— Senhor Roman — Dora disse, com a mesma neutralidade de sempre. — Esta é Ana.
O escritório parecia menor naquele instante.
Natan levantou o olhar devagar, como se estivesse terminando um raciocínio importante antes de conceder atenção ao que vinha a seguir. O movimento foi calculado. Analítico. Habitual.
E então, reconheceu.
Não pelos traços exatos, a luz ali era diferente da do hotel, mais clara, menos indulgente, mas pelo conjunto. Pela postura. Pelo jeito como ela ocupava o espaço sem pedir licença. Pela mesma calma que não era submissão.
A mulher do carro.
A mulher do hotel.
A mulher que saíra ao amanhecer vestindo a camisa dele.
Ali.
Sob o teto dele.
Por um segundo, o cérebro de Natan fez o que sempre fazia: organizou a informação. Classificou. Arquivou. Confirmou padrões.
O mundo realmente era pequeno.
Ana percebeu no mesmo instante.
A fração de segundo em que os olhos deles se encontraram foi suficiente para que a memória emergisse inteira, sem cortes