CAPÍTULO 137
Quando a culpa veste a minha pele
CAIO MOREAU BASTIEN
A madrugada tem um jeito cruel de nos despir. Os barulhos do hospital diminuem, as vozes somem, e o que fica é a respiração dos aparelhos, esse pêndulo mecânico que me diz: você ainda está aqui. Eu gostaria de acreditar que isso basta.
Eu tento mover os pés. Primeiro o esquerdo. Nada. Depois o direito. Um formigamento tímido. O médico falou em chances, em tempo, em fisioterapia. Palavras compridas quando a alma está curta de esperança.
A cadeira ao lado da cama tem o cheiro dela. Alinna. Eu disse que não me casaria. Eu a vi derramar o mundo pelos olhos e sair. Fiquei preso entre a coragem que me trouxe até aqui e o medo que pode me deter.
O medo tem nome: impotência. O medo tem pernas: as minhas, que hoje não obedecem. O medo tem rosto: o dela, imaginando um futuro em que eu seja metade do que prometi ser. Eu nunca soube viver pela metade.
Fecho os olhos e estou de novo nas Maldivas. A luz baixa, o som do mar, minha