O dia se arrasta mais do que devia.
Quando finalmente anoitece e eu volto pra casa, entro pela porta com aquela sensação estranha de expectativa. Como se estivesse chegando em algo, não só em um lugar.
A casa está acesa. Não toda, só o suficiente. Ouço risada vinda da sala antes mesmo de ver. Uma risada pequena, infantil. Depois a dela, mais baixa, contida.
Apareço no vão da porta.
Aurora corre primeiro.
— Papai!
Me abaixo a tempo de pegá-la no colo. Ela envolve meu pescoço sem pensar duas vezes. Beijo a testa dela, demorado, como faço desde sempre.
— Oi, meu amor.
Ela apoia a cabeça no meu ombro. É só então que olho pra frente.
Ela está parada a poucos passos, meio sem saber onde colocar as mãos. Me observando. Como se ainda estivesse aprendendo qual é o lugar dela agora.
Chego mais perto. Aurora ainda no meu colo. Não digo nada. Só inclino o corpo e beijo a testa dela também.
Sinto o corpo dela reagir no mesmo instante. Um leve susto, seguido de algo que parece alívio.
— Boa noite —