Mundo de ficçãoIniciar sessãoElisie Charpentier
Henri mantém a postura e apenas faz um inclinar de cabeça.
— Vamos! — Ele diz, com impaciência. — O motorista já está à espera.
Saímos quase juntos, porque ele anda mais à frente. Quando chegamos perto do carro, o vidro mostra algo: um casal que parece perfeito por fora, mas que por dentro é uma ruína prestes a desabar.
Não há diálogo.
Nem sequer um olhar. Não há nada!
Quando entramos no carro, Henri faz sinal para que o motorista não olhe para trás. Ele se senta ao meu lado, ajeitando os punhos da camisa. Eu coloco minha bolsa ao lado, próxima à janela, longe das mãos dele.
Henri nunca liga para detalhes, mas hoje eu não arrisco.
Minha salvação está aqui dentro.
A cidade passa pelas janelas como um borrão de luzes e sombras. Cada farol que cruza o vidro parece iluminar um pensamento diferente. Memórias, medos, planos.
Ele está inquieto, consigo sentir. Tamborila os dedos no joelho e respira fundo de tempos em tempos.— O Don é um homem de poucos amigos. — Ele diz, quebrando o silêncio. — E de menos ainda que ele respeita. Não me faça passar vergonha.
— Eu jamais faria isso. — Respondo com a voz baixa.
Ele vira o rosto para mim, com um olhar de desconfiança.
— Espero mesmo. Qualquer sinal que eu considere errado, vai pagar caro.
E o silêncio volta.
Mas agora é diferente. Ele é pesado, quase palpável, cheio de tudo o que eu não posso dizer.
A estrada para a mansão Bellamy é longa e sinuosa. As árvores se enfileiram nas margens, escuras, imponentes, como se guardassem segredos. A lua está alta, cortando o céu com um brilho pálido.
Por um momento, penso em como seria simples pedir ao motorista que pare e sair correndo. Sumir. Deixar tudo.
Mas não.
Hoje, não é noite de fugir. É noite de enfrentar.
Quando o portão da mansão se abre, um arrepio sobe pela minha espinha. A estrutura é grandiosa, com fachadas brancas, colunas antigas e janelas acesas como olhos atentos.
Há seguranças por toda parte.
O carro para diante da entrada principal, e o motorista sai primeiro para abrir a porta.
Henri desce e, em seguida, estende a mão para mim. Mas é mais por protocolo do que por cortesia. Seguro, por conveniência, e deixo que ele me guie até o interior.
O som dos meus saltos ecoa no piso de mármore, marcando cada passo como se o tempo se certificasse de que eu realmente estou aqui.A governanta nos recebe com um sorriso forçado.
— Senhor e senhora Charpentier. Sejam bem-vindos! O Don chegará em breve.
— Espero que tudo esteja à altura da ocasião. — Henri responde, seco, tirando o casaco e entregando a ela sem sequer olhá-la nos olhos.
— Sim, senhor. — Ela diz, curvando-se levemente. — Por favor, aguardem na sala principal.
Seguimos o corredor. As paredes são decoradas com pinturas antigas e há um perfume amadeirado no ar, suave, mas imponente.
Entramos em uma sala ampla, com uma lareira acesa e sofás de couro. Henri se acomoda com a postura de quem acredita pertencer a tudo que toca.
Eu fico de pé, próxima à janela, observando o reflexo do fogo no vidro.
— Sente-se. — Ele ordena. — E cale-se. Hoje não é sobre você.
A voz dele é baixa, mas o tom é o mesmo de sempre: o aviso velado de quem se acha dono.
Eu apenas aceno.
Engulo o nó que se forma na garganta e sento, com as mãos sobre o colo. A bolsa continua perto de mim, intacta, quase pulsando. Eu me sinto tremer por dentro de ansiedade.
Henri se inclina para a frente.
— Não olhe demais, não fale demais e, pelo amor de Deus, não me interrompa. — Ele sussurra, ríspido. — Quero sair dessa casa com um novo cargo, não com vergonha.
— Eu entendi. — Murmuro. — Não falarei nada.
Ele me encara por alguns segundos, tentando decifrar se há desafio nas minhas palavras.
Há, sim. Mas é silencioso. Invisível.O tempo passa devagar. O relógio de parede marca nove e vinte. Os criados entram e saem, preparando o jantar.
Ouço vozes ao longe. Risos, cumprimentos, sons de taças.
Lucien Bellamy está chegando.
Sinto o coração acelerar. Não por admiração, mas por antecipação. Essa noite será lembrada.
E ele, meu marido, ainda não faz ideia do quanto.
Henri ajeita o terno e se levanta.
— Quando o Don entrar, levante-se. Mantenha o olhar baixo. Não diga nada a menos que ele fale com você. Está claro?
— Muito claro.
Eu estou cansada disso tudo. Ele me trata como se eu fosse um animal. Como se eu fosse burra.
Ele dá um passo em minha direção, tão perto que sinto o cheiro do seu perfume. O mesmo que sempre me causa enjoo.
— Você está estranha hoje... o que é? — Ele me observa toda.
— Nada! Eu estou calada como me pediu... — Digo, engolindo em seco.
Eu o encaro. Por fora, calma. Por dentro, um vulcão. Queria rir. Queria dizer que ele é quem deveria se envergonhar. Mas não digo. Ainda não.
O som de passos firmes ecoa pelo corredor, vindo na direção da sala. Os guardas se movem, discretos.
Henri se endireita e o ar muda.
Lucien Bellamy entra.
Ele é exatamente como descrevem: alto, impenetrável, com olhos escuros que parecem atravessar tudo o que veem. Há algo nele que domina o ambiente sem esforço.
Henri sorri, todo entregue à essa noite. Eu apenas observo. Lucien passa o olhar por nós e, por um instante, seus olhos encontram os meus. É rápido, mas intenso. E esse rápido, noto que ele me olhou dos pés à cabeça.
Sinto como se ele tivesse visto além.
Ele acena brevemente, e Henri quase se curva. O Don se aproxima da lareira e faz um gesto para que todos se acomodem.
— Boa noite! — Diz apenas e ainda me olha.
— Quero agradecer por essa noite, senhor Bellamy. — Henri fala. — A sua casa é poderosa.
— Não preciso de bajulação.
Henri fica todo sem jeito.
E com isso, já fala sobre negócios, ambição, lealdade. Fala demais. Lucien escuta em silêncio, o que é mais assustador do que qualquer palavra. Juro que parece que ele não está dando a mínima para o que ouve.
Eu mantenho a expressão neutra, mas por dentro a tensão cresce. Minha mão, sobre a bolsa, está firme. Ela está ali, comigo. Tudo o que preciso está aqui.
Mas me pergunto: onde está a esposa dele?
E enquanto os dois homens falam, eu penso no que realmente está prestes a acontecer. Henri acredita que esta noite marcará uma nova fase da carreira dele. E ele está certo. Mas não do jeito que imagina.
A noite está apenas começando. E quando terminar, nada será como antes.







