Filho de Dravharn

Um homem alto como uma torre de pedra ocupava o vão da porta. Largo de ombros, o corpo marcado pelo treino constante parecia talhado para a guerra, ele era como o deus da guerra.

Os cabelos ruivos, caíam até os ombros fortes. A barba curta, bem cuidada, emoldurava um rosto severo, onde pequenas cicatrizes denunciavam confrontos antigos.

Os olhos verdes lembravam a floresta em fúria. Havia neles a quietude de quem já encarara a morte e retornara carregando a tristeza das lembranças. Vestia uma túnica de lã vermelha, espessa, bordada com runas de batalha quase apagadas pelo uso.

A espada ancestral repousava à lateral, o punho entalhado com símbolos do clã, reluzindo à luz instável da fogueira distante. Ele permaneceu no limiar, imóvel, avaliando-a com a atenção paciente de um lobo antes do primeiro ataque.

— Você seria…? — a pergunta saiu baixa.

Alarë sabia a resposta; no entanto, temia confirmá-la.

— Tharok, filho de Dravharn.

Ela tentou recuar, mas a janela lhe fechava qualquer rota. Sentiu o frio da madeira às costas.

Para onde iria?

Como fugiria?

— A promessa de nossos pais…

Era tudo o que conseguia dizer. Não estivera presente quando a promessa fora feita, mas crescera ouvindo que sua existência arruinara um jovem guerreiro. Que, por culpa do egoísmo de seu pai, Tharok recebera uma esposa indigna.

Diante dele, aquela acusação parecia ganhar forma.

Alarë abaixou a cabeça. Observou os próprios pés: pequenos cortes, uma unha quebrada. Nada incomum. Sempre que as crises vinham e ela corria pelas montanhas, o corpo pagava o preço. Às vezes, mais caro.

— Peço perdão pelo passado. — A voz falhou. — Meu pai me lançou ao teu clã sem medir as consequências. Enviei cartas ao rei pedindo a anulação dessa união. Talvez… — respirou fundo, reuniu coragem e ergueu o olhar. — Se fôssemos juntos ao rei…

Tharok ergueu a mão.

— Sei o que faço. E por que faço.

— Mas—

— Estás pronta para lidar com o que viria depois? — A pergunta veio com dureza. — Há muitos envolvidos. Não se abandona algo assim sem custo.

Bagunça.

A palavra ecoou nela como um veredicto. Resumia sua vida. Resumia a si mesma.

Mesmo fraca, Alarë sustentou o olhar dele.

— Agora és da minha casa. — A voz de Tharok permaneceu firme. — Enquanto estiveres sob meu teto, estarás segura.

Houve um tempo em que ela aguardara por aquelas palavras. Agora, soavam como um eco tardio.

— Não desperdice teu tempo comigo — murmurou. — Apenas mantenha teu povo distante.

— Tens medo do meu povo?

Não era isso.

Era pior.

Ela tinha medo de si.

Tharok pareceu refletir antes de entrar e sentar-se diante da cama. Observou-lhe o rosto, atento, procurando algo que não sabia nomear.

— Pareces… melhor agora. — Hesitou. — Mais lúcida.

— Menos louca? — Um sorriso frágil curvou-lhe os lábios. — Tenho momentos de sanidade. São breves, mas existem.

— Estou a ver. — Ele assentiu. — Quero que saias apenas quando estiveres melhor.

As palavras que ouvira a vida inteira voltaram como um sussurro antigo:

— A louca do oeste não pode se misturar.

Tharok inclinou-se ligeiramente.

— A louca do oeste está sob meus cuidados agora.

Alarë balançou a cabeça, cruzando as mãos à frente do corpo, um tanto inquieta.

— Muitas promessas são fazias.

O homem à sua frente ergueu o corpo.

— Não quando vêm do lugar certo.

(๑๑⁠˙⁠❥⁠˙⁠๑๑⁠˙⁠❥⁠˙⁠๑๑⁠˙⁠❥⁠˙⁠๑๑⁠˙⁠❥⁠˙⁠๑๑˙⁠❥⁠˙⁠๑๑⁠)✍️

O grito cortou o silêncio da noite no castelo Dravharn.

Agudo e desesperado.

Tharok despertou num sobressalto. Não buscou tocha. Pegou apenas a espada e saiu. Ao alcançar o aposento de Alarë, encontrou Elarin; logo atrás, sua mãe e a irmã surgiram, alarmadas. Soldados já atravessavam os corredores, atraídos pelos gritos que ecoavam como uma tempestade crescente.

Não era preciso vê-la para saber.

Naquele fim de tarde, tudo parecera calmo. Bastara cair a noite para que a tormenta do oeste cruzasse as fronteiras do norte.

— O que houve? — murmurou Tharok, ao entrar.

As tochas lançavam sombras agitadas pelas paredes. Misturadas aos gritos, tornavam a cena quase insuportável.

Alarë jazia caída ao lado da cama. O corpo pequeno tremia, os braços encolhidos, a voz implorando por misericórdia. O quarto parecia querer esmagá-la até a morte.

Tharok aproximou-se sem hesitar. Ajoelhou-se, cauteloso — não por medo, mas para não feri-la em seus arroubos. Envolveu-a com os braços e puxou-a contra o peito, firme, contido, como quem segura algo à beira do descontrole.

Sussurrou palavras baixas. Não sabia quais, nem por quê. Apenas sentia que precisava fazê-lo.

Vieram-lhe lembranças antigas: noites em que, após a morte do pai, passara horas acordado acalmando a irmã dos pesadelos enquanto a mãe vivia seu luto trancada. Talvez esse gesto funcionasse outra vez.

Repetiu cada palavra como um rito.

Aos poucos, os gritos cessaram. O corpo em seus braços tornou-se pesado, rendido a um sono profundo, a respiração irregular.

— Como conseguiu acalmá-la? — a pergunta de Elarin saiu quase em pensamento.

Era impossível. Após cada crise, Alarë corria, gritava, desaparecia nas florestas. Dias de busca se seguiam. A morte dela traria desgraça ao clã — louca ou não, precisava viver. Era um decreto do rei.

Tharok ergueu-a com cuidado e a deitou na cama, cobrindo-a. Só então voltou-se para a mulher confusa à sua frente.

— Chame a curandeira.

Elarin engoliu em seco e saiu. Detestava ordens, mas não ousou contrariá-lo.

Tharok sentou-se ao lado de Alarë. Observou-lhe o rosto adormecido, a respiração agitada e as mãos levemente trêmulas, enquanto perguntas sem resposta se acumulavam.

Sua mãe aproximou-se, a expressão grave.

— É sempre assim? — sussurrou.

— Pior — respondeu ele, sem tirar os olhos da jovem, recordando da noite do casamento.

— O que faremos?

Pela primeira vez, Tharok não tinha resposta.

— Não sei… — murmurou. — Pela primeira vez, realmente não sei.

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