Capítulo quatro

No dia seguinte, estou sentada em meu devido lugar, atrás da mesa impecavelmente organizada, exatamente como faço todas as manhãs. A postura está correta, o cabelo preso com precisão, o tablet ligado à minha frente com a agenda do dia aberta na tela.

Por fora, tudo parece normal.

Por dentro, minha mente está a quilômetros de distância.

As palavras do contrato insistem em voltar, uma após a outra, como um eco que não consigo silenciar. Casamento por conveniência. Proteção. Sigilo. Esposa troféu. Sinto o peso dessas expressões apertar meu peito enquanto meus olhos fingem acompanhar os compromissos do dia.

Por que eu deveria aceitar isso?

A pergunta se repete sem descanso.

Não preciso de luxo. Não preciso de status. Nunca precisei. Cresci aprendendo a valorizar independência, esforço, escolhas próprias. Meu pai sempre me ensinou a construir o que é meu, não a aceitar caminhos impostos por outros.

Então por que aquela proposta ainda ocupa meus pensamentos?

Talvez seja o medo.

Ou talvez seja a segurança disfarçada de armadilha. A promessa de uma vida protegida, longe de preocupações financeiras, longe de riscos que nem sei exatamente quais são… ainda assim, riscos existem. Eu sinto isso. Matteo De Luca não faz nada sem um motivo. Nada.

Aceitar significaria abrir mão de perguntas.

Aceitar significaria entregar partes de mim a um homem que guarda segredos demais.

Aceitar significaria viver uma vida que não me pertence totalmente.

E, ainda assim…

Meu olhar se perde na parede de vidro à minha frente, refletindo vagamente minha imagem. Vejo uma mulher organizada, controlada, silenciosa. Alguém que sempre soube se adaptar, que nunca causou problemas, que aprendeu cedo a não ocupar espaço demais.

Talvez seja exatamente por isso que ele me escolheu.

O pensamento me provoca um misto de incômodo e compreensão. Sou previsível. Confiável. Discreta. Tudo o que um homem como Matteo De Luca precisa ao seu lado.

Aperto os lábios.

Aceitar seria me tornar parte de um jogo que não conheço. Um tabuleiro onde as regras não são explicadas, apenas obedecidas. Onde a aparência importa mais do que a verdade.

Mas recusar… recusar pode ter consequências que ainda não consigo enxergar.

Endireito-me na cadeira quando escuto passos se aproximando pelo corredor. Meu coração acelera levemente, mesmo sem eu querer. A porta do escritório ainda está fechada, mas sua presença sempre parece anteceder sua chegada.

Respiro fundo, tentando me recompor.

Hoje, Matteo está usando um terno azul-marinho. E devo confessar — contra a minha própria vontade — que essa cor combina perigosamente bem com ele. Geralmente, ele se limita aos ternos pretos ou cinza-chumbo, quase como se cores fossem um detalhe desnecessário em sua vida controlada. Vê-lo assim, em algo diferente, causa um estranhamento imediato… e um impacto que prefiro não analisar a fundo.

Ele surge no meu campo de visão com a mesma imponência de sempre, mas hoje tudo parece mais intenso. Talvez seja só a minha mente, ainda presa àquela sala, àquela proposta, àquela caixa de veludo.

— Senhorita Molleti! — ele me cumprimenta, a voz firme, grave, perfeitamente segura.

Fazia muito tempo que sua presença não me intimidava. Eu já estava acostumada ao homem, ao cargo, à aura de poder. Mas hoje… hoje é diferente. Depois da proposta, depois do contrato, sinto-me levemente acuada, como se o chão sob meus pés estivesse menos sólido do que ontem.

— Bom dia, senhor De Luca — respondo, mantendo a formalidade como um escudo.

Ele não perde tempo.

— Gostaria que desmarcasse todos os meus compromissos de hoje à tarde.

A frase me pega de surpresa de forma tão abrupta que preciso de um segundo a mais para processar. Matteo De Luca nunca desmarca compromissos. Nunca. Nem quando está doente, nem quando viaja a trabalho, nem quando o mundo parece prestes a desabar.

Mordo levemente o lábio inferior antes de responder, um gesto involuntário. Meus olhos encontram os dele. Verdes. Atentos. Dominantes. Aqueles olhos que parecem enxergar além das palavras, além da postura profissional, além do que eu tento esconder.

— Desculpe-me a intromissão, senhor… — começo, escolhendo cada palavra com cuidado — mas o senhor nunca desmarcou nada.

Por um instante, penso que ele vai me repreender. Mas Matteo apenas faz um leve aceno com a cabeça, como se já esperasse minha reação.

— Entendo sua confusão — diz, com uma calma que só aumenta minha inquietação. — Mas hoje tenho uma missão bem mais complexa do que os assuntos da minha empresa.

Ele se aproxima. O espaço entre nós diminui de forma calculada, precisa. Meu corpo reage antes mesmo da minha mente, ficando mais rígido. Matteo então estende o braço, como faz todos os dias, aquele gesto automático que sempre fiz questão de tratar apenas como profissional.

Mas hoje… tudo tem outro peso.

— Preciso convencê-la a ser minha esposa — ele diz, direto, sem rodeios, como se estivesse falando de um contrato qualquer. — Então, se me der a honra de passar esta tarde comigo, ficarei satisfeito em sanar todas as suas dúvidas…

Sua voz baixa um tom, tornando-se quase perigosa.

— E em lhe mostrar como posso transformar sua vida em algo extremamente confortável.

Meu coração acelera.

Aceitar seu braço agora não parece mais um simples gesto de secretária e chefe. Parece o primeiro passo em direção a algo que não consigo controlar — e isso, mais do que qualquer promessa de conforto, é o que realmente me assusta.

Assim que me levanto, minhas pernas parecem mais conscientes do que nunca de cada passo que dou. Matteo caminha ao meu lado, sua presença firme, silenciosa, como se já soubesse exatamente onde isso tudo vai dar — e eu não.

Seguimos até o elevador privativo. O corredor parece mais longo hoje, mais silencioso. O som dos meus próprios saltos ecoa baixo no piso impecável, enquanto minha mente corre em direções que tento inutilmente conter.

Quando entramos, ele estende o braço à minha frente e aperta o botão do térreo. O painel se ilumina com um bip discreto. Em seguida, sem dizer nada, ele ergue a mão novamente e pressiona outro botão — o último andar. Terraço.

Meu olhar sobe automaticamente até o visor luminoso. O coração dá um salto.

Abro a boca para questionar, mas ele é mais rápido.

— Você tem medo de altura, Elena? — pergunta, sem me encarar diretamente, como se fosse apenas uma curiosidade casual.

Engulo em seco.

— Um pouco — admito, a voz mais baixa do que eu gostaria.

Ele finalmente olha para mim e faz um leve aceno com a cabeça, como se anotasse mentalmente a informação.

— Ótimo — diz apenas isso.

Ótimo?

Nada sobre aquilo me parece ótimo.

O elevador sobe em silêncio. Cada andar que passa aumenta a pressão no meu peito. Quando as portas finalmente se abrem, o vento invade o ambiente antes mesmo que eu dê o primeiro passo.

O terraço se revela amplo, aberto, com a cidade se estendendo abaixo de nós como um mar de luzes e concreto. E então eu vejo.

Um helicóptero.

As hélices ainda paradas, mas prontas. A aeronave repousa ali como se fosse a coisa mais normal do mundo alguém sair do trabalho e simplesmente… voar.

— Matteo… — começo, mas minha voz falha.

Ele pousa a mão em minhas costas, firme, guiando-me para frente.

— Confie em mim — diz em tom baixo.

Cada passo até o helicóptero faz meu estômago se revirar. O vento brinca com alguns fios soltos do meu cabelo, e o barulho distante da cidade parece pequeno demais para o que estou prestes a fazer.

Ele abre a porta para mim e estende a mão.

— Primeiro você.

Hesito por um segundo, mas aceito. Matteo me ajuda a subir com cuidado, uma mão segura demais para ser ignorada. Assim que me sento, ele se inclina para dentro da cabine.

Então tudo fica… próximo demais.

Matteo ajusta os cintos de segurança com precisão, seus dedos firmes, experientes. Seu corpo está tão perto do meu que sinto o calor dele, sinto sua respiração. Quando ele se inclina um pouco mais, o rosto fica perigosamente próximo ao meu.

E eu sinto.

Hálito de menta. Fresco. Intencional.

Meu coração dispara de forma quase dolorosa.

— Pronto — ele murmura, os olhos verdes presos aos meus. — Agora você está bem segura… e presa.

O tom é baixo, provocante, carregado de algo que me faz prender a respiração. Não sei se ele percebe o efeito que causa — ou se percebe exatamente.

Ele se afasta com a mesma calma calculada, fecha a porta e contorna o helicóptero. Segundos depois, Matteo assume o lugar do piloto.

Ele mesmo vai pilotar.

As hélices começam a girar, primeiro devagar, depois mais rápido, até o som preencher tudo. Minhas mãos apertam o cinto, e quando o helicóptero finalmente se ergue do terraço, sinto meu estômago ficar para trás.

A cidade se afasta, vira um tapete de luzes sob nossos pés.

Olho para Matteo. Ele pilota com naturalidade, concentração absoluta, como se estivesse exatamente onde deveria estar. Seguro. No controle.

E eu… estou suspensa entre o medo, a curiosidade e a estranha sensação de que, gostando ou não, minha vida acabou de sair do chão.

Minutos depois, o helicóptero começa a descer novamente.

À frente, no topo de um prédio elegante, iluminado com luzes suaves, reconheço o destino: o terraço de um restaurante sofisticado, suspenso sobre a cidade.

Um lugar feito para encontros que mudam tudo.

Meu coração b**e forte.

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