Samuel
O quarto está quieto de um jeito estranho. Não é silêncio de mansão, cheio de paredes grossas e segredos. É um silêncio cheio de respiração, de maquininha apitando baixo, de passos de enfermeira no corredor.
Anny dorme na cama, exausta. Os cabelos grudados na testa, o rosto ainda marcado pelo esforço, a mão solta sobre o lençol como se tivesse parado no meio de um gesto de proteção.
A cada tanto, ela solta um suspiro pesado, como se o corpo estivesse tentando acreditar que acabou.
Eu estou na poltrona, ao lado da cama. Andryel dorme encolhido no meu peito, a cabeça encostada na curva do meu braço, um gorro ridículo cobrindo metade da testa.
Três quilos e pouco que pesam mais do que qualquer safira bruta que já segurei na vida.
Já passei anos segurando caixas, cofres, contratos milionários, prêmios de “Empresário do Ano”. Nada disso nunca me fez suar frio como agora, com esse corpo minúsculo respirando sincronizado com o meu.
Olho para ele e o mundo todo parece encolher.