Mundo de ficçãoIniciar sessão
Sofia
Quando Núbia me falou que a casa era grande e de gente muito rica eu imaginei que seria uma casa bem diferente das que eu estava acostumada a ver no subúrbio. Mas aquela casa era muito maior do que eu imaginei. Na verdade, todo o caminho até chegar na casa dos Said era completamente diferente do que eu poderia imaginar. Eu nunca tinha estado naquele lado da cidade e muito menos entrado nesses condomínios, em que pessoas da minha cor e com as minhas vestes, só poderiam entrar escoltadas ou pelo portão dos fundos, dos empregados. Mas naquele dia eu entrei pelo portão principal, porque estava dentro do carro do motorista da família Said. Sim, era o carro do motorista. A família dos Said não mandariam os carros principais deles para pegar uma empregada no subúrbio de Detroid. Francisco, o motorista que trabalhava para eles há mais de 20 anos, foi quem foi me buscar no ponto de encontro marcado, que era no centro da cidade. Acho que seus patrões não queriam correr o risco de "perder" seu motorista mais querido. O lugar que eu morava realmente era muito perigoso para quem era de fora, principalmente para quem parecia ter uma condição de vida mais próspera. Quem tinha uma vida melhor não tinha razão para entrar ali. Não entendi muito bem os motivos que levaram Núbia a sair da casa dos Said, porque eu sabia que ela também precisava muito de um emprego. No dia que ela foi nos visitar, viu o estado da minha mãe, que veio piorando muito nos últimos meses. A cirurgia para retirar o cancêr das mamas de minha mãe já havia sido aprovada pelo hospital público, mas ainda não tinham a chamado. Ela já estava na fila há quase um ano e sua saúde vinha se debilitando mais a cada dia. Com minha mãe sem poder trabalhar, meu irmão caçula sendo muito novo para trabalhar e meu irmão mais velho sendo um álcoolatra, eu acabava sendo a responsável por trazer comida para dentro de casa. - O salário é muito bom, Sofia. Por que você não se candidata? Poderia ajudar muito vocês... - Núbia falou. - Mas se era tão bom, por que você saiu, Núbia? Um emprego desses com um salário tão bom deve ter algo muito ruim para fazer com que você não ficasse lá. - Disse Sofia. - Eu já estou muito velha para cuidar de uma criança tão pequena, Sofia. - Núbia falou olhando para baixo e afinando um pouco a voz. Núbia era uma senhora que era alguns anos mais velha que minha mãe. Nunca soube a sua idade exata, porque ela não gostava de falar. Mas pela aparência dela e por saber que era mais velha que minha mãe, ela deveria estar na casa dos 55 anos. Nunca a achei tão velha assim, a via como uma amiga, que apesar de, com certeza, ter o dobro da minha idade, tinha uma mente bem jovial. As pessoas aqui no subúrbio realmente envelheciam mais rápido. O trabalho árduo, as poucas horas de sono, a má alimentação e as preocupações sobre como seria o dia de amanhã, faz com que as pessoas envelheçam mais rápido, faz até com que a alma envelheça mais rápido. Núbia sempre dizia que eu deveria tentar a vida fora dali, que eu era bonita demais para aquele lugar, mas como eu poderia ir embora e deixar minha mãe e meu irmão mais novo..? Nunca me vi também como uma mulher tão bonita quanto algumas pessoas diziam. No colégio as meninas branquinhas, com as bochechas rosadas e cabelos loiros brilhantes, sempre eram as que se destacavam. E elas realmente eram lindas. Eu as invejava.. não necessariamente por causa da aparência delas, mas porque mesmo sendo pobres, talvez não tão pobres quanto eu, tudo parecia ser mais fácil para elas. Eu só queria conseguir terminar o colégio. Estudar o suficiente para conseguir dar uma vida melhor para a minha família. Consegui terminar o ensino médio com muita luta e até iniciei a faculdade. Consegui passar no vestibular para pedagogia, mas não consegui terminar, porque logo em seguida a saúde de minha mãe começou a debilitar e eu precisei parar de estudar para trabalhar e também conseguir ter mais tempo para cuidar da minha mãe. Mas sem faculdade, sem boas referências, eu não conseguia nenhum trabalho que me pagasse bem. Eu só conseguia colocar o básico dentro de casa e em nenhuma das vezes que fui contratada, foi por carteira assinada. E naquele exato momento, eu estava desempregada. - Me fala a verdade, Núbia. O que tem de tão ruim nesse lugar para você não ter ficado nem dois meses lá? A criança é muito difícil? - Perguntei. - Nunca! Bernadinho é uma criança abençoada, muito esperto e muito ativo também, se é que você me entende, né? Criança, né, menina. Criança saudável faz bagunça mesmo. - Núbia suspirou, como se realmente gostasse do menino. - Vou te ser muito sincera, menina. Aquela gente é muito diferente da gente e tem o nariz empinado demais. Tu sabe muito bem que o meu pavío é meio curto e em algum momento eu ia acabar fazendo alguma besteira. Mas você é um anjo e além de ter mais disposição que eu, com certeza vai saber lidar melhor com aquele povo. Liga logo pra esse número aí que eu te dei antes que outra pessoa pegue essa vaga. Nesse dia eu liguei para o número que Núbia havia me dado. Falei com uma mulher chamada Jisele, que se identificou como sendo a governanta da casa dos Said e sendo a responsável por filtrar as candidatas para o cargo de babá de Bernardo. Pensei que a entrevista seria na casa deles, mas não, Jisele disse que primeiro entrevistava as candidatas fora da residência para ter certeza sobre a índole da pessoa. Eu concordei. Nosso encontro foi em uma padaria na parte mais bonita e mais cara do centro. Quando cheguei no local, antes de Jisele, fiquei com vergonha de ficar sentada sem pedir nada e a única coisa que tomei naquele lugar foi uma água. Não tinha dinheiro para pagar mais do que aquilo.






