Mundo ficciónIniciar sesiónTharok lançou um olhar rápido ao amigo. Em seguida, voltou a atenção para a cena diante de si.
A mulher se debatia com o corpo curvado, como uma fera acuada. Os cabelos longos e loiros, estavam molhados, embolados, dando a impressão de terem sido lavados à força e depois abandonados ao vento. Alguns fios grudavam na testa; outros escorriam pelos ombros como serpentes venenosas preste a atacar. O vestido de linho bruto, azul-escuro, de mangas longas e rendadas, varria os degraus de pedra enquanto ela era arrastada escada abaixo. As pernas se chocavam contra os degraus, os pés descalços arranhavam o chão, e ela gritava — não de dor. De terror. — Me soltem! Eles estão vindo! O olhar se ergueu de repente, fixando-se no teto, dando a impressão de que algo rastejava por ali. Os olhos estavam dilatados, perdidos em um mundo que só existia para ela. Poço de ossos. Era pior do que ele imaginara. — Deviam aproveitar que o padre está aqui e tentar um exorcismo — sussurrou uma voz velha atrás de Tharok, seca, mal disfarçando o desprezo. — Como se isso adiantasse — respondeu outra, com um riso curto. — Alarë é a vergonha do clã. Logo… nos livraremos dela. Tharok permaneceu imóvel, observando e ouvindo. Os gritos. O tumulto. Os olhares desviados, tentando fingir normalidade. E, pela milésima vez, perguntou-se em que abismo o pai o havia lançado. Broc soltou o ar ao seu lado. — Tem certeza de que vamos levar isso… para o nosso clã? Certeza ele não tinha, mas precisava fazê-lo. Virando o rosto na direção do amigo rosnou. — Essa é sua futura lady. Demonstre o mínimo de respeito. — Tharok… Mas ele já se afastava, sem permitir que o outro concluísse. Raios. Broc tinha razão. Doía admitir, mas a pergunta era inevitável: o que era pior? Isso… Ou uma guerra? Ele podia lidar com uma louca. Precisava acreditar nisso. Já enfrentara exércitos famintos. Feras da floresta no vale do Leste. Duelo após duelo no Sangue Antigo. E aquilo? Uma mulher que gritava e sussurrava para o nada? Não deveria ser nada. Aproximou-se de Aven. O homem parecia menor agora, esmagado pelo próprio constrangimento. — Ainda pode desistir — murmurou ele. — Juntos convenceremos o rei. O olhar que recebeu de Tharok foi longo. Definitivo. — E depois? — a voz do rapaz saiu seca. — Meu nome espalhado pelos quatro cantos como veneno ao vento. O jarl que quebrou um juramento. O filho que cuspiu na memória do pai. Não. Absolutamente não. Jamais faria isso. Como líder do clã tinha seu orgulho. — Avise o padre — ordenou, virando-se. Caminhou até o centro do tumulto. Alguns se aproximavam, outros se afastavam apressados, cruzando os dedos, murmurando orações, como se a simples presença de Alarë contaminasse o ar. O jovem jarl abriu caminho. Ela estava no chão, encolhida. Os cabelos loiros cobriam-lhe o rosto. A cabeça enterrada entre os joelhos. O corpo balançava de um lado para o outro num ritmo instável. O polegar da mão direita subia e descia pela unha, frenético. Os punhos cerrados. A boca murmurava palavras incompreensíveis. Não era uma mulher. Era medo em estado bruto. Tharok abaixou-se com cautela e pousou a mão sobre o ombro dela. — Levante-se — murmurou, próximo ao ouvido. Nada. Apertou um pouco mais firme contra o osso frágil. Foi o bastante. Ela se virou como um animal encurralado. E o mordeu. Os dentes se cravaram em sua mão. Mandíbulas cerradas. O som veio antes da dor. Crac. — Maldita seja! Tharok afastou-se bruscamente, mas o sangue já escorria pela pele. Olhou para ela, o sangue fervendo nas veias — e ela devolveu o olhar… ou tentou. Os olhos estavam abertos, porém vazios. Não havia ninguém ali — disso ele tinha certeza. E, em meio à humilhação pública, ao sangue e ao caos, uma verdade pulsou dentro dele. A loucura dela condenaria seu clã. Em um acesso de ira, arrastou Alarë até a mesa baixa, onde o padre aguardava. A moça se debatia, chutava o chão, mas ele não a soltou. Ninguém se aproximou. Ninguém sustentou o olhar por mais de dois segundos. O padre lançou-lhe um olhar carregado de pena. O mesmo conhecia a ordem do rei. Todos conheciam. Nada podia ser feito. Broc surgiu ao lado. Segurou a jovem com força, enquanto Tharok imobilizava o polegar. A resistência dela foi breve. Então, ele afundou o dedo de Alarë na tinta escura e o prensou contra o pergaminho com brutalidade. Estava feito. A marca. A promessa em carne. Faltava apenas a parte dele. Entregou-a a Broc, que a segurou firme, arrastando-a para longe da multidão. Ela ainda gritava, olhos selvagens, palavras desconexas lançadas ao ar como maldições, fazendo o ouvido de todos latejar. Tharok pegou o pergaminho. Assinou. Nome completo. Título. Juramento. No fim, selou. Agora era oficial. Ela era sua. Largou a pena sobre a mesa e apoiou as mãos na madeira, o peito arfando. Baixou a cabeça e fechou os olhos com força. Os gritos dela ecoavam do lado de fora. O burburinho ainda preenchia o salão. E dentro dele… apenas vazio. Não havia clima para festa. Ao inferno com aquilo. Tudo o que queria era ir embora. — Ela dará trabalho — disse Meviria, surgindo atrás dele. — Deveria levar alguém do nosso clã para cuidar dela. Leve Elarim. As duas são como irmãs. Minha filha será útil. Irmãs? Outra mentira conveniente. Tharok não pensou. Não queria pensar. Se pensasse, ruiria. A situação era pior do que previra. A vergonha era real. Aquilo afundaria seu clã. E quando perguntassem quem fora o idiota que assinara por ela… Seu nome estaria no topo. — Diga a Elarim que prepare as coisas. Partimos agora. — Já está tudo pronto. — Ótimo. — Tharok virou-se para o padre. — Informe ao rei que o acordo foi cumprido. O padre hesitou, respirou fundo, tentou dizer algo. Tharok já se afastava. Não queria ouvir conselhos, nem piedade, nem palavras bem ensaiadas. — Você sabe que terá de… cuidar dela — disse o padre, por fim. — O jarl entende o que um casamento exige? Tharok parou. Virou o rosto lentamente e o encarou. — Eu sei exatamente o que é um casamento. Guarde seus ensinamentos para quem deseja ouvi-los. Logo após, saiu do salão com passos firmes. Do lado de fora, seus homens já montavam os cavalos. O vento ainda cortava a pele. O céu parecia ainda mais cinza e vazio. Alarë não estava à vista, mas os gritos vinham abafados, presos dentro da carruagem trancada. E tudo o que conseguiu pensar foi: Ela vai gritar a viagem inteira? Malditos sejam os deuses.






