AFONSO COBALTO
“Passei a noite em claro.
Não por causa das queimaduras, nem do peso insuportável que meu corpo carregava depois de horas controlando o fogo na fazenda do sul.
Passei a noite acordado porque ela estava ali.
Amélia dormia sentada na cadeira ao lado da cama, como se tivesse apagado de exaustão enquanto velava meu sono. O cabelo dela caía pelos ombros, a camisola simples deixava parte da clavícula à mostra e, ao me observar por alguns instantes, percebi algo que nunca tinha acontecido comigo:
Eu não queria que ela acordasse assustada comigo.
Queria que acordasse segura.
Ridículo.
Perigoso.
Mas real.
Meu braço latejava dentro da tipóia improvisada. O ombro havia deslocado por causa de um tronco que caiu enquanto eu e meus homens tentávamos conter as chamas. Eu empurrei a madeira com força demais, porque estava com pressa demais, porque queria voltar para casa depressa demais.
Voltar para ela.
O médico disse que ficaria alguns dias sem levantar o braço direito.
Ótimo.