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CAPÍTULO 4: A FESTA DAS VERDADES ESCONDIDAS

As funcionárias deram os últimos ajustes no vestido preto que abraçava o corpo de Angelina com elegância. O tecido brilhava discretamente sob a luz do quarto, enquanto o penteado prendia parte dos seus cabelos, deixando alguns fios caírem sobre os ombros.

Ela respirou fundo e encarou o próprio reflexo no espelho.

Ainda era difícil acreditar que, em menos de vinte e quatro horas, sua vida havia mudado completamente.

Uma batida firme ecoou na porta.

— Entre.

A porta se abriu.

Salvatore entrou no quarto vestindo um terno preto impecável. Caminhou alguns passos e parou diante dela.

Seus olhos percorreram Angelina de cima a baixo por apenas um instante.

Não havia sorriso.

Nem elogio.

Mas também não havia indiferença.

Apenas um olhar demorado que desapareceu tão rápido quanto surgiu.

— Está pronta? — perguntou, voltando ao tom frio de sempre.

Angelina assentiu.

— Acho que sim.

Ele franziu levemente a testa.

— Não ache. Tenha certeza.

Ela respirou fundo.

— Estou pronta.

Salvatore estendeu o braço.

— Então vamos.

Ela segurou seu braço em silêncio.

Antes de sair do quarto, ele parou diante da porta e falou sem sequer olhá-la:

— Hoje você representa a família Moretti.

Ela voltou o rosto para ele.

— Isso significa que preciso sorrir para pessoas que nunca vi?

— Significa que ninguém pode duvidar da força desta família.

Ela não respondeu.

Os dois desceram juntos a grande escadaria da mansão.

No salão principal, dezenas de convidados conversavam entre taças de vinho e música ao vivo.

Empresários.

Políticos.

Aliados.

Chefes de outras organizações.

Homens que trabalhavam para os Moretti.

Assim que Salvatore entrou, as conversas diminuíram.

Todos abriram passagem.

Ele caminhou até o centro do salão sem demonstrar qualquer emoção.

Então voltou-se para Angelina.

Segurou sua mão diante de todos.

— Esta é Angelina Moretti.

Sua voz era firme.

— Minha esposa.

Fez uma breve pausa.

— Enquanto carregar o meu sobrenome, será tratada com o mesmo respeito que qualquer membro desta família. Quem faltar com respeito a ela estará faltando comigo.

Os convidados assentiram.

Alguns cumprimentaram Angelina.

Outros apenas observaram em silêncio.

Ela percebeu olhares curiosos.

Sabia exatamente o motivo.

Era a irmã da noiva que havia fugido.

Agora ocupava o lugar dela.

Enquanto caminhavam entre os convidados, Salvatore apresentava algumas pessoas importantes.

— Senhor Bianchi.

— Conselheiro Romano.

— Família Bellini.

Angelina cumprimentava todos com educação.

Sempre mantendo a postura.

Sempre ao lado dele.

Depois de alguns minutos, Salvatore foi chamado por um dos seus homens.

— Don... precisamos conversar sobre uma entrega.

Ele olhou rapidamente para Angelina.

— Espere aqui.

Ela apenas assentiu.

Salvatore afastou-se alguns metros.

Foi o suficiente.

— Finalmente encontrei uma oportunidade.

Angelina reconheceu a voz antes mesmo de se virar.

Rocco.

Vestindo um terno azul-escuro, ele segurava uma taça de uísque enquanto sorria de maneira discreta.

— Boa noite.

— Boa noite.

Ele a observou por alguns segundos.

— Você está linda.

Angelina sorriu por educação.

— Obrigada.

— Acho que nunca tive a oportunidade de dizer isso sem que alguém nos interrompesse.

Ela desviou o olhar.

— Rocco...

— Calma.

Ele levantou uma das mãos.

— Não vim criar problemas. Só queria conversar.

Ela permaneceu em silêncio.

— Ainda está tentando entender tudo isso, não é?

Angelina soltou um pequeno suspiro.

— Acho que nem eu mesma sei o que estou sentindo.

Rocco abaixou a voz.

— Eu sei. Sei que você não escolheu esse casamento. Assim como eu não escolhi assistir tudo acontecer sem poder fazer nada.

Angelina sentiu um aperto no peito.

— As coisas aconteceram rápido demais.

— Aconteceram. — Ele sorriu sem alegria. — E, mesmo assim, não consigo fingir que nada mudou.

Ela percebeu a sinceridade na voz dele.

— Rocco...

— Não precisa dizer nada. — Ele respirou fundo antes de continuar. — Só quero que saiba de uma coisa.

Ela permaneceu em silêncio.

— Muito antes da Sofia conhecer o Salvatore, eu já esperava encontrar coragem para dizer que gostava de você.

Angelina ficou completamente surpresa. Nunca imaginou ouvir aquilo.

— Eu...

— Não estou pedindo resposta. Nem quero colocar você contra ele. Só não queria passar o resto da vida fingindo que nunca senti nada.

Antes que ela conseguisse responder, a música mudou. Um casal entrou na pista de dança.

Rocco estendeu a mão.

— Posso ter esta dança?

Angelina olhou instintivamente na direção de Salvatore. Ele ainda conversava com dois homens próximos ao bar.

Rocco percebeu.

— É só uma dança. Nada além disso.

Ela hesitou por alguns segundos. Então colocou a mão sobre a dele. Os dois caminharam até a pista.

Do outro lado do salão, Salvatore levantou os olhos exatamente naquele instante. E viu o irmão conduzir Angelina para a dança.

Sua expressão permaneceu impassível. Mas o homem que conversava com ele percebeu que sua atenção já não estava mais na reunião. Os dedos de Salvatore apertaram lentamente a taça de cristal. Sem dizer uma única palavra, seus olhos permaneceram fixos nos dois.

A música preenchia o salão enquanto Rocco conduzia Angelina pela pista. Ele mantinha a distância que a dança permitia, sem ultrapassar qualquer limite. Ainda assim, o simples fato de estarem ali atraía olhares curiosos.

— Você está tensa — comentou ele, em voz baixa.

— Como não estaria?

— Porque ninguém aqui sabe o que realmente aconteceu. Para eles, vocês são apenas um casal recém-casado.

Angelina soltou um suspiro.

— E talvez seja melhor que continue assim.

Rocco sorriu de leve.

— Você sempre foi boa em esconder o que sente.

Ela ergueu os olhos.

— Você acha que me conhece tanto assim?

— Acho que passei tempo suficiente observando você para aprender algumas coisas.

Ela desviou o olhar.

— Não devia ter feito isso.

— Eu sei.

Por um instante, os dois permaneceram em silêncio, acompanhando o ritmo da música. Então Rocco voltou a falar.

— O que eu disse agora há pouco... é verdade.

Angelina respirou fundo.

— Não complique ainda mais as coisas.

— Não estou tentando complicar. Estou apenas sendo sincero pela primeira vez.

Ela diminuiu o passo.

— Eu sou casada com o seu irmão.

— Eu sei. — Ele sorriu sem alegria. — E isso não muda o que eu sinto. Só muda o que eu posso fazer.

Angelina ficou sem resposta.

Naquele momento, uma voz grave interrompeu a conversa.

— A dança termina aqui.

Os dois se viraram. Salvatore estava diante deles. Sua expressão permanecia calma, mas seus olhos eram duros como pedra.

Rocco soltou lentamente a mão de Angelina.

— A música ainda nem acabou.

— Eu disse que acabou.

O silêncio tomou conta da pista. Alguns convidados discretamente voltaram a atenção para os três.

Rocco sustentou o olhar do irmão.

— Está com medo de uma dança?

— Não. — Salvatore respondeu sem elevar a voz. — Apenas não gosto que esqueçam os próprios limites.

Rocco sorriu de canto.

— Limites...

— Você sabe exatamente do que estou falando.

Os dois permaneceram alguns segundos em silêncio. Angelina percebeu que nenhum deles pretendia recuar. Foi ela quem resolveu intervir.

— A dança já acabou. — Ela deu um passo para trás, afastando-se de Rocco. — Não vale a pena transformar isso em um problema.

Rocco olhou para ela antes de voltar a encarar o irmão.

— Fique tranquilo, Salvatore. Nunca faltarei com respeito ao seu casamento. — Fez uma pequena pausa. — Mas também não vou fingir que nunca admirei sua esposa.

Salvatore aproximou-se apenas o suficiente para que apenas o irmão o ouvisse.

— Admiração é uma coisa. Confundir isso com liberdade é outra.

Rocco manteve o sorriso.

— Pode deixar. Conheço muito bem a diferença.

Os dois permaneceram se encarando por mais um instante. Depois, Rocco ergueu a taça na direção deles.

— Aproveitem a festa.

Virou-se e caminhou tranquilamente em direção ao bar.

Salvatore acompanhou o irmão com os olhos até vê-lo desaparecer entre os convidados. Só então ofereceu o braço a Angelina.

— Vamos.

Ela aceitou em silêncio. Enquanto caminhavam pelo salão, ele voltou a falar.

— Não gosto de repetir ordens.

— Eu também não gosto de recebê-las.

Ele lançou um breve olhar para ela.

— Então facilite as coisas para nós dois.

Angelina respirou fundo.

— Eu apenas aceitei uma dança.

— Você sabia quem a estava convidando.

— E ele é seu irmão.

— Justamente por isso deveria conhecer os limites dele.

Ela parou por um instante.

— Você está bravo porque ele dançou comigo... ou porque disse que gostava de mim?

Salvatore sustentou o olhar dela. Seu rosto permaneceu impassível.

— Estou bravo porque um homem da minha família esqueceu a posição que ocupa.

Ela percebeu que ele havia evitado responder à pergunta.

— Foi isso que eu imaginei.

Ele aproximou-se um pouco.

— Não confunda as coisas, Angelina. Enquanto carregar meu sobrenome, ninguém vai expô-la ao ridículo. Nem mesmo alguém da minha própria família.

Ela sentiu um estranho aperto no peito. Não parecia uma declaração. Parecia uma ordem. Mesmo assim, havia algo naquela firmeza que a deixava cada vez mais confusa.

Antes que pudesse responder, um dos homens de confiança de Salvatore aproximou-se.

— Don... precisamos conversar. É urgente.

Salvatore franziu discretamente a testa.

— Fique aqui. Volto em alguns minutos.

Sem esperar resposta, afastou-se.

Angelina observou-o desaparecer entre os convidados. Do outro lado do salão, Rocco ergueu os olhos e a encontrou novamente. Desta vez, nenhum dos dois sorriu.

Ambos sabiam que, depois daquela noite, nada voltaria a ser simples. E Angelina começava a perceber que o verdadeiro conflito daquele casamento não estava apenas no contrato que assinara. Estava nas pessoas que agora faziam parte da sua nova vida.

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