Mundo ficciónIniciar sesión— Há quantos dias ela está assim? — Sigrun ergueu-se no pequeno cômodo; seus olhos se fixaram em Elarin.
— A febre começou esta manhã — Elarin mordeu o lábio inferior, visivelmente desconfortável. — Juro por Thor que ela não estava assim até hoje de manhã. Sigrun inclinou-se novamente sobre a cama e pousou as mãos na testa de Alarë, sentindo o calor que emanava. Panos úmidos, embebidos em uma decocção de ervas, eram pressionados contra as têmporas e os pulsos, enquanto ela murmurava palavras estranhas como cântico baixo tentando conduzir o calor de volta ao vento frio do Norte. — Não me parece uma febre de poucas horas. — Apontou Sigrun. Elarin ergueu o olhar, o rosto ruborizado. — Está insinuando que minto? Cuidei de minha prima por anos. Sei reconhecer quando algo está errado. Ela estava bem até ontem à noite. Alarë dorme muito, isso sempre foi assim. Ainda mais em seu estado. Ela não é como nós. Hilda aproximou-se do filho e segurou-lhe o braço. A tristeza em seu olhar vinha carregada de preocupação. — Não percebeste isso? — os olhos dela atravessaram os dele. — Não cheguei perto da carruagem — admitiu. Ela lançou-lhe um olhar de advertência e não disse mais nada, mas a inquietação em seu semblante era evidente. Frigg a irmã de Tharok manteve-se próxima, quieta, observando cada gesto de Elarin e de Sigrun — a curandeira do clã —, pronta para ajudar, pronta para proteger a moça. — Disseste que ela dormiu durante toda a viagem — prosseguiu Sigrun. — Uma febre assim não passa despercebida por tanto tempo. Elarin assentiu, as mãos apertadas uma contra a outra. — Cuidarei dela. Eu prometo. Sigrun retirou pequenas bolsas de couro recheadas de ervas secas, raízes e pós extraídos de cascas de árvores. Misturou os ingredientes ao vinho de frutas e começou a aplicar compressas nos pulsos e na testa da jovem. Cada gesto era preciso. Elarin auxiliava em silêncio, obediente a cada instrução, enquanto a Hilda ajeitava os cobertores e os lençóis, certificando-se de que o leito estivesse o mais confortável possível. Tharok analisou Alarë, ainda adormecida. O corpo pequeno, os cabelos dourados em desalinho, a pele ardendo sob o toque. A febre não ocultava sua beleza delicada; ao contrário, revelava o desgaste imposto pela doença e pelo cansaço. — Ela precisa descansar — murmurou Sigrun. — Mas deve ser vigiada a cada hora. — Será bem cuidada — disse a Hilda, mais para o filho do que para os demais. — Prometi a teu pai que cuidaria dessa menina. Não falharei. A irmã de Tharok permaneceu ao lado de Elarin, ajudando com os panos, atenta a cada compressa, a cada murmúrio da curandeira. Tharok manteve-se afastado, sentindo o cumprimento do juramento e a presença protetora da mãe sobre Alarë. Cada gesto dela era uma promessa: faria o necessário para manter a moça segura e cumpriria a palavra do marido, mesmo com o fardo que isso impunha. (๑๑˙❥˙๑๑˙❥˙๑๑˙❥˙๑๑˙❥˙๑๑˙❥˙๑๑)✍️ — Estás sendo descuidado — disse a Hilda, apoiando-se na borda da mesa. Ao seu lado, a filha acompanhava cada movimento. — É evidente que não tens afeição pela moça. Tharok empurrou a travessa de carne assada um pouco mais para o centro da mesa, sentindo o calor do fogo refletir na madeira. — Farei o que for necessário. Preciso apenas de tempo para assimilar tudo. A mãe inclinou-se, os olhos fixos no filho. — Tempo já tiveste demais. As moças se casam cedo entre nós, e adiastes isso por anos. O que deveria ter sido resolvido há muito tempo foi decidido em poucas luas. Tempo suficiente já te foi concedido. Era a verdade. Entre seu povo, as moças casavam cedo. Tharok adiara o compromisso com Alarë por cinco invernos. Dedicando-se às guerras, às colheitas, aos assuntos do palácio. Isso o levara até onde estava, mas nem mesmo sua posição fora capaz de romper a promessa. — Prometi a meu pai que cumpriria sua palavra — disse ele, firme. — E cumpri. A anciã estreitou os olhos, os lábios reduzidos a uma linha dura. Não respondeu. Não compensava. Seu silêncio bastava para revelar sua desaprovação e preocupação. — Olha para ela — disse a anciã, enfim. — Percebes o que carregas nos braços? Uma vida que não te pertence, mas que um juramento exige que protejas. Ela é diferente. — Ela é louca. — Não fales assim. Tharok engoliu o resto das palavras. Bastaria Alarë despertar e começar a gritar pelo castelo para que a mãe visse com os próprios olhos aquilo que se recusava a aceitar. A irmã inclinou-se levemente, o olhar sondando o dele. — Tharok… — respirou fundo antes de perguntar, quase temerosa. — Acreditas que ela ficará bem? Que será… curada? Desde quando a loucura tinha cura? Que ele soubesse, nunca. Tharok fechou os olhos por um instante, sentindo a dor de cabeça se anunciar, e lembrou-se do corpo frágil de Alarë, dos cabelos dourados caindo sobre o rosto, da respiração irregular. — Não — respondeu. — Não há cura para essa doença. A anciã lançou-lhe um olhar pesado de advertência e permaneceu quieta. — Ainda assim, cuidarei dela — acrescentou ele, mais para si do que para qualquer outro. — Louca ou não. A irmã assentiu levemente cruzando os braços. — Que os deuses nos guiem — murmurou a anciã. Tudo agora tornou-se claro: não era apenas Alarë que estava sob a guarda deles, mas a honra de todos. — Assim será. Tinha que ser.






