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Capítulo 6 – Regras que Não Mudam

O primeiro raio de sol ainda nem havia atravessado as cortinas quando Salvatore abriu os olhos.

Permaneceu imóvel por alguns segundos, olhando para o teto do quarto. Ao seu lado, Angelina dormia profundamente, alheia aos pensamentos que insistiam em ocupar sua mente desde a noite anterior.

Virou o rosto na direção dela apenas por um instante.

Os cabelos espalhados sobre o travesseiro, a expressão tranquila e a respiração lenta faziam parecer que nada havia mudado.

Mas havia.

Para ele, havia mudado demais.

Afastou o lençol com cuidado para não acordá-la e caminhou até o banheiro. Girou o registro do chuveiro até a água ficar completamente fria e entrou debaixo dela sem hesitar.

Fechou os olhos enquanto a água escorria pelo rosto.

Aquilo jamais deveria ter acontecido.

Não porque se arrependesse de tê-la levado para a cama.

Mas porque tinha permitido que o momento fosse além do que deveria.

Era um casamento por obrigação. Um acordo entre duas famílias. Nada mais.

E era exatamente assim que continuaria.

Minutos depois, saiu do banheiro já com a expressão impassível de sempre. Vestiu a camisa preta, abotoou as mangas, ajustou o relógio no pulso e pegou o paletó.

Foi então que ouviu um leve movimento atrás de si.

Angelina despertava.

Ela abriu os olhos devagar e, ao vê-lo, sorriu de forma quase involuntária.

— Bom dia.

Salvatore sustentou o olhar dela por um breve instante.

Não sorriu.

— Se arrume.

A voz saiu firme, sem qualquer mudança de expressão.

— O café da manhã é servido às sete em ponto. Não gosto de atrasos.

O sorriso desapareceu lentamente do rosto dela.

Angelina franziu a testa.

A mudança era tão brusca que, por um momento, chegou a pensar que tivesse feito alguma coisa errada.

Salvatore percebeu.

Percebeu a dúvida estampada no olhar dela antes mesmo que dissesse qualquer palavra.

Aproximou-se apenas o suficiente para que sua voz fosse ouvida com clareza.

— O que foi?

Ela continuou em silêncio.

— Achou que a noite passada mudou alguma coisa entre nós?

Angelina manteve os olhos presos aos dele.

— Não se engane. Continuamos exatamente onde estávamos antes dela.

Ela respirou fundo, mas permaneceu calada.

— Nosso casamento continua sendo um acordo. Você cumpre a sua parte, eu cumpro a minha. Não confunda uma coisa com a outra.

O quarto mergulhou em silêncio.

Angelina desviou o olhar por um instante.

Aquilo doeu mais do que gostaria de admitir.

Não porque esperasse uma declaração ou qualquer demonstração de carinho.

Mas porque poucas horas antes ele a havia tratado de um jeito completamente diferente.

Agora parecia um estranho.

Salvatore abriu a porta do quarto.

— Dez minutos.

Ela voltou a encará-lo.

— Não pretendo repetir o horário.

Sem esperar resposta, deixou o quarto.

Angelina continuou sentada na cama por alguns segundos.

Assim que ouviu a porta se fechar, soltou o ar lentamente.

— Idiota...

Passou a mão pelos cabelos, tentando organizar os próprios pensamentos.

Não entendia como alguém podia mudar tanto de uma hora para outra.

Balançou a cabeça, afastando aquela ideia.

Não valia a pena perder tempo tentando entender um homem que claramente fazia questão de manter distância.

Levantou-se, escolheu uma roupa e começou a se arrumar.

---

Às sete horas em ponto, Angelina entrou na sala de jantar.

A mesa já estava posta.

Os empregados circulavam discretamente, servindo o café da manhã.

Salvatore ocupava a cabeceira, como fazia todos os dias.

Lia o jornal enquanto tomava café, sem demonstrar interesse em qualquer outra coisa ao redor.

Poucos segundos depois, Dante entrou na sala.

— Bom dia.

— Bom dia — respondeu Angelina, oferecendo um sorriso educado.

— Dormiu bem?

Ela hesitou por um instante.

— Dormi.

Dante percebeu que a resposta não era exatamente verdadeira, mas preferiu não insistir.

Sentou-se à mesa e começou a servir o café.

Antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, Salvatore dobrou lentamente uma página do jornal.

— O café da manhã não é lugar para conversas paralelas.

Dante ergueu os olhos.

— Só dei bom dia para ela.

— E já foi suficiente.

Angelina apoiou a xícara sobre o pires.

— Existe alguma regra proibindo educação nesta casa?

Salvatore finalmente levantou os olhos do jornal.

Os dois sustentaram o olhar um do outro.

— Educação e intimidade são coisas diferentes.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Não sabia que dizer "bom dia" era intimidade.

— Agora sabe.

Dante percebeu que a conversa começava a tomar um rumo perigoso.

Tentou amenizar o clima.

— Acho que ninguém aqui quis desrespeitar ninguém.

Salvatore fechou o jornal.

— Eu não disse que desrespeitou.

O silêncio voltou a dominar a mesa.

Angelina respirou fundo antes de voltar a comer.

Não faria sentido continuar discutindo.

Não com ele.

Poucos minutos depois, terminou o café.

Levantou-se da cadeira.

— Com licença.

Desta vez, não esperou que ninguém respondesse.

Saiu da sala de jantar sem olhar para trás.

Assim que a porta da sala de jantar se fechou, Dante pousou a xícara sobre o pires e voltou os olhos para o irmão.

— Era mesmo necessário tratá-la daquela forma?

Salvatore dobrou o guardanapo com calma, como se a pergunta não tivesse importância.

— Esse assunto não diz respeito a você.

— Talvez não. Mas diz respeito à paz dentro desta casa.

— Eu sei muito bem o que estou fazendo.

Dante sustentou o olhar do irmão por alguns segundos.

Conhecia Salvatore o suficiente para saber quando insistir seria perda de tempo.

Ainda assim, resolveu dizer o que pensava.

— Ela acabou de chegar. Não conhece a rotina da casa, nem você o suficiente. Não precisa transformar tudo em uma disputa.

Salvatore levantou-se da cadeira.

— Já encerramos esse assunto.

Dante respirou fundo.

— Tudo bem.

O silêncio durou apenas alguns instantes.

Foi o próprio Salvatore quem mudou de assunto.

— Converse com o Rocco ainda hoje.

Dante já esperava por aquilo.

— Eu pretendia fazer isso.

— Então faça.

— Você sabe que ele gosta da Angelina há muito tempo.

Salvatore permaneceu em silêncio.

— Muito antes de alguém imaginar esse casamento.

— Isso não muda nada.

A resposta veio firme.

Sem alterar o tom de voz.

— Ela é minha esposa agora. Isso basta.

Dante assentiu lentamente.

— Eu sei. Só estou dizendo que talvez ele precise ouvir isso de alguém antes de fazer alguma besteira.

— É exatamente por isso que estou mandando você falar com ele.

Os dois se encararam por alguns segundos.

— Deixe claro que eu não vou admitir falta de respeito dentro da minha própria família.

— Pode deixar.

— Não estou falando como irmão.

Dante franziu levemente a testa.

— Eu sei.

— Estou falando como Don.

Aquelas palavras bastaram para encerrar a conversa.

Dante conhecia bem o significado daquele tom.

Quando Salvatore falava daquela maneira, não havia espaço para discussão.

Apenas para cumprir a ordem.

Ele levantou-se da mesa.

— Ainda hoje eu converso com ele.

Salvatore apenas fez um discreto movimento de cabeça antes de deixar a sala.

Angelina entrou no quarto e fechou a porta atrás de si.

Encostou as costas na madeira e permaneceu alguns segundos completamente imóvel.

Desde pequena estava acostumada com regras.

Sabia como funcionavam as famílias da máfia.

Sabia que um casamento como aquele nunca seria simples.

Mas não esperava acordar ao lado de um homem e, poucas horas depois, ser tratada como se a noite anterior jamais tivesse existido.

Caminhou lentamente até a janela.

Cruzou os braços.

Não era o casamento que a assustava.

Era a falta de controle sobre a própria vida.

Naquela casa, tudo dependia de Salvatore.

Os horários.

As regras.

As decisões.

Tudo.

Ela baixou os olhos para as próprias mãos.

Havia, porém, uma coisa que ainda dependia apenas dela.

Um filho mudaria completamente aquela situação.

E ela não estava disposta a correr esse risco.

Ainda não.

Pegou o celular sobre a cômoda e procurou o contato de Clara.

A ligação foi atendida depois do segundo toque.

— Angelina? Está tudo bem?

Ela respirou aliviada ao ouvir a voz da amiga.

— Preciso de um favor.

— O que aconteceu?

— Nada que eu possa explicar por telefone.

Fez uma breve pausa antes de continuar:

— Dá um jeito de vir até a mansão hoje.

— Eu tento.

— E traz anticoncepcionais para mim.

Do outro lado da linha, Clara ficou em silêncio por um instante.

— Entendi.

— Você consegue?

— Consigo. Eu aviso quando estiver perto.

— Obrigada.

Angelina encerrou a ligação e deixou o celular sobre a cama.

Pela primeira vez desde que acordara, sentiu que ainda tinha o controle de alguma coisa.

Mesmo que fosse apenas daquela decisão.

Ela respirou fundo.

Porque, dali em diante, tinha a sensação de que precisaria lutar por todas as outras.

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