nome que aparece faz meu peito apertar de um jeito diferente. Pai. Atendo antes mesmo que o toque complete o segundo sinal. — Oi, pai — digo, tentando colocar leveza na voz. — Minha menina… — a voz dele vem do outro lado, quente, familiar, carregada daquele tom calmo que sempre consegue me acalmar. — Liguei só pra saber se você chegou bem em casa. Sorrio sem perceber. Meu pai é engenheiro civil, vive pulando de obra em obra, de cidade em cidade, sempre com uma mala pronta e um capacete no banco de trás do carro. Mas, não importa o fuso horário ou o cansaço, ele nunca deixa de ligar. Nunca deixou. — Cheguei sim — respondo, ajeitando o travesseiro atrás da cabeça e me acomodando melhor na cama. — E você? Onde está agora? — Interior de Minas — ele responde com uma leve risada. — Poeira, sol e concreto. O de sempre. Consigo imaginá-lo perfeitamente: camisa social arregaçada até os cotovelos, botas sujas de terra, prancheta debaixo do braço e aquele olhar orgulhoso de quem ama o que faz. A imagem aquece meu coração. — Aposto que você ainda não jantou — digo. — Fui descoberto — ele admite, rindo de novo. — Mas já estava indo comer quando lembrei que precisava ouvir sua voz. Fecho os olhos por um instante. — Você não cansa de cuidar de mim, né? — murmuro. — Nunca — ele responde sem hesitar. — Você é a melhor coisa que eu já fiz na vida, Elena. Meu peito aperta e engulo em seco, sentindo a emoção subir sem aviso. Levo o celular mais perto do rosto, como se isso diminuísse a distância entre nós. — Está tudo bem com você? — ele pergunta em seguida, mais sério, com aquele sexto sentido que só pais têm. — Você parece… pensativa. — Está sim — respondo rápido demais. — Só um dia cansativo no trabalho. — Hm… — ele murmura, claramente não totalmente convencido. — Lembre-se do que eu sempre digo: não deixe ninguém te fazer sentir pequena. Você é forte, inteligente e merece o mundo. Um sorriso triste se forma nos meus lábios. — Eu sei, pai. Você me ensinou isso. — E ensino quantas vezes for preciso — ele diz. — Promete que vai se cuidar? Comer direito, descansar… e não trabalhar demais por ninguém. Olho para o envelope jogado ao meu lado, mas me obrigo a desviar o olhar. — Prometo. — Bom. — A voz dele suaviza. — Agora vá descansar. Amanhã eu te ligo de novo. Mesmo que seja rapidinho. — Eu vou adorar — respondo, sentindo o nó no peito afrouxar um pouco. — Boa noite, pai. Se cuida. — Boa noite, minha filha. Eu te amo. — Também te amo. A ligação se encerra, mas o conforto permanece. Apoio o celular sobre o peito por alguns segundos, respirando fundo. Mesmo em meio ao caos, à dúvida e ao medo, aquela ligação me lembra de algo essencial: Não estou sozinha. E, por mais confuso que tudo pareça agora, ainda existe amor verdadeiro no mundo.






