Mundo de ficçãoIniciar sessãoAssim que o helicóptero toca o terraço do restaurante, o barulho das hélices começa a diminuir, mas a tensão… essa cresce.
Quando descemos, percebo imediatamente a mudança no ambiente. Não é sutil. Os funcionários, que até segundos antes caminhavam com naturalidade, endireitam a postura no mesmo instante em que Matteo pisa no piso do terraço. Conversas cessam. Olhares se desviam ou se fixam nele por tempo demais. Há um tipo específico de pressa no ar — não a comum, mas aquela que nasce do respeito misturado com medo. — Senhor De Luca… — diz um homem de terno impecável, surgindo quase que do nada. — Seja muito bem-vindo. A voz dele carrega uma rigidez ensaiada. Matteo apenas inclina a cabeça, um gesto mínimo, porém suficiente para fazer o homem se apressar ainda mais. — A mesa está pronta — continua ele. — Como o senhor solicitou. Como ele solicitou. Não reservou. Não pediu. Solicitou. Caminhamos pelo salão principal e sinto todos os olhares sobre nós, ainda que tentem disfarçar. Alguns clientes cochicham. Outros apenas observam em silêncio, como se estivessem diante de algo que não deveriam encarar por muito tempo. Matteo mantém a mão levemente apoiada em minhas costas, um toque discreto, mas firme. Não é possessivo. É… declaratório. Como se dissesse ao mundo inteiro que eu pertenço ao espaço ao lado dele. E, de alguma forma, isso me deixa ainda mais consciente de cada passo. Percebo então algo que nunca havia visto tão claramente antes: Matteo não precisa levantar a voz, não precisa exigir. Sua influência se espalha de forma silenciosa, quase invisível, mas absolutamente incontestável. As pessoas se moldam ao redor dele. Paramos diante de uma mesa posicionada estrategicamente ao lado de uma enorme janela de vidro. A vista da cidade se abre diante de nós, viva, iluminada, pulsando abaixo. Um cenário digno de decisões importantes — ou de armadilhas bem disfarçadas. Ele puxa a cadeira para mim. — Por favor. Sento-me, sentindo o estofado macio sob os dedos. Matteo ocupa o lugar à minha frente logo em seguida, com a mesma elegância controlada de sempre. A cidade lá fora parece distante demais agora. Ali, naquela mesa, naquele restaurante que praticamente parou para recebê-lo, a ficha começa a cair com mais força. Matteo De Luca não é apenas um CEO poderoso. Ele é o tipo de homem que dobra ambientes inteiros à sua vontade. E eu estou sentada exatamente diante dele. Matteo nem sequer abre o cardápio. Ele o toca apenas o suficiente para empurrá-lo de lado e faz um gesto quase imperceptível para o garçom que se aproxima imediatamente, como se estivesse aguardando aquele sinal desde o momento em que nos sentamos. — A entrada será o carpaccio de wagyu — diz Matteo, com a voz firme, segura. — Para o prato principal, o risoto de trufas negras. E, para finalizar, a sobremesa da casa. Duas taças do vinho que o chef recomenda. O garçom anota tudo com rapidez, assentindo repetidas vezes. — Perfeitamente, senhor De Luca. Assim que ele se afasta, pego o cardápio novamente, quase por reflexo. Meus olhos deslizam pela lista de pratos até encontrarem a coluna dos preços. Meu coração dá um pequeno salto. Isso tudo custa mais do que meu aluguel. Antes que eu consiga absorver o número, a mão de Matteo se estende sobre a mesa e fecha o cardápio com calma. — Não faça isso — diz, sem dureza, mas sem espaço para discussão. Ergo o olhar para ele, sentindo minhas bochechas esquentarem. — Eu só estava… olhando — murmuro. — Não precisa — responde. Seus olhos verdes permanecem fixos nos meus. — Se existe algo com o qual você não precisará se preocupar caso se case comigo… é com o valor das coisas. A forma como ele diz caso se case comigo faz meu estômago se contrair. Solto um suspiro lento, desviando o olhar para a cidade iluminada além da janela. As luzes parecem distantes, irreais, como se eu estivesse observando outra vida — uma da qual nunca fiz parte. — Matteo… — começo, e percebo que uso seu primeiro nome sem pensar. — Por que você precisa se casar? Ele não responde de imediato. Reclina-se levemente na cadeira, entrelaçando os dedos sobre a mesa. Seu silêncio pesa mais do que qualquer resposta apressada. — Esse é um assunto sigiloso — diz, por fim. Sinto uma pontada de frustração atravessar meu peito. — Você está me pedindo para assinar um contrato, mudar completamente minha vida… — minha voz sai mais firme do que eu esperava. — E eu não posso nem saber o motivo? Ele me observa atentamente. Há algo nos olhos dele que se intensifica, como se estivesse calculando até onde pode ir sem ultrapassar uma linha invisível. — Eu preciso saber de alguma coisa — continuo. — Não posso simplesmente me comprometer assim… de graça. Matteo fecha os olhos por um breve segundo e solta um suspiro contido. É um gesto pequeno, mas revelador. Pela primeira vez, parece… pressionado. — Foi uma exigência — diz finalmente. Ergo as sobrancelhas, surpresa. — Exigência de quem? Ele me encara novamente, o olhar sério, mais escuro. — Normalmente, eu não recebo ordens — afirma, com a voz baixa e carregada de autoridade. — Mas essas… são diferentes. Um arrepio percorre minha espinha. A maneira como ele diz aquilo deixa claro que não se trata de algo simples. Não é um capricho, nem uma jogada social. Existe poder envolvido. Poder do tipo que não aparece em relatórios anuais ou manchetes de negócios. — E você aceitou — digo, quase para mim mesma. — Eu não costumo ter escolhas quando está em jogo algo maior do que eu — responde. O garçom retorna com a entrada, quebrando o momento. Os pratos são colocados com precisão, mas minha atenção permanece inteiramente em Matteo. Ele pega os talheres com tranquilidade, como se aquela conversa não tivesse o peso de uma vida inteira sendo decidida. Eu, por outro lado, mal consigo respirar direito. Estou sentada diante de um homem envolto em mistério, poder e segredos que não posso tocar. E ele quer que eu seja sua esposa.






