Mundo de ficçãoIniciar sessãoElisie Charpentier
Lucien e Henri continuam conversando na sala, e já se passaram longos minutos desde que chegamos. Eu permaneço sentada onde ele mandou, com as mãos unidas no colo e o olhar perdido em qualquer coisa que não seja os olhos do Don.
Henri fala sem parar. É quase vergonhoso. Ele se inclina demais, ri demais, elogia demais.Parece um cão esfomeado implorando por migalhas. Já Lucien… observa. Escuta. E, às vezes, parece impaciente.
Ele não precisa falar muito, a presença dele ocupa o ambiente com facilidade. Seus olhos, tão escuros que chegam a ser intimidantes, percorrem a sala com um ar de caça à procura de movimento. E algumas vezes, quando menos espero, eles pousam justamente em mim.
Eu disfarço imediatamente.
Abaixo a cabeça.
Olho para o chão.
Finjo que não existo.
Isso é fácil pra mim. Eu passei a vida inteira sendo uma sombra.
Mas hoje… isso pesa mais do que eu consigo descrever. Eu sinto meu corpo implorar para existir, para levantar, para falar. Sinto minha garganta lutar contra o silêncio que Henri sempre me empurrou.
E ainda assim, fico quieta.
Por enquanto.
Ouço passos de salto alto ecoarem pelo corredor. São ritmados, firmes, como se a dona deles estivesse fazendo questão de ser notada.
E então ela aparece. Vivienne Bellamy.
Alta. Loiros perfeitos. Um vestido azul escuro, longo, elegante demais para o jantar de hoje, mas claro, ela quer ser vista. O decote profundo, batom vermelho vivo, postura impecável. E os olhos… aqueles olhos que vão direto para Henri como se estivessem cumprimentando um segredo.
— Esta é minha esposa, Vivienne. — Lucien diz calmamente.
Como se eu precisasse que ele dissesse.
Toda a máfia sabe quem é ela.
Vivienne sorri para mim, um sorriso doce demais, que não combina com a frieza dos olhos.
— Boa noite, Elisie. — Ela diz, entusiasmada demais. — Que bom vê-la.
É a falsidade dela é transbordante.
Depois ela se vira para Henri, e algo muda no ar.
— Henri Dumas… — Ela diz num tom baixo, quase íntimo.
Eles encenam tão bem que poderiam ganhar prêmios, mas eu sei a verdade.
Agora eu sei.Dizem que Lucien e Vivienne estão juntos há três anos. Lembro do casamento deles. Um evento grandioso, mas tenso. A máfia inteira fingindo alegria, enquanto todos mediam passos e palavras.
Casamento feliz na máfia? Quase uma lenda.
Eu nunca vi!
Vivienne cruza as mãos e nos olha.
— O jantar está pronto. Podemos ir à mesa!
Eu espero. Sempre espero.
— Vamos. — Henri diz de forma seca e faz um sinal com a cabeça para o lado.
Seu tom é cheio de indiferença. Eu me levanto com cuidado, segurando minha bolsa como se fosse minha própria vida e me preparo mentalmente. Falta pouco!
O Don vai à frente. A esposa dele logo atrás. Henri acompanha como um cão ansioso por reconhecimento. E eu fico por último. Sempre por último.
No caminho até a sala de jantar, sinto o peso do ar. O cheiro de perfume caro, o som suave das conversas distantes, o estalar da madeira sob os saltos de Vivienne.
Sinto também o olhar dela retornando para trás, me procurando… Não. Não para mim.Para ele. Para Henri.
Ela pisca. Sem vergonha. Sem medo.
E ele sorri.
Aquele sorriso que eu já vi tantas vezes quando está prestes a fazer algo péssimo.
Eu aperto minha bolsa com mais força. Tudo em mim pede para gritar, para explodir de uma vez, para acabar com isso aqui e agora. Mas eu respiro fundo e continuo andando.
Porque hoje tem hora certa.E eu vou cumprir.
Chegamos à mesa. É enorme, de madeira escura, lustres bem em cima dela, refletindo uma luz serena e dando um ar de claridade total. Confesso, tudo aqui é lindo.
Lucien senta na cadeira principal. Vivienne ao lado direito. Henri ao lado esquerdo do Don e eu, como sempre, ao lado de Henri.
Os pratos chegam um a um. Cozinha francesa requintada. Cheiros que deveriam aguçar o apetite… mas eu não sinto nada.
Nem fome.
Nem prazer. Nem medo.Só uma determinação fria.
Os homens começam a conversar. Ou melhor, Henri começa a conversar. Ele fala sem parar, enaltecendo o Don, elogiando negociações, exaltando feitos recentes. Os crescimentos recentes, as conquistas e tudo mais. Nem fico com vontade de ouvir isso.
— Sua postura na última reunião foi memorável, Don Bellamy. Os outros líderes comentam sobre sua liderança.
Eu reviro os olhos sem nem perceber.
Quem sabe ele perceba? Mas não.
Quem percebe é Vivienne.
Claro.— Oh, Elisie… — Ela diz, num tom irritantemente doce. — Está tudo bem? Vi você revirando os olhos.
Henri se vira para mim com raiva, seus olhos flamejando uma ameaça muda.
— É apenas uma enxaqueca insistente, senhora Bellamy. — Eu digo, tentando manter o tom neutro. — Nada demais.
— Sinto muito. — Ela responde, com um sorrisinho falso que me dá ânsia.
Mal termino de falar e sinto a mão de Henri apertar minha coxa por baixo da mesa.
Forte.
Cruel. Um aviso silencioso que diz: Depois conversamos.Depois ele vai descarregar tudo isso em mim. Como sempre.
Eu finjo que não sinto nada. É o que fiz a vida inteira.
Então o silêncio se instala. O Don limpa a boca com o guardanapo. Olha para Henri com calma… calma demais.
E logo mostra que quer falar.
— Henri, eu o chamei aqui esta noite por um motivo específico.
Henri se endireita imediatamente.
Ele até sorri.
— Claro, Don. Estou à sua disposição.
Lucien cruza as mãos.
— Ouvi coisas. E quero que você me diga a verdade sobre as contas atrasadas nos meus bordéis.
A cor some do rosto de Henri.
Ele empalidece como se tivesse visto um fantasma.
— C-contas?
— Bebidas. Mulheres. Drogas. — Lucien continua, impassível. — Meses de contas não pagas. E documentos que comprovam isso.
— I-isso é um mal-entendido. — Henri força um sorriso. — Não são meses, Don… são apenas alguns dias.
O Don b**e a mão na mesa.
O som faz o ar vibrar e eu me tremo toda. Até a sua esposa fica temerosa.
— Você está me chamando de mentiroso, Henri?
Silêncio absoluto. Nem a lareira ousa crepitar.
Eu respiro fundo.
É agora. Ou nunca.
Me levanto.
Minha voz sai baixa, mas firme:
— Don Bellamy… posso dizer algo?
Henri me agarra pelo braço com brutalidade.
— Senta agora, sua cretina! — Ele rosna perto do meu ouvido. — Eu te mato hoje mesmo.
— Ela tem a palavra. — Lucien diz.
A voz dele corta o ar como uma lâmina.
Eu engulo seco.
Minhas mãos tremem. Mas eu me solto.Eu me solto dele como se arrancasse uma corrente velha.
Dou dois passos para trás. Abro minha bolsa. E jogo as fotos na mesa, diante do Don.
Elas se espalham como tiros certeiros. Beijos. Toques. Encontros escondidos.
Vivienne e Henri.
Meu marido e a esposa do Don.
— A sua esposa… — A minha voz não vacila, apesar do tremor interno. — Está tendo um caso com o meu marido.
Henri empalidece ainda mais. Eu nunca o vi assim.
Vivienne fica imóvel, congelada, a boca entreaberta num choque silencioso.
E Lucien… Lucien pega cada foto com a calma de um homem que já sabe exatamente o que vai fazer. Ou que sabia que isso ocorria de alguma forma. Não tem susto nele, não tem surpresa e nem fúria.
Não ainda!
A atmosfera muda. Fica pesada.
Escura.
Irrespirável.E nisso, eu só me pergunto o que o Don vai fazer.







