Mundo ficciónIniciar sesiónCAPÍTULO 3: OLHARES QUE TRAEM
Quando Angelina abriu os olhos, o quarto já estava iluminado pela luz da manhã.
Por alguns segundos, permaneceu imóvel, encarando o teto. A noite anterior parecia um borrão. O casamento inesperado, o contrato, a discussão... tudo havia acontecido rápido demais.
Virou o rosto para o outro lado da cama.
Salvatore já não estava ali.
Ela respirou fundo, levantou-se e caminhou até o banheiro. Precisava colocar a cabeça no lugar antes de encará-lo novamente.
Depois de se arrumar, saiu do quarto.
Uma funcionária aguardava do lado de fora.
— Bom dia, senhora Moretti.
Angelina ainda estranhava aquele sobrenome.
— Bom dia.
— O Don está esperando a senhora para o café da manhã.
Ela apenas assentiu e desceu as escadas.
A mansão era silenciosa. Empregados caminhavam pelos corredores sem fazer barulho, enquanto homens armados vigiavam a área externa.
Tudo ali parecia seguir regras invisíveis.
Ao entrar na sala de jantar, encontrou Salvatore sentado à cabeceira da mesa. À sua frente, uma pasta aberta e alguns documentos.
Ele ergueu os olhos por um instante.
— Está atrasada.
Angelina puxou uma cadeira.
— Ninguém me disse que existia horário.
— Agora sabe.
Ela sustentou o olhar dele.
— Então considere este o meu primeiro atraso.
— E o último.
Uma empregada serviu seu café.
Angelina pegou a xícara.
— Você sempre recebe as pessoas desse jeito?
— Apenas quem mora na minha casa.
— Que privilégio.
Ele voltou a atenção aos documentos.
— Vai se acostumar.
Antes que ela respondesse, ouviram passos se aproximando.
— Espero não estar interrompendo esse clima romântico.
Rocco entrou sorrindo, mas seus olhos pararam imediatamente em Angelina.
— Bom dia.
— Bom dia — respondeu ela.
Ele puxou uma cadeira e sentou-se.
— Dormiu bem?
Antes que Angelina respondesse, Salvatore falou:
— O café não é lugar para conversas inúteis.
Rocco ignorou completamente o irmão.
— Fiz uma pergunta para ela.
Angelina respondeu com naturalidade.
— Dormi o suficiente.
— Ainda bem.
Rocco sorriu de leve.
— Depois de ontem, imaginei que pudesse estar mais assustada.
Ela abaixou os olhos por um instante.
— Foi um dia... inesperado.
— Para todos nós.
Rocco girou a xícara entre os dedos antes de continuar:
— Nunca imaginei que fosse perder você para o meu próprio irmão.
O silêncio caiu sobre a mesa.
Angelina ergueu a cabeça devagar, surpresa.
Salvatore fechou a pasta lentamente.
— O que você disse?
Rocco deu um meio sorriso.
— Você ouviu.
Salvatore levantou-se.
— Cuidado com o que fala.
— Estou sendo sincero.
Os dois irmãos se encararam.
Rocco não desviou os olhos.
— Sempre gostei da Angelina. Você sabia disso.
Angelina arregalou os olhos.
Nunca imaginou que ele diria aquilo na frente de Salvatore.
O Don deu um passo à frente.
— Isso acabou no momento em que ela se tornou minha esposa.
Rocco soltou uma risada baixa.
— Eu sei.
Fez uma pequena pausa antes de completar:
— Acredite... ninguém lamenta mais isso do que eu.
A tensão tomou conta da sala.
Angelina sentiu o coração acelerar.
Salvatore permaneceu alguns segundos em silêncio.
Quando falou, sua voz saiu baixa e firme.
— Não teste a minha paciência.
— Não estou testando.
Rocco levantou-se.
— Só estou dizendo uma verdade que já existia antes do casamento.
Os olhos de Salvatore escureceram.
— A verdade agora é outra.
— Sim.
Rocco olhou rapidamente para Angelina.
— Agora ela é sua esposa.
Mas isso não muda o que eu sinto.
Angelina prendeu a respiração.
Nenhum dos dois parecia lembrar que ela estava ali.
Salvatore aproximou-se do irmão.
— Tome cuidado, Rocco.
— Com o quê?
— Com os limites.
Rocco sorriu de canto.
— Você sabe tão bem quanto eu que sentimento nenhum respeita limites.
Os dois permaneceram frente a frente por alguns segundos.
Foi Angelina quem quebrou o silêncio.
— Já chega.
Os dois voltaram o olhar para ela.
— Eu não sou um prêmio para vocês discutirem.
Rocco abaixou a cabeça por um instante.
— Você tem razão.
Pegou as chaves sobre a mesa.
— Vou sair. Tenho alguns assuntos para resolver na cidade.
Ao passar por Angelina, falou baixo o suficiente para que apenas ela ouvisse:
— Só queria que soubesse que, se as coisas tivessem sido diferentes... eu teria lutado por você.
Sem esperar resposta, deixou a sala.
Salvatore acompanhou o irmão com os olhos até a porta se fechar.
Depois voltou-se lentamente para Angelina.
A porta se fechou atrás de Rocco.
O silêncio que ficou na sala era ainda mais pesado.
Salvatore permaneceu alguns segundos olhando para a entrada, como se esperasse que o irmão voltasse e terminasse a discussão. Só então voltou a atenção para Angelina.
— Ele nunca deveria ter dito aquilo na sua frente.
Ela cruzou os braços.
— Então era verdade?
Ele não respondeu imediatamente.
Apenas voltou a sentar-se.
— Rocco sempre confundiu simpatia com interesse.
Angelina franziu a testa.
— Não minta para mim.
Salvatore ergueu os olhos.
— Eu não estou mentindo.
— Está tentando diminuir o que acabou de acontecer.
Ela respirou fundo antes de continuar.
— Eu sempre achei que ele apenas brincasse comigo nas festas. Nunca imaginei que fosse... aquilo.
— Porque ele nunca teve coragem de dizer.
A resposta saiu seca.
Angelina permaneceu em silêncio.
Então era verdade.
As brincadeiras, os olhares demorados, os convites para dançar...
Nada daquilo tinha sido por acaso.
Salvatore fechou a pasta que estava sobre a mesa.
— Isso não importa mais.
— Para você, talvez.
Ele levantou-se.
— Para ninguém importa mais.
A voz continuava controlada, mas havia algo diferente em seu olhar.
— Você é minha esposa agora.
Angelina sustentou o olhar dele.
— Você fala isso como se fosse uma posse.
— Porque é.
Ela soltou uma pequena risada, sem humor.
— Eu não sou um objeto.
— Nunca disse que era.
— Mas age como se fosse.
Os dois permaneceram em silêncio por alguns segundos.
Foi Salvatore quem desviou o assunto.
— Tenho reuniões no escritório durante toda a manhã.
— Aqui na mansão?
— Sim.
Ela apenas assentiu.
Aquilo explicava a movimentação de homens entrando e saindo pelos corredores desde cedo.
Antes de sair, ele voltou a olhá-la.
— Você pode andar pela propriedade.
Conhecer a biblioteca.
Os jardins.
A sala de música.
Mas não atravesse os portões sem falar comigo.
— Ainda não confia em mim?
— Confiança não tem nada a ver com isso.
— Então tem a ver com o quê?
— Segurança.
Ele fez uma breve pausa.
— Você agora carrega o sobrenome Moretti. Isso faz de você um alvo.
Sem esperar outra pergunta, deixou a sala.
Angelina terminou o café sozinha.
Enquanto caminhava pela mansão, percebeu que todos os funcionários a tratavam com extremo respeito.
Alguns abaixavam discretamente a cabeça.
Outros simplesmente abriam caminho quando ela passava.
Era estranho.
Na casa do pai, ela era apenas Angelina.
Ali...
Era a esposa do Don.
Chegou aos jardins e respirou fundo.
O lugar era bonito.
Silencioso.
Por alguns minutos conseguiu esquecer toda a confusão da noite anterior.
Até que sua mente voltou ao contrato.
"Um herdeiro em até um ano."
Seu estômago se contraiu.
Ela queria ser mãe um dia.
Mas não daquela forma.
Não porque um papel determinava.
Muito menos em um casamento que ainda parecia uma guerra.
A ideia de colocar uma criança no meio daquela relação lhe parecia injusta.
Não.
Ela precisava de tempo.
Encontraria uma maneira de adiar aquilo sem levantar suspeitas.
Era a única decisão sobre a própria vida que ainda podia controlar.
— Senhora Moretti.
Ela virou-se.
A governanta aproximou-se.
— O Don pediu que eu avisasse que esta noite haverá uma recepção da família Moretti.
— Recepção?
— Sim. O casamento aconteceu muito rápido. Muitos membros da organização desejam cumprimentar oficialmente o casal.
Agora fazia sentido.
Na igreja tudo havia sido um caos.
Naquela noite seria diferente.
Pela primeira vez, ela pisaria diante de todos como esposa de Salvatore Moretti.
Sabia que cada olhar estaria voltado para ela.
Que todos tentariam descobrir se aquela união tinha alguma chance de dar certo.
— Seu vestido já está pronto — continuou a governanta. — Mais tarde voltarei para ajudá-la a se arrumar.
Angelina apenas assentiu.
Quando a mulher se afastou, caminhou lentamente de volta para dentro da mansão.
Ao passar pelo hall principal, ouviu o motor de um carro.
Olhou pela porta aberta.
Rocco descia os degraus da entrada principal, girando as chaves do carro entre os dedos.
Ao vê-la, diminuiu o passo.
— Pelo visto vamos nos encontrar novamente esta noite.
Angelina sorriu de maneira educada.
— Parece que sim.
Ele aproximou-se apenas o suficiente para que ninguém mais ouvisse.
— O que eu disse lá dentro...
Ela o interrompeu.
— Não deveria ter dito.
Rocco respirou fundo.
— Talvez.
— Você complicou ainda mais uma situação que já era difícil.
Ele sorriu sem alegria.
— A situação já estava complicada desde o momento em que o destino resolveu entregar você ao meu irmão.
Por um instante, os dois permaneceram em silêncio.
Então Rocco deu um passo para trás.
— Não se preocupe.
Não vou faltar com respeito ao casamento de vocês.
Mas também não vou fingir que nunca senti nada.
Angelina não encontrou resposta.
Ele entrou no carro e deu partida.
No andar superior, atrás da janela do escritório, Salvatore observava tudo em silêncio.
Não conseguia ouvir as palavras.
Mas conhecia o irmão bem demais para saber que aquela conversa não havia sido casual.
Sua expressão endureceu.
A festa daquela noite reuniria aliados, rivais e membros importantes da organização.
A última coisa de que precisava era que Rocco transformasse um sentimento antigo em um problema dentro da própria família.
E tinha a estranha sensação de que aquele seria apenas o começo.







