10. Cachorros
Quinze dias depois.
Cheguei à mansão no horário de sempre.
Lucas estava sentado à mesa, comendo em silêncio, enquanto Márcia comentava algo sobre a peça de teatro que aconteceria no dia seguinte.
— Bom dia, treinando as falas? — perguntei ao entrar.
Lucas deu um leve aceno com a cabeça.
— Sim — Márcia respondeu por ele. — Ele já está nervoso.
— Vai dar tudo certo. A gente vai bater palma até cansar — falei sorrindo.
— A gente? — Márcia arqueou a sobrancelha.
— Sim. Eu vou também.
— Vai nada — Lucas disse, sem nem me olhar.
— Claro que vou. Eu e a Ângela. Minha amiga. Ela está louca pra conhecer vocês.
Ele não respondeu. Continuou comendo, terminou o suco, escovou os dentes e logo saiu para a escola.
Nesses quinze dias, aprendi muito naquela casa.
Sobre as crianças. Sobre a rotina. Sobre os silêncios.
Márcia me contou, aos poucos, sobre a morte da mãe deles. Foi trágico. Rápido. Devastador. Rafael nunca mais foi o mesmo. Criou um muro em volta de si, feito da própria dor, e se escondeu