Capítulo dois

O silêncio da sala é ensurdecedor.

Meu coração b**e tão forte dentro do peito que chego a temer que Matteo consiga escutá-lo. Cada pulsação ecoa nos meus ouvidos, acelerada, descompassada. Minhas mãos estão frias, apesar da sala estar na temperatura exata. Respiro fundo, tentando manter o controle, mas o ar parece pesado demais para entrar nos pulmões.

O que eu fiz de errado?

Reviro mentalmente cada tarefa do dia, cada compromisso anotado, cada detalhe da agenda. Não encontro falhas. Ainda assim, a inquietação não me abandona. Há algo diferente no olhar dele, algo que me deixa em alerta.

— Sente-se, por favor — Matteo diz, rompendo o silêncio.

Obedeço imediatamente.

A cadeira que ele indica fica próxima à dele, ao lado da mesa. Caminho até lá com passos contidos e me sento com cuidado, mantendo a postura reta. Apoio as mãos sobre o colo, entrelaçando os dedos para esconder o leve tremor. Me sinto pequena naquele espaço grande demais, cercada por aquela mesa que já ouviu conversas às quais nunca tive permissão para participar.

Matteo ainda permanece em pé por alguns segundos, observando-me com atenção. Em seguida, se senta também, com movimentos calmos, calculados, como se nada naquele momento fosse urgente.

— Quero começar dizendo que você executa seu trabalho com excelência — ele diz.

Ergo o olhar lentamente, surpresa.

— O modo como organiza minha agenda, antecipa necessidades e mantém a discrição necessária… — ele continua. — Em um ano e meio, você nunca falhou comigo.

Engulo em seco.

— Obrigada, senhor De Luca — respondo, tentando manter a voz firme.

Apesar do elogio, meu estômago se revira. Um pensamento incômodo se forma com clareza perturbadora: ele está se despedindo. Ninguém elogia tanto alguém sem um motivo. Aperto os dedos com mais força, me preparando para o pior.

— Diga-me — ele prossegue, inclinando-se levemente para frente —, como os convidados a trataram ao saírem hoje?

A pergunta me pega desprevenida, mas respondo com honestidade.

— Os convidados… foram mais cordiais do que o habitual.

O canto da boca de Matteo se move em algo que não chega a ser um sorriso.

— Cordiais, não — ele corrige. — Respeitosos.

Um arrepio percorre minha espinha, embora eu não entenda exatamente o motivo daquela distinção.

Ele me observa em silêncio por alguns segundos. Não desvia o olhar, como se estivesse avaliando cada reação minha, cada respiração, cada pequeno gesto. Seus olhos verdes são intensos, quase clínicos.

— Elena — ele diz, pela primeira vez usando meu nome, sem qualquer formalidade.

O som do meu próprio nome em sua voz me deixa ainda mais alerta.

— Você confia em mim?

A pergunta me desarma completamente.

— Sim… claro, senhor De Luca — respondo, após um breve segundo de hesitação. — Confio.

Ele não diz nada de imediato.

Apenas estende a mão até uma pasta de couro sobre a mesa, abre-a com calma e retira um envelope pardo. Em seguida, desliza-o lentamente na minha direção, parando exatamente à minha frente.

Meu olhar se fixa no envelope.

E, naquele instante, tenho a estranha certeza de que, seja o que for que esteja ali dentro, nada voltará a ser como antes.

O envelope permanece à minha frente por alguns segundos longos demais.

Meu olhar fica preso naquele pedaço de papel pardo, simples demais para carregar o peso que sinto no peito. Engulo em seco antes de estender a mão. Meus dedos tremem levemente quando tocam a superfície áspera do envelope. Matteo não diz nada. Apenas observa.

Abro com cuidado.

Dentro, encontro folhas dobradas com precisão. Retiro o conteúdo lentamente, como se cada movimento precisasse de coragem. Meus olhos percorrem as primeiras linhas… e, à medida que leio, sinto o mundo ao meu redor perder o equilíbrio.

É um contrato.

Não um contrato de trabalho.

Não um acordo comercial comum.

Um contrato de casamento.

Leio novamente, certa de que interpretei errado. As palavras estão ali, frias, objetivas, formais. Cláusulas, deveres, termos legais. Um casamento por conveniência. Sem envolvimento emocional obrigatório. Sem expectativas sentimentais. Um acordo claro, direto, quase cruel em sua racionalidade.

Levanto o olhar devagar, completamente desnorteada.

— O que… é isso? — minha voz sai baixa, quase um sussurro.

Matteo se inclina levemente para frente, apoiando os antebraços sobre a mesa.

— É exatamente o que parece — ele diz, com calma. — Uma proposta.

Meu coração dispara novamente, desta vez de forma dolorosa.

— Um casamento — ele continua — totalmente estratégico. Legal. Planejado.

As palavras demoram a fazer sentido.

— Eu preciso de uma esposa, Elena — ele diz, sem rodeios. — Alguém ao meu lado. Alguém que cumpra esse papel de forma impecável.

Minha mente tenta acompanhar, mas falha.

— Não haverá amor exigido — ele acrescenta. — Nem sentimentos forçados. Você será livre dentro dos limites desse acordo.

Fecho os dedos em torno das folhas, sentindo o papel amassar levemente.

— Em troca — ele prossegue —, você será tratada como uma rainha. Terá tudo o que desejar. Segurança. Estabilidade. Proteção absoluta. — Seus olhos se fixam nos meus. — Ninguém ousará tocá-la ou desrespeitá-la.

Antes que eu consiga formular qualquer pergunta, Matteo leva a mão ao bolso interno do paletó.

O movimento é lento. Deliberado.

Ele retira uma pequena caixa preta e a coloca sobre a mesa, ao lado do contrato. O som suave do objeto tocando a madeira ecoa alto demais no silêncio da sala.

Meu coração parece parar.

Matteo abre a caixinha.

Lá dentro, a aliança brilha sob a luz suave do ambiente. Simples e luxuosa ao mesmo tempo. Um símbolo pesado demais para caber na minha compreensão naquele momento.

— Aceite se casar comigo — ele diz, finalmente.

Minha respiração falha.

— Será um casamento totalmente legal — continua, com a voz firme. — Você será minha esposa troféu. Estará ao meu lado em eventos, reuniões, viagens. Será respeitada, protegida… intocável.

Minha mente gira.

Casamento.

Contrato.

Aliança.

— Por quê… eu? — consigo perguntar, ainda sem conseguir tirar os olhos da caixinha.

Matteo me observa em silêncio por alguns segundos, como se escolhesse cada palavra com cuidado.

— Porque você é discreta. Leal. Inteligente. — Ele faz uma breve pausa. — E porque confio em você.

O peso daquilo tudo me atinge de uma vez.

Sinto-me paralisada, sentada diante de um homem que acabou de virar minha vida do avesso com uma única proposta. Minhas mãos seguram o contrato, mas não sinto mais os dedos. Minha cabeça tenta encontrar lógica onde só há choque.

Casar com meu chefe.

Com Matteo De Luca.

Com um homem que guarda segredos atrás de portas fechadas.

Permaneço em silêncio, tentando entender o que exatamente ele espera de mim… e o que esse casamento realmente significa.

Porque, naquele momento, tenho a estranha sensação de que aquela proposta não é apenas sobre um nome em um papel.

É sobre entrar em um mundo do qual talvez não exista saída.

— Eu... não entendo! — Minha voz sai mais como um sussurro.

Ele se levanta da cadeira.

— Lhe dou até amanhã a noite para decidir. Pense bem. Eu a levo até sua casa! — Ele diz e entende a mão para mim.

Meu coração está a mil e mesmo com medo até segurar sua mão, a seguro.

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