Mundo ficciónIniciar sesiónA viagem de volta foi longa, mas menos turbulenta do que ele temera.
Cinco dias de estrada entre lama espessa, bosques fechados e ventos cortantes. Ainda assim, nenhum embate digno de nota. Nenhuma emboscada. Nenhum presságio além da turbulência pesada que os acompanhou do início ao fim. Quase não viu Alarë durante o trajeto. A carruagem seguia no centro da pequena comitiva, sempre vigiada por dois de seus homens e por Elarin, a prima. Ela cuidava da moça com um zelo contido, preciso, como quem cumpre um dever imposto. Nada além disso. Os relatos eram sempre os mesmos: Alarë dormira a maior parte do caminho. Erguia-se apenas durante as paradas, o rosto coberto, e seguia até os riachos acompanhada por Elarin. Lavava-se em silêncio, comia pouco, retornava à carruagem. Não falava. Não buscava olhares. Não reagia. Houve apenas uma noite de alvoroço. Um grito cortou o acampamento, vindo da carruagem. Os homens puseram as mãos nas espadas, atentos. Elarin surgiu à porta da carruagem quase de imediato, afirmando que estava tudo sob controle. Disse tratar-se de um pesadelo. Garantiu que a acalmaria. Tharok não perguntou mais e se afastou. Não lhe cabia investigar. Sua função era levá-la até Dravharn e cumprir o juramento que seu pai havia imposto ao seu sangue. O restante da viagem foi feito de questionamentos e pesar. Os homens falavam baixo, temendo despertar os gritos da moça. Tharok, por sua vez, carregava a amargura do compromisso — um fardo que não escolhera, mas aceitara. Quando o quinto dia amanheceu, os sinos de Dravharn ecoaram pelas colinas. O vento trouxe um aroma conhecido: sal, fumaça e ferro. Estavam em casa. As muralhas erguiam-se escuras sob a névoa. Bandeiras brancas e cinzentas tremulavam com sobriedade. Ao avistarem a comitiva, os portões se abriram. A aldeia despertou: mulheres surgiram às portas, crianças correram atrás dos animais, e o povo clamou seu nome como quem celebra uma colheita farta. Sua mãe aguardava à frente, envolta no manto vermelho do clã. O olhar amável trouxe paz a tharok. Ao lado dela, a irmã mantinha uma expressão mais discreta, quase entediada. Ele parou o cavalo diante delas e desmontou. — Está feito. — Fico aliviada — respondeu a mãe, lançando o olhar por sobre o ombro dele, na direção da carruagem, enquanto fazia o sinal antigo de bênção e proteção. — Vamos entrar. Há comida quente esperando. Atrás dele, ouviu o ranger da madeira. Elarin desceu da carruagem. — Por que a trouxe? — perguntou a mãe, voltando-se para Tharok. — Alarë precisa de cuidados. — disse sem culpa. — E nós não seríamos suficientes? — lançou um olhar breve ao filho. — Não! — Na verdade, Tharok não queria aquele peso sobre os ombros das duas. — Quanto mais pessoas, melhor. A anciã não ficou contente; prometeu, em seu coração, conversar com o filho. Por enquanto, apenas o seguiu em direção à carruagem.. — Meu jarl — Elarin baixou a cabeça, mas logo ergueu os olhos — Alarë está dormindo. Se permitir, posso pedir a um dos guerreiros que — Tharok ergueu a mão, interrompendo-a. Jamais ordenaria a um homem que tocasse sua esposa. Seria malvisto. Ainda que obedecessem, o gesto feria a honra de Alarë e, por consequência, a dele próprio. Entrou na carroça pela primeira vez. O interior era escuro, impregnado de madeira velha, couro úmido e vinho rançoso. Ela estava ali, encolhida sob cobertores ásperos, o corpo pequeno, os cabelos dourados ocultando-lhe o rosto de forma indomável. A moça dormia, imóvel. Sentou-se do lado oposto, encostando as costas na madeira. Apoiou as mãos no joelho e observou. A luz do amanhecer iluminava apenas metade do rosto; a outra permanecia na penumbra. Dessa vez, viu quem ela era — ou o que aparentava ser. O rosto era belo e trágico, lembrava uma escultura desgastada pelo tempo. A pele apresentava palidez doentia. Mesmo em repouso, uma das mãos tremia de forma involuntária. O vestido, outrora rosa, estava manchado de vinho e terra. Os pés nus revelavam cortes finos nos tornozelos. O cheiro que emanava dela era agridoce: ervas, flores do campo e vinho colhido na melhor estação. Uma mistura estranha de pureza e ruína, calma e caos. Algo primitivo percorreu-lhe a espinha — a mesma sensação que antecede as tempestades nos bosques. Estendeu a mão para afastar-lhe os cabelos. Os olhos dela se abriram. Azuis opacos, como gelo trincado. Fecharam-se quase de imediato. Um gemido baixo, angustiado, escapou-lhe dos lábios rosados. O coração dele bateu em um ritmo aleatório. — Alarë. Ajoelhou-se e tomou-a nos braços. A cabeça dela repousou contra seu peito. Observou os olhos fechados, os lábios carnudos, o nariz reto, as maçãs do rosto quentes. A pele ardia. Febre. Apertou-a contra si e saiu da carroça, ignorando os olhares curiosos ao redor. — Chamem a curandeira — ordenou se afastando de imediato. Havia febre. Ele não se enganava. Ouviu vozes atrás de si, alguém chamando seu nome, mas não parou. Se aquela mulher morresse ao chegar às suas terras, não seria apenas sua honra a ser manchada — todo o clã Dravharn seria arrastado à vergonha.






