Mundo ficciónIniciar sesiónElisie Charpentier
O ar pesa dentro dos meus pulmões como se tivesse sido trocado por fumaça. Eu sinto… não, eu pressinto que algo dentro de mim se contrai e diminui, como se meu corpo tentasse desaparecer dessa sala de jantar.
O silêncio dele é errado.
É muito errado.
Eu não esperava isso. Eu jurei que ele iria levantar da cadeira, gritar, destruir a mesa, jogar o copo na parede… qualquer coisa. Qualquer reação explosiva, violenta, incontrolável.
Mas ele não faz nada.
Lucien Bellamy continua ali, sentado, com um cotovelo apoiado no braço da cadeira, a outra mão segurando a foto que eu trouxe, como se fosse apenas uma revista aberta numa página irrelevante. Ele olha a imagem por longos segundos, sem piscar, sem mudar o ritmo da respiração, sem demonstrar raiva ou choque.
Essa calma é o que me destrói por dentro.
Eu sinto um peso enorme descer pelos meus ombros, inundar meus braços, atravessar minha coluna. Minha boca seca. Meus dedos ficam dormentes pela ansiedade. O ar ao redor parece parado, grosso demais para entrar.
É aqui que meu medo dobra.
É aqui que eu entendo que o pior ainda não começou.
— Você está maluca?! — A voz do Henri explode ao meu lado e, antes que eu consiga me virar, sua mão agarra o meu cabelo, puxando minha cabeça para trás com tanta força que meus olhos lacrimejam. — COMO QUE VOCÊ INVENTA UMA COISA DESSAS?!
Meu corpo é puxado e chacoalhado com violência. A dor me ilumina inteira.
— Henri… — Eu tento falar, mas ele me corta com um tapa tão forte que o mundo vira luz por um segundo.
Eu caio no chão.
O gosto de sangue aparece na minha boca, metálico, quente, vergonhoso. Meus ouvidos zumbem. A sala inteira parece girar, mas eu ainda escuto Vivienne se levantar num sobressalto.
— Isso é mentira! — Ela grita, tremendo. — É tudo invenção! Você sabe que eu jamais trairia, meu amor! Jamais!
Henri respira como um touro.
Ele está vermelho, trêmulo, cuspindo ódio por todos os poros.
Ele pega uma das fotos da mesa com um movimento áspero.
— É MONTAGEM! — Ele ruge, apontando o papel para nós, como se o grito dele fosse o suficiente para apagar a realidade impressa. — ESSA DESGRAÇADA SÓ QUER SE LIVRAR DE MIM! É ISSO QUE VOCÊS NÃO ENTENDEM! ELA QUER SAIR DO CASAMENTO HÁ TEMPOS!
Lucien continua calado.
Nenhum músculo reage.
Ele apenas observa.
E é isso que me deixa prestes a vomitar.
Vivienne está pálida. Os olhos dela dançam entre Lucien e as fotos, como se ela estivesse num pesadelo consciente. Ela aperta o próprio braço, as mãos tremem.
Henri se aproxima de mim com o braço levantado, pronto para me bater outra vez.
— Não chegue nem perto dela! É uma odem! — A voz do Don corta o ar como uma lâmina, grave, firme, irresistível.
Ele não precisa gritar como Henri para ser ouvido ou para mostrar autoridade.
Henri congela. Eu nunca vi ele congelar antes.
A respiração dele falha como se tivesse engolido a própria língua.
Ainda no chão, eu me levanto devagar. Meus joelhos tremem. Ajeito minha roupa, a borda da saia, o cabelo despenteado, meus dedos ainda tremendo enquanto toco a minha própria cabeça dolorida.
Eu olho para Lucien mesmo que meu corpo inteiro me diga para não fazer isso. E é como encarar uma parede de gelo. Nada sai dali. Nenhuma emoção, nenhuma fagulha de humanidade.
Eu inspiro, profundamente.
— Tudo é verdade. — Digo a ele.
Henri resmunga um palavrão, mas não se atreve a se mover.
— Eu suspeitei há meses. Eu sabia que precisava de provas… então eu consegui. — Minha voz sai firme, ainda que baixa. — Eu comprei um microfone pequeno, coloquei nas roupas dele. Eu ouvi tudo. Depois… paguei uma das faxineiras do hotel para gravar os dois. Tenho fotos. E tenho vídeos... ela colocou uma câmera no quarto deles. Estão aí...
O rosto do Henri se transforma em ódio puro.
— Você vai me pagar caro, Elisie... — Henri diz.
— CHEGA! — Lucien corta, erguendo a mão.
Henri cala.
Vivienne engole o choro, desesperada.
E então, com a maior naturalidade do mundo, Lucien enfia a mão dentro do próprio terno.
Eu sei o que vem.
Henri também sabe.
— Don… por favor… espera… vamos conversar, sim? — Ele diz, e pela primeira vez desde que o conheci, a voz dele treme de verdade.
Mas Lucien não conversa.
Ele puxa a arma.
Um tiro.
Henri se dobra, a bala entrando direto na barriga. Eu cubro a boca no susto. Ele cai de joelhos, tossindo sangue, o rosto deformado de choque.
Meu estômago vira.
Henri tenta falar, mas só sai um grunhido molhado.
Outro tiro. Na garganta.
O sangue espirra no chão de mármore, formando uma poça que se espalha rápido, escura, quente. A mão de Henri b**e no chão como se buscasse apoio, mas nada mais o sustenta.
Lucien se levanta pela primeira vez na noite.
Ele caminha até o corpo agonizante, pisa na barriga perfurada com um peso calculado, cruel, frio.
— Eu já desconfiava de umas coisas da Vivienne... — Ele diz, como quem comenta o clima. — Só não sabia que era com você!
Henri solta um som horrível, quase inumano.
Lucien inclina a cabeça.
— E agora você morre por causa de uma bucetä que não vale nada!
O terceiro tiro atravessa a testa do meu marido.
O corpo dele apaga imediatamente e eu me abraço num choque imenso.
Vivienne grita.
Ela se vira para correr, mas não tem chance.
— FICA. ONDE. ESTÁ. — Lucien manda sem nem olhar para ela.
Ela congela como um animal encurralado.
— Lucien, eu… por favor… — Ela chora, soluça, tropeça nas próprias palavras. — Foi… foi um erro! Foi só uma vez! Eu estava sozinha… foi rápido… foi… nada demais, eu juro!
Lucien anda até ela.
Eu vejo o corpo da Vivienne tremer como se estivesse no meio de um terremoto e ele anda com postura e controle.
Ele a segura pelos cabelos.
A força é tão brutal que o grito dela ecoa pela sala inteira. Eu estou toda arrepiada.
— Você nunca teve valor... — Ele murmura, sem emoção. — E hoje morre por causa de um que não valia nada como você!
O tiro entra no peito dela.
Vivienne cai de joelhos, tossindo sangue. O rosto dela se contorce de dor e desespero. Ela tenta alcançar o ar, tenta se arrastar, tenta se afastar do destino, mas Lucien não se move.
Ele observa.
Espera.
É como se estivesse estudando a agonia dela apenas por curiosidade. O segundo tiro vem tranquilamente, direto nas costas. Vivienne cai no chão, arfando, até que o som simplesmente… para.
Eu estou paralisada.
O silêncio de depois é pior que os tiros.
Muito pior.
Agora só restamos eu… e ele.







